As mobilizações destas duas semanas no Peru deixam a descoberto a estrutura real do poder. A chamada Geração Z — jovens estudantes, trabalhadores precarizados e coletivos urbanos e rurais — irrompeu nas ruas com um nível de consciência que transborda os canais tradicionais de representação política.
Durante estas duas últimas semanas, a mobilização abalou Lima e outras cidades, com estopim imediato da mobilização a Lei N.º 32123, aprovada pelo Congresso e respaldada pelo Executivo, que obriga todos os jovens e trabalhadores a se filiarem a AFPs ou ONP, independentemente da precariedade laboral. Esta norma não busca garantir pensões dignas: assegura que os fundos de milhões de trabalhadores permaneçam sob controle privado, alimentando a burguesia enquanto os trabalhadores financiam sua própria subordinação.
Nada do que ocorre no país deve ser entendido como disputa pelo Estado: este não é um árbitro neutro nem um instrumento de mediação. Polícia e exército não protegem a cidadania; são instrumentos de coerção a serviço da classe dominante, que se expandem e se reforçam quando as contradições sociais se intensificam. A juventude o aprendeu de maneira direta: cada marcha, cada concentração e cada praça tomada evidenciam a natureza repressiva de um aparato estatal que protege interesses privados enquanto reprime aqueles que produzem a riqueza.
Denúncia ao governo golpista e sua cumplicidade
Não se pode ignorar que por trás desta máquina se encontra um governo golpista e de ultradireita: o de Dina Boluarte, que demonstrou sua afinidade com os setores mais reacionários do país, incluindo a cumplicidade ativa do Congresso. Este regime não apenas sustenta os interesses das burguesias locais, como também sintoniza com a agenda internacional do trumpismo, buscando consolidar a influência do imperialismo sobre a política nacional. Em outras palavras, a repressão e as leis contra os explorados não são incidentais; fazem parte de uma estratégia deliberada para manter a subordinação do país às burguesias locais e estrangeiras.
Leis do capital: a reforma previdenciária como estopim
As tentativas de recuar parcialmente — projetos de revogação parcial, saques extraordinários — são meras operações cosméticas. As AFPs continuam extraindo mais-valia dos afiliados; os bancos e corporações, junto à casta política, asseguram que os recursos sigam circulando em benefício da classe dominante. Paralelamente, episódios como os conflitos em Pataz e Antamina mostram de maneira crua a aliança entre Estado e empresas: a repressão de comunidades que protestam contra a exploração mineira evidencia que os mecanismos de coerção estatal não se limitam à cidade, mas se estendem para proteger a acumulação de capital onde for necessário.
Juventudes que não se calam: composição e demandas
A Geração Z se constituiu em um ator político autônomo. Coletivos estudantis, trabalhadores independentes e precarizados expressam demandas claras:
- Rejeição absoluta à reforma previdenciária e à obrigatoriedade de filiação a AFPs e ONP.
- Exigência de saques de fundos como mecanismo de defesa ante a extração constante de riqueza.
- Denúncia da corrupção estatal, dos salários escandalosos de congressistas e presidentes, e dos negócios privados que se sustentam com recursos públicos.
- Justiça pelas vítimas de protestos anteriores (2022-2023), ainda sem responsabilizados.
- Garantias mínimas para o protesto, sem repressão nem intimidação.
Estas demandas não buscam ajustes parciais, mas confrontar de maneira direta um regime cuja essência é proteger a burguesia e disciplinar os trabalhadores.
Aparelhos de coerção a serviço da classe dominante
O Estado burguês desdobra seus instrumentos de coerção de maneira metódica. Polícia e exército atuam com violência sistemática: bloqueios de praças, uso de bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha, detenções em massa, ataques a brigadas de saúde e jornalistas. Não se trata de episódios isolados: é a função estrutural do Estado, garantindo que a riqueza de poucos se mantenha intacta enquanto se reprime aqueles que desafiam a exploração.
Os conflitos em Pataz e Antamina são exemplos explícitos: comunidades e trabalhadores enfrentam a violência organizada do Estado para proteger interesses mineiros, demonstrando que a repressão não é “excessiva” mas constitutiva da ordem burguesa.
Reformismo no ridículo: López Chau
Se o reformismo burguês alguma vez acreditou que poderia mediar entre as demandas populares e a casta política, a realidade o desmentiu com ironia. López Chau (candidato do partido de centro-esquerda Agora Nação) pretendia atuar como mediador durante as mobilizações na Praça San Martín, mas foi vaiado publicamente. Sua tentativa de negociar com a indignação juvenil se transformou em um espetáculo ridículo que expôs sua impotência.
Este episódio lembra o da congressista Susel Paredes (Primeiro as Pessoas), que foi impedida de ingressar nas ocupações da Universidade Nacional Mayor de San Marcos devido à rejeição de estudantes que ainda se lembram de seu papel na repressão a vendedores ambulantes quando era funcionária municipal. Ambos os casos evidenciam o mesmo: a mediação reformista não logra reconhecimento nem autoridade entre aqueles que sofrem a exploração, e seu papel se reduz a tentar apaziguar a fúria dos explorados enquanto prolonga a dominação burguesa.
Reformismo: mediações que prolongam a opressão
Os sindicatos tradicionais, como a CGTP, sob a direção de grupos stalinistas ou maoístas, preferem desfilar ao lado de grêmios burgueses como a CONFIEP, CAPECO ou a SIN, anunciando a criação de um suposto “Frente Popular” contra o fascismo, enquanto evitam organizar a mobilização a partir das bases. Optam pela legitimidade institucional antes que pela autonomia de trabalhadores e jovens, subordinando as lutas reais à fachada de uma aliança com a burguesia.
As promessas de diálogo, eleições antecipadas ou reformas superficiais funcionam como válvulas de escape que desviam a indignação juvenil do objetivo central: golpear as estruturas de exploração e submeter o poder da classe dominante a um questionamento real. López Chau e Susel Paredes encarnam a farsa do reformismo: mediadores que, sob a ilusão de negociação, terminam sendo sócios tácitos dos governos de plantão, hoje o de Boluarte, cúmplices da repressão e prolongadores da opressão, incapazes de representar sequer os interesses elementares daqueles que sofrem a exploração.
Obstáculos estruturais e estratégia revolucionária
O regime herdeiro do fujimorismo e do neoliberalismo de 1993 possui uma estrutura de poder reforçada que não desmorona pela espontaneidade das mobilizações. Sua solidez se sustenta no apoio econômico de bancos, AFPs, agroexportadores e grandes mineradoras, que têm no Estado um instrumento de coerção para garantir estabilidade e maximizar benefícios. Polícia e exército reproduzem a violência de classe, e os meios de comunicação criminalizam os manifestantes para justificar a repressão.
A fragmentação da classe trabalhadora e a precariedade generalizada agravam a situação. Grande parte dos operários ainda não participa de forma organizada; o exército industrial de reserva, denominado por alguns como setor informal, permanece disperso. A concentração das mobilizações em Lima facilita a ação repressiva central, enquanto nas províncias os movimentos são mais vulneráveis. A repressão sistemática —intimidação, ameaças e violência— reduz a resistência temporariamente, e a esquerda institucional, cúmplice do sistema, não constrói uma coordenação estratégica real. Em conjunto, isto fortalece o Estado burguês e reforça a ideia de que apenas a organização independente dos explorados pode desafiá-lo.
As reformas graduais não derrubam a exploração: a mobilização deve se converter em ação consciente. Para isso, é necessária a entrada organizada da classe trabalhadora — operários do campo, mineração, agroexportação, transporte e serviços essenciais — para paralisar os centros de mais-valia. Uma greve geral política convocada a partir das bases, com assembleias democráticas em cada local de trabalho, bairro ou distrito, permitiria coordenação sem intermediários burgueses.
Sem esta organização, os protestos continuarão sendo fragmentários e vulneráveis à cooptação reformista, e o regime burguês continuará operando com sua máquina de coerção intacta.
Conclusão: o ressurgir da faísca histórica
A Geração Z acendeu novamente uma faísca no Peru, uma faísca que vai além da defesa de fundos previdenciários: aponta diretamente para os alicerces do regime burguês, essa máquina que garante a riqueza de poucos enquanto milhões sobrevivem na precariedade e exploração sistemática.
Se os trabalhadores, jovens e camponeses conseguirem transformar sua indignação em organização consciente, disciplinada e autônoma, poderão identificar o verdadeiro inimigo: a casta política, as AFP, os bancos, a burguesia mineira e agroexportadora, os meios de comunicação e os aparelhos de coerção estatal. Só então a revolta deixará de ser um grito disperso para se tornar uma força capaz de desafiar a exploração e pôr em evidência a opressão estrutural que sustenta a ordem burguesa.
Que não se limite à fragmentação nem às mediações reformistas. Que a faísca juvenil e operária se transforme em fogo que derrube a farsa do regime golpista de Boluarte e sua cumplicidade com o Congresso, exponha o alinhamento com o imperialismo e o trumpismo, e submeta a exame cada engrenagem da máquina estatal que protege o capital e reprime a vida dos explorados.
Com Esquerda Diário