Quase 70 mil palestinos mortos, entre eles 20 mil crianças — embora a contagem final possa facilmente dobrar esse número (um general israelense aposentado admitiu que, entre mortos e feridos, chegam a quase 10% da população de Gaza). Fomes cuidadosamente geridas. Terra arrasada. Em suma, a marca indelével de um plano genocida para alcançar o objetivo explícito do governo Netanyahu de levar adiante uma nova limpeza étnica e anexar os territórios palestinos ao “Grande Israel”. Não por acaso, uma das frases mais lidas e ouvidas nestes dias é a definição do historiador Tácito, no auge da Pax Romana: “Onde fazem um deserto, chamam de paz.”
O “plano de 20 pontos” anunciado por Trump para supostamente pôr fim ao conflito em Gaza é resultado de uma trabalhosa negociação entre os enviados pessoais de Donald Trump (seu amigo S. Witkoff e seu genro J. Kushner), o governo israelense e os regimes árabes e muçulmanos aliados dos Estados Unidos. Estes assumiram o duplo papel de pressionar o Hamas a fazer o máximo de concessões possíveis da resistência palestina e, ao mesmo tempo, conter as aspirações expansionistas de Netanyahu, que levavam à expulsão em massa da população palestina. Mas o que começou como um ultimato ao Hamas — exigindo seu desarmamento em 72 horas (!), e sua virtual dissolução, cedendo Gaza a um consórcio presidido pelo próprio Trump e por Tony Blair — acabou abrindo um processo de negociação mais condizente com a realidade no terreno.
A primeira etapa, assinada por Israel e Hamas em Sharm el-Sheikh, com a mediação do Egito e do Qatar, contempla quatro pontos: o cessar-fogo que já está sendo implementado — embora Israel tenha assassinado ao menos 60 palestinos nas primeiras horas da trégua e provavelmente seus franco-atiradores continuem matando civis em Gaza; o recuo parcial do exército israelense para trás das linhas negociadas, o que significa reduzir sua ocupação de 80% da Faixa de Gaza para 53% do território; a troca de todos os reféns israelenses em poder do Hamas — 20 vivos e 28 mortos — pela libertação de aproximadamente 2.000 prisioneiros palestinos, entre eles 250 altos membros de organizações da resistência palestina condenados à prisão perpétua em Israel; e o ingresso irrestrito de ajuda humanitária administrada pelas Nações Unidas (fala-se de 400 a 600 caminhões diários), que o Estado sionista havia bloqueado, substituindo-a por uma agência própria administrada por mercenários, como parte da política sinistra de usar a fome como arma de guerra.
No contexto de uma negociação tensa — com disputas de última hora em torno da lista de prisioneiros palestinos que Israel libertaria — paira uma sensação de déjà vu que remete ao último acordo negociado em janeiro de 2025 e rompido dois meses depois, em março, quando Netanyahu decidiu retomar o genocídio em Gaza para evitar a queda de seu governo, ameaçado pelo abandono da coalizão por seus parceiros da extrema direita.
Esse precedente certamente alimenta a hipótese de fracasso. No entanto, desta vez parece que será mais difícil para Netanyahu voltar ao genocídio “de costume”, devido a uma combinação de fatores de diferentes naturezas, que envolvem desde a dimensão geopolítica até a luta de classes.
Nesse sentido, há pelo menos três elementos determinantes para o timing e o eventual desdobramento do acordo.
Em primeiro lugar, o impacto nos equilíbrios regionais após o ataque de Israel contra os negociadores do Hamas no Qatar, um aliado indispensável dos Estados Unidos, que não apenas exerce um papel diplomático em favor dos interesses norte-americanos, como também abriga a principal base militar imperialista. Essa violação escandalosa da soberania catariana pôs em alerta os demais aliados árabes de Washington na região. E, como relataram vários jornalistas, enfureceu Donald Trump, que considerou que Israel — seu aliado prioritário, mas também seu cliente — havia ido longe demais, colocando em risco seu plano de “normalização” do Oriente Médio, uma versão ampliada dos Acordos de Abraão, destinada a florescer os lucrativos negócios com as monarquias do Golfo. O episódio resultou em uma humilhação para Netanyahu, que, do Salão Oval e sob o olhar vigilante de Trump, teve de pedir desculpas ao primeiro-ministro do Qatar.
Em segundo lugar, o envolvimento pessoal de Trump — que é o principal sustentáculo financeiro, militar e diplomático do Estado sionista — faz com que qualquer violação dos termos do acordo se traduza em um desafio direto ao “patrão” de Netanyahu. Isso ocorre em um contexto no qual a aliança incondicional dos Estados Unidos com Israel está sendo internamente questionada. Segundo uma pesquisa recente do New York Times/Siena, pela primeira vez uma leve maioria da população norte-americana simpatiza mais com os palestinos do que com Israel. Como o próprio Trump reconheceu, essa queda na popularidade de Israel atingiu o núcleo militante da base republicana identificada com o movimento MAGA e seus principais porta-vozes, como S. Bannon (e, em privado, Charles Kirk, elevado à categoria de mártir da extrema direita), que criticam desde a influência de Israel na política externa norte-americana (“Israel First em vez de America First”, dizem com ironia) até o dinheiro dos contribuintes — 21 bilhões de dólares desde outubro de 2023 — destinado a financiar o genocídio do Estado sionista.
