Texto publicado originalmente no dia 18/09 em Révolution Permanente
4 horas da manhã desta quinta-feira e a impressão em alguns piquetes de greve era a de voltar alguns anos no tempo. Na memória dos sindicalistas, os trabalhadores da empresa não estavam tão mobilizados desde 2019, quando a RATP (Autoridade Autônoma de Transportes de Paris) e a SNCF (Companhia Nacional das Ferrovias Francesas) foram a linha de frente na luta contra a reforma da aposentadoria de Macron.
As taxas de greve são muito altas. No metrô e no RER (Rede Expressa Regional), o dia de greve é massivo e generalizado. Como anunciado desde terça-feira, com exceção das linhas automáticas, o metrô só circula durante as horas de pico, entre 6h30 e 9h30, e depois entre 16h30 e 19h30. De acordo com informações sindicais, entre 80% e 95% dos trabalhadores estão em greve.
Nos ônibus, muitas garagens estão fortemente mobilizadas. São 80% de grevistas nas garagens de Pleyel e de Asnières, 76% em Thiais, 70% em Pavillon, 65% em Saint Denis e 50% em Charlesbourg e Nanterre. Na garagem de Créteil, várias centenas de agentes se registraram como grevistas nos últimos dias. No lado da Transdev, em Vulaine, 95% estão em greve. Em algumas garagens, nenhum ônibus sairá durante o dia.
Da raiva contra a privatização à raiva contra Macron
Na RATP, não faltam razões para se mobilizar. Em novembro deste ano, a abertura à concorrência começará na empresa. Nos últimos meses, uma por uma, as garagens de ônibus souberam para quais empresas seriam vendidas. Para as outras, a espera pela identidade do comprador anuncia que futuras degradações virão.
Do piquete de greve na garagem de ônibus de Saint Denis, Jordan, sindicalista da CGT, denuncia “uma destruição do serviço público”. Ele continua: “Em Saint-Denis, seremos comprados no dia 30 de abril. Não sabemos quais serão nossas condições de trabalho, nossos salários. Hoje está cada vez pior. Quase não há mais ônibus.”
Em Lagny, Fred compartilha o mesmo sentimento. “A abertura à concorrência vai piorar nossas condições de trabalho com material defeituoso, horários cada vez mais carregados.” Para o motorista, o dia também foi uma oportunidade de fazer a ligação com uma mobilização nacional. “Nesta quinta-feira, a greve tem adesão massiva na RATP. Mas este governo despreza todos os trabalhadores, os jovens e os aposentados. Precisamos de um movimento conjunto.”
Othmane, grevista em Pleyel, concorda: “Não é só a RATP ou a SNCF que estão mobilizadas hoje. É um espírito geral. Todos já estão fartos.” Em Aubervilliers, uma promessa é feita: “Fizemos Bayrou cair com o dia 10, no dia 18 vamos derrubar Macron e [o novo primeiro-ministro] Lecornu.”
Construir a convergência diante da repressão policial
Para construir essa convergência, os grevistas da RATP chamaram os apoiadores para se juntarem a eles nos piquetes. Isso é um hábito no setor, renovado pelas assembleias gerais “Bloquons Tout” (“Vamos bloquear tudo”) no dia 10 de setembro. Em Lagny, no 20º arrondissement [1]de Paris, mais de cinquenta pessoas compareceram.
Entre eles, Nicolas, um trabalhador da saúde. “Como trabalhador da saúde, era importante para mim estar na garagem de Lagny, nos reunirmos em locais estratégicos de bloqueio como este. Precisamos expressar nossa solidariedade entre os diferentes setores.” Mais tarde pela manhã, os grevistas se juntarão aos estudantes mobilizados de Hélène Boucher, a poucos metros dali.
Esse tipo de ação se repete diante dos estudantes de Rosa Parks em Saint Denis, que os grevistas da garagem de Barrage foram apoiar. John, militante da CGT, fala: “Estamos orgulhosos de vocês. Também fizemos um piquete de greve, estamos nos mobilizando pelas mesmas razões!” Algumas horas antes, Irène, estudante da Paris 8 e militante do Poing Levé, devolvia a bola: “Votamos na Assembleia Geral para vir apoiar os grevistas. Sabemos que, para estabelecer uma correlação de forças, precisamos nos unir com os trabalhadores em greve.”
Uma aliança ainda mais necessária visto que a repressão atingiu duramente as garagens. Desde as 5 horas da manhã, tiros e granadas de gás lacrimogêneo, cercos e ofensivas policiais se multiplicaram. “Estava tudo indo muito bem, e a polícia chegou e multiplicou as violências”, testemunha Christophe, motorista da RATP na garagem de Lagny.
Esse é um símbolo do medo que o governo sente ao ver o movimento se ampliar — mas também, de fato, um meio de impedir os bloqueios, o que coloca a necessidade de estender a greve na RATP e em outros lugares.
Chamado para se juntar à Assembleia Geral Paris Norte e preparar os próximos passos
No final da manhã, os grevistas planejam se juntar à Assembleia Geral Paris Norte. “Temos que ir à Assembleia Geral dos ferroviários. É a convergência que faz nossa força”, diz Nadia, de Pleyel. Um chamado para reconstruir uma aliança dos trabalhadores dos transportes, que havia dado força ao movimento de 2019: “Não existe a RATP de um lado e a SNCF do outro, estamos todos no mesmo barco”, defende Othmane. Em Malakoff, a seção da CGT havia publicado, no início da semana, um panfleto defendendo a construção de delegações nessa perspectiva.
Diante das garagens de ônibus, uma outra tensão anima os grevistas. Se a greve foi massivamente aderida, os piquetes de greve foram construídos de forma desigual. Laurent, condutor de metrô, defende, nesse sentido, a importância de se organizar a partir da base: “Precisamos discutir todos juntos para encontrar soluções, ir além do dia 18 e da intersindical.”
Para Yassine, em Malakoff, é preciso se inspirar nas Assembleias Gerais de “Bloquons Tout”, que buscam se conectar com o movimento operário para bloquear a economia. Essa é uma questão central para colocar um fim na privatização na empresa, nas condições deterioradas de trabalho e, também, para construir um movimento coletivo contra Macron e seu projeto de mundo.
[1] Arrondissements são unidades administrativas em Paris, similares a distritos.
Com informações Esquerda Diário