Sugestão semanal de filmes, a partir de uma temática específica, com a colaboração da página no Instagram. Um fórum de debate, críticas e notícias do cinema sob o olhar do marxismo.
O CINEMA DE TERROR JAPONÊS
Não acho que seja exagero dizer que o cinema de terror japonês é o mais influente do mundo.
A literatura Kaidan, datada entre o Xogunato (Era Edo- feudal) e o Império (Era Meiji- moderna), foram as primeiras narrativas de medo. O fato de estar sustentada no xintoismo, uma religião politeísta, a faz transcender da relação dicotômica ocidental de “bem x mal”, construindo uma interpretação mais complexa dos fenômenos até então desconhecidos. O fantasmagórico assume a forma de uma dimensão de seres, não necessariamente como propagador do mal, mas sim da vingança- Onryō.
A perspectiva do feminino também é outra. Ao contrário do arquétipo Hollywoodiano de vítima- donzela a ser salva- a mulher japonesa encarna a entidade monstruosa, consagrado pela pioneira atriz Suzuki Sumiko. Do ponto de vista ideológico, isso pode ser representado pela manutenção do patriarcado através da misoginia. Ou pela estética da contestação, como expressão do sofrimento feminino e a busca de retaliação social.
No próprio cinema expressionista, das décadas de 20 e 30, o fator psicológico já estava presente e só aumentou com o pessimismo que assolou a sociedade japonesa após o bombardeio atômico em Hiroshima e Nagasaki. Surgiu, então, um imenso paradoxo de um país que ascendeu como imperialismo asiatico ao mesmo tempo que sofreu um brutal processo de colonização cultural dos EUA.
Refletindo essas contradições se estabeleceu um padrão cinematográfico no pós guerra com os clássicos Kaijus, filmes de monstro que destruiam cidades, sendo o primeiro deles Godzilla (1954), de Ishirō Honda.
Mesmo no cinema épico e narrativo de Akira Kurosawa, o horror esteve presente em Trono de Sangue (1957), adaptação surrealista de Macbeth de Shakespeare.
A ruptura desse padrão estético ocidentalizado ocorreu com a Nouvelle Vague (Nova Onda) japonesa, que colocou no centro da cena as convulsões políticas e sociais. Filmes de baixo orçamento, preenchidos de ousadia criativa e com formatos inovadores, absorvendo pautas LGBTQI+e das minorias étnicas, assim como expressando a rebeldia da juventude, a revolução sexual e o novo papel da mulher na sociedade. O gênero de terror foi vanguarda nesse movimento, radicalizando essas tendências, principalmente a partir da precursora obra de Kaneto Shindō, Onibaba (1964). Uma alegoria da fome em tempos de guerra.
O terror japonês revolucionou a indústria no final dos anos 90, fase da decadência dos filmes norte-americanos de Slasher. A relação entre o fantástico e a psicanálise se estreitaram nas obras de Kiyoshi Kurosawa, como a Cura (1997), e o gore e a violência extrema encontraram um sentido mais filosófico em Audição (1999) de Takashi Miike. Filmes de causar “inveja” a aclamados diretores geralmente conhecidos pelo grande público, caso de Scorsese, Tarantino e Brian De Palma.
Ringu- O chamado (1998) e Ju-on- O Grito (2002) consolidou definitivamente o reconhecimento internacional do agora popularizado J-Horror. Filmes que atingiram o grande público pelos remake’s. E mesmo que os tradicionais estúdios tenham dificuldade, e até falta de interesse, com um cinema mais autoral, lento e contemplativo que atue sobretudo no subconsciente, o terror japonês transformou o gênero. O inimigo externo passou a ser interno. E todo o centro no trauma expôs com mais visceralidade o sofrimento da época neoliberal.
Dito isso, sem mais enrolação, os filmes da da semana:
1.Onibaba (1964)
Japão feudal- Uma mulher e sua nora vivem de matar e roubar os samurais no pântano, quando descobrem que Kichi, respectivamente filho e marido, morreu na guerra. A nora se envolve amorosamente com o vizinho e a Mãe arma um plano para atormentá-la.
A Cura (1997)
O Detetive policial Takabe investiga um caso complexo de sucessivos homicídios, com as mesmas marcas, porém feito por pessoas diferentes. Paralelamente, conhecemos um jovem estranho e perdido numa praia, que não sabe quem é e nem de onde veio.
Audição (1999)
Um viúvo que mora com seu filho sente a necessidade de casar novamente. Com ajuda de um amigo utilizam do seu trabalho para realizar uma falsa Audição de emprego e nesse processo encontrar uma pretendente. O plano parece dar certo, mas logo o romance se transforma em pesadelo.
Ju-on (2002)
Não confundir com o remake que também é dirigido por Takashi Shimizu. Uma assistente social é enviada para cuidar de uma família e começa a ser amaldiçoada e perseguida por duas entidades. A partir desse momento, todos que entram na residência desaparecem ou morrem.
Com informações da Esquerda Diário