Por último, mas não menos importante, a profunda deslegitimação de Israel pelo genocídio, expressa na última votação das Nações Unidas, deixa os Estados Unidos praticamente sozinhos, assumindo a defesa do Estado sionista e de seus crimes aberrantes, acompanhados por um punhado de cipayos como Milei. Nesse isolamento internacional qualitativo do Estado sionista desempenha um papel central o poderoso movimento contra o genocídio e em solidariedade ao povo palestino, que se transformou em um problema político de primeira ordem para os governos europeus aliados e cúmplices de Israel — alguns dos quais optaram por reconhecer o Estado palestino para aliviar a pressão interna, como foi o caso da Grã-Bretanha.
É de se esperar, então, que se “tudo correr de acordo com o plano” – como diria a extrema direita messiânica – em 15 de outubro os reféns estariam de volta a Israel. Embora sempre possa haver falhas, o indício mais certo de que isso é possível é o envio de cerca de 200 soldados norte-americanos à região e o fato de que Donald Trump planeja viajar nesse mesmo dia a Tel Aviv para capitalizar o que considera o principal êxito diplomático de sua presidência — com o qual poderia compensar a até agora fracassada negociação com Putin e Zelenski para pôr fim à guerra na Ucrânia. A aspiração de Trump, para além de sua vaidade pessoal (ganhar o Prêmio Nobel da Paz, que neste ano não se concretizou) e que sem dúvida desempenha um papel importante, é dar passos na recomposição da liderança em declínio dos Estados Unidos, demonstrando que é a única potência capaz de impor ordem e disciplinar aliados e inimigos, pensando estrategicamente na disputa com a China.
Mas, para além da conjuntura imediata do cessar-fogo, aberta por esta primeira etapa, tudo é incerteza.
Sem dúvida, no papel, o plano de 20 pontos proposto por Donald Trump é um ambicioso projeto colonial, cujo objetivo final é impor um protetorado em Gaza sob tutela do imperialismo e de seus aliados árabes; estabelecer o domínio colonial de Israel sobre a Cisjordânia, legalizando o apartheid já imposto pela expansão dos assentamentos ilegais — ainda que sem a anexação formal de todo o território nem a expulsão da população palestina, como desejam os colonos e os partidos mais fascistas da coalizão de Netanyahu. Mas, na prática, trata-se fundamentalmente de um acordo de cessar-fogo, uma pausa tática, mais do que uma “solução final” baseada no único elemento que poderia lhe dar sustentação: a “vitória total” de Israel sobre o Hamas – e, de modo mais geral, a derrota histórica da luta palestina – que Netanyahu persegue sem sucesso desde o início do genocídio em Gaza, após os ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023. Isso apesar da devastação de Gaza e dos êxitos militares do Estado sionista – notadamente a eliminação da cúpula do Hamas e do Hezbollah – e da ofensiva paralela na Cisjordânia.
Supondo que o cessar-fogo se mantenha e que a primeira etapa transcorra sem maiores incidentes, as fases seguintes do acordo apresentam dificuldades praticamente intransponíveis. O Hamas não aceitará se desarmar e desaparecer simplesmente (por que o faria, se em dois anos conseguiu sobreviver?) e já adiantou, em sua declaração de aceitação parcial do plano trumpista, que estaria de acordo com um futuro governo árabe em Gaza dentro da “estrutura política palestina” que os inclua. Netanyahu se veria novamente diante do dilema apresentado pelo acordo anterior: dois anos de genocídio para retornar a uma situação semelhante à de 6 de outubro de 2023. Embora o acordo não mencione explicitamente um (improvável) Estado palestino, ele rejeita a anexação dos territórios palestinos e o deslocamento da população – que constituem o programa central dos principais aliados de Netanyahu, B. Smotrich e B. Gvir – e que, em março, colocaram o governo de Bibi à beira do colapso. Nesse contexto, há vários cenários possíveis: o governo pode cair e convocar eleições antecipadas; Israel pode retomar os ataques em grande escala em Gaza; ou pode retornar à sua rotina colonial de “genocídio incremental”.
Sem dúvida, entram na equação os interesses geopolíticos do imperialismo norte-americano no Oriente Médio, que colidem com a política belicista permanente de Netanyahu, a qual acabou repercutindo entre os aliados dos Estados Unidos. Mas, além da dimensão geopolítica, há a luta de classes. No imediato, a convergência entre a resistência palestina e o movimento internacional de solidariedade – que deu um salto, como se viu na greve geral na Itália e no enorme impacto da Flotilha Global Sumud – impôs um limite ao genocídio. O aprofundamento e a radicalização dessa luta são o que poderão derrotar definitivamente o Estado genocida de Israel e seus cúmplices imperialistas.
Com Esq Diário