Desde 1º de junho, milhares de trabalhadores da educação no México estão em greve nacional por tempo indeterminado, liderada pela Coordenação Nacional dos Trabalhadores da Educação (CNTE). A poucos dias do início da Copa do Mundo, professores, juntamente com estudantes, estão se mobilizando contra as medidas de austeridade na educação, particularmente em relação às aposentadorias.
Embora o governo de centro-esquerda de Claudia Sheinbaum tenha feito campanha em 2024 com a promessa de revogar a lei ISSSTE, que privatizou e corroeu significativamente as pensões do setor público por mais de 20 anos, a presidente agora se recusa a reconsiderar a lei. Ela cita razões econômicas, alegando falta de recursos, algo mais difícil de justificar do que nunca, considerando os US$ 3 bilhões que o governo gastou para financiar a organização da Copa do Mundo da FIFA, que começa em 11 de junho.
Por trás da promoção do diálogo, o Estado está enviando forças para reprimir o movimento.
Na manhã desta segunda-feira, após percorrerem centenas de quilômetros para chegar a um protesto da CNTE na Cidade do México, professores e alunos da Escola Normal Superior do Estado de Guerrero foram recebidos com bloqueios, cordões policiais e operações destinadas a impedir sua chegada à capital. Um grande contingente policial e de choque foi mobilizado nas entradas da cidade e em toda a Cidade do México para impedi-los de se juntarem à mobilização nacional liderada por milhares de trabalhadores da educação. Esses eventos ocorrem enquanto o governo afirma publicamente estar buscando acordos com o corpo docente mobilizado, mas responde com bloqueios policiais àqueles que exercem seu direito de se organizar e protestar.
Além dos professores e alunos que vieram demonstrar solidariedade aos professores em greve, entre os alvos da repressão estavam os pais dos 43 estudantes desaparecidos em Ayotzinapa. Esses jovens foram sequestrados e provavelmente assassinados em 2014 com a cumplicidade de setores do Estado enquanto se dirigiam a uma manifestação em memória de outro massacre patrocinado pelo Estado, o de Tlatelolco.
A imagem é difícil de ignorar: pais e mães que dedicaram mais de uma década à busca por seus filhos estão agora cercados por dezenas de policiais; jovens estudantes em formação e futuros professores estão sendo monitorados pelas forças de segurança; e professores estão sendo tratados como uma ameaça por tentarem participar do protesto na praça principal da capital. Tudo isso enquanto o governo persiste em se apresentar como defensor do diálogo e dos direitos democráticos.
O governo quer impedir que a mobilização se espalhe.
A intimidação das marchas em Guerrero insere-se num contexto de crescentes tensões sociais, marcado pela greve da CNTE e pela simpatia que esta gerou em amplos setores de trabalhadores, estudantes e organizações populares, que se preparam para a aproximação da inauguração da Copa do Mundo de Futebol de 2026: é precisamente por essa razão que o Estado tem tentado impedir a chegada daqueles que buscam fortalecer o movimento.
Organizações sociais e defensores dos direitos humanos denunciaram o fato de que impedir a livre circulação dessas manifestações constitui uma medida autoritária e um obstáculo ao exercício de seus direitos de protestar e se organizar.
Mais de uma década após o desaparecimento dos 43 estudantes, as famílias continuam a exigir a verdade e a justiça, demonstrando, ao mesmo tempo, a sua solidariedade com as lutas dos trabalhadores, estudantes e movimentos sociais que se opõem às políticas de precariedade e repressão no país.
Essas operações contra as marchas vindas de Guerrero refletem a preocupação das autoridades de que a greve dos professores possa continuar ganhando apoio entre estudantes, trabalhadores e organizações de base. A solidariedade entre sindicatos, estudantes de Ayotzinapa e diversos setores sociais reflete uma convergência de lutas que desafia as políticas educacionais e previdenciárias, bem como as limitações de uma administração que se diz “democrática” enquanto recorre a mecanismos de controle policial diante da mobilização social.
Denunciamos e condenamos a detenção e o assédio sofridos pelos pais dos 43 alunos desaparecidos de Ayotzinapa, pelos alunos da escola normal e pelos professores, especialmente os de Guerrero, que a polícia está tentando impedir de ir para a Cidade do México.
Enquanto o governo se vangloria de sua democracia e prepara a Copa do Mundo como uma vitrine internacional, lança operações contra aqueles que lutam pela verdade, justiça e direitos sociais. Este não é um incidente isolado: faz parte de uma política de criminalização de protestos contra o corpo docente do CNTE, as famílias de Ayotzinapa e os setores de base que se organizam para reivindicar seus direitos.
Reiteramos nossa solidariedade aos professores que participam do protesto, aos estudantes da faculdade de formação de professores e às famílias dos 43 estudantes desaparecidos de Ayotzinapa, e exigimos que sua liberdade de movimento e seu direito de manifestação sejam garantidos. Oferecemos nosso total apoio à justa luta do CNTE, que busca uma aposentadoria digna, educação pública e direitos trabalhistas, e que faz parte da reivindicação por verdade e justiça para Ayotzinapa. Com RP