A história de Bonnie e Clyde, os heróicos ou infames criminosos da Grande Depressão americana, foi adaptada várias vezes para o cinema. Cada uma dessas versões — Bonnie and Clyde (1967), Bonnie & Clyde: The True Story (1992), e The Highwaymen (2019) — reflete de maneira distinta as tensões e os debates políticos e sociais de suas respectivas épocas. Estas representações cinematográficas não são apenas sobre os crimes cometidos por Bonnie Parker e Clyde Barrow e sua fuga épica, mas também sobre as lutas ideológicas que elas carregam.
1967 – Bonnie & Clyde
O filme de Arthur Penn, lançado em 1967, não foi apenas um marco cinematográfico; foi uma revolução de ideias. Ambientado no auge da Guerra do Vietnã, esse Bonnie and Clyde capturou o espírito de rebeldia que marcava os anos 60. Na tela, os dois criminosos são retratados como heróis populares, desafiando a ordem, o estado e o poder dos bancos. A narrativa, que expõe uma crítica feroz ao sistema bancário e à repressão do Estado, se conecta diretamente à juventude que, em plena contracultura, questionava a autoridade e as instituições.
O banditismo do casal não é apenas um crime comum, mas uma guerra simbólica contra a repressão capitalista, algo que podemos comparar ao embelezamento de figuras como os cangaceiros no cinema novo brasileiro ou até a adesão descompromissada de diretores da Nouvelle Vague ao maoísmo.
Penn, no entanto, não celebra o crime como a crítica revisionista rasa tenta transmitir. Ele desenha um retrato da alienação social e existencial dos personagens. Bonnie, com sua vida limitada a um emprego de garçonete, busca na criminalidade uma forma de escapar da sua realidade opressora, apenas para ser cooptada pela fama e se tornar mais uma mercadoria da indústria cultural, que lucrou nos anos 30 e lucra muito com os “inimigos do estado”. A cena de abertura, em que Bonnie aparece nua, entre grades, é uma metáfora visual para essa alienação.
A impotência sexual de Clyde também pode ser lida como uma metáfora crítica. Clyde não é o gângster indomável que desafia as autoridades com sua força ou astúcia; ao contrário, ele é um homem que, assim como a classe que representa na alegoria de Penn, é incapaz de atuar de maneira eficaz dentro do sistema, sendo constantemente frustrado. Sua violência, portanto, não é um sinal de poder, mas de uma impotência que ele tenta substituir pela força das armas, o que, tomado como tarefa individual, se revela impossível.
1992 – Bonnie & Clyde: The True Story
Chegando aos anos 90, a versão de Gary Hoffman para a televisão, Bonnie & Clyde: The True Story, é uma pasteurização do mito de Bonnie e Clyde. Com uma abordagem mais convencional e menos carregada de paixão, o filme reflete a restauração conservadora da época. A história dos dois criminosos agora é um produto cultural, sem qualquer tentativa de questionar ou desafiar o sistema social ou econômico.
Ao invés de criticar a estrutura social que gera o crime, como visto no filme de Penn, a versão de Hoffman opta por apresentar o crime como resultado de falhas morais individuais. A ideia de que a violência é um reflexo das desigualdades sociais desaparece.
2019 – The Highwaymen
Em The Highwaymen, o filme de John Lee Hancock de 2019, assistimos a uma de expropriação da lenda de Bonnie e Clyde e sua substituição pela construção de um mito em torno dos seus perseguidores. Lançado após um período de crescente polarização política nos Estados Unidos, o filme coloca a história sob a perspectiva da polícia, exaltando a figura do Texas Ranger Frank Hamer e sublinhando uma inexistente moralidade do Estado em sua luta contra o crime. O que é apresentado como uma reinterpretação mais profunda dos eventos históricos, na verdade é uma grande produção reacionária e deturpada do espírito de época dos anos 30 do início ao fim, apesar das grandes atuações e de ser um filme que vale a pena assistir.
A imagem de Bonnie e Clyde é desumanizada, e seus atos de resistência e sua popularidade entre as classes trabalhadoras durante a Grande Depressão são minimizados. O filme não reconhece a verdadeira razão pela qual esses criminosos se tornaram heróis populares: o ódio da população contra os bancos e o sistema político da época, que os via como inimigos do povo.
O filme de 2019 retoma o caminho de filmes como Os Intocáveis e apesar da sua suposta fidelidade factual distorce muito mais o contexto dos anos 30 do que a versão romantica de 1967, ao colocar o foco da história nos policiais. Quando na realidade a grande marca do período que fascinou roteiristas e diretores é o grande apoio popular que os “inimigos públicos” do estado na época, criminosos comuns, tiveram canalizando o ódio aos bancos, aos políticos e à justiça no contexto da grande depressão. Justamente Bonnie e Clyde se tornam populares antes do ascenso das greves que eclodiram a partir de 1934, que canalizou para a luta de classe o sentimento de revolta que tornou os criminosos e assaltantes de bancos e comércios heróis populares. Como sinal dos tempos atuais, não temos só a revisão conservadora de clássicos, mas filmes como O Irlandês avança mais da crítica a simbiose entre o crime e o estado, um aspecto negligenciado inclusive pelas vanguardas artísticas dos anos 60.
Com informações da Esquerda Diário