Entre as declarações que motivaram a ação, Bolsonaro comparou o cabelo de uma pessoa negra a um “criatório de baratas”. O caso mostrou entre tantas vezes seu racismo visceral e asqueroso, mas que é também parte de um padrão histórico de desumanização das pessoas negras, como observa o relator: “Trata-se de comportamento que tem origem na escravidão, perpetuando um processo de desumanização das pessoas escravizadas”.
Mas o caso vai além do racismo individual, ele se insere em uma lógica utilizada por Bolsonaro e toda a extrema-direita de deslegitimar qualquer reivindicação histórica dos quilombolas e povos tradicionais pelo direito à terra. Como se não bastasse a ofensa racista em si, esse tipo de declaração, ainda mais vinda de um presidente em exercício como era o caso, busca enfraquecer e criminalizar a luta pela terra, que historicamente enfrenta resistência de setores ligados ao agronegócio. Enquanto Bolsonaro menospreza direitos históricos e alimenta preconceitos, quilombos continuam a resistir, ocupando e defendendo territórios que o Estado e os latifundiários tentam usurpar.
A condenação civil é um reconhecimento tardio do dano causado por Bolsonaro, mas reforça o ponto que temos defendido desde o julgamento do ex-presidente: não é possível confiar no STF ou em qualquer instancia do judiciário, para garantir que haverá punição plena de Bolsonaro, seus aliados empresariais e militares, nem que haverá medidas efetivas contra a extrema-direita estruturada no país.
Enquanto isso, quilombolas e movimentos de base continuam enfrentando ameaças concretas e ataques. Como é o caso do Pará, onde a PM de Herder Barbalho (MDB) reprime protesto da comunidade quilombola e joga bombas em escola infantil, ou no Rio Grande do Sul, onde a rede se supermercados Zaffari, que também super explora trabalhadores na escalas que chegaram a 10×1, em conluio com a prefeitura destrói casas no quilombo Kedi, ignorando decisão judicial.
É preciso ligar o combate ao racismo à luta pela terra e pelos direitos sociais, entendendo que ataques como os de Bolsonaro não são meras piadas de mau gosto, mas parte de uma estratégia de exclusão e subordinação histórica. A resistência dos quilombolas, assim como a mobilização dos trabalhadores e setores populares, é a única garantia de enfrentar tanto o racismo quanto a apropriação indevida de territórios.
Com informações de Esquerda Diário