Desde quarta-feira (16), o assessor-chefe da Assessoria Especial do Presidente da República, Celso Amorim, está em visita a Pequim, capital da China. A principal agenda do ex-ministro na cidade foi uma reunião com o membro do Bureau Político do Comitê Central do Partido Comunista da China e ministro das Relações Exteriores, Wang Yi.
Amorim entregou a Wang uma carta do presidente Lula para o presidente chinês, Xi Jinping. De acordo com o ex-ministro, o conteúdo da carta esteve voltado a um balanço positivo da relação entre os dois países, além de tratar de temas como inteligência artificial, satélites e supercomputadores.
Em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, Celso Amorim falou sobre o conteúdo da carta e sobre projeções das relações com a China, especialmente na área de inteligência artificial. Além disso, tratou sobre o Brics, que passa a estar sob a presidência chinesa.
Com as recentes sinalizações dos Estados Unidos, o ex-chanceler abordou também como o Brasil e a China têm visto as tentativas de ingerência, seja em vários países da América Latina, seja nas próprias eleições brasileiras.
Confira a entrevista completa:
Brasil de Fato: O senhor entregou ao chanceler Wang Yi uma carta do presidente Lula dirigida a Xi Jinping. Que mensagem central Lula quis transmitir a Xi neste momento da relação Brasil–China? E há expectativa de novos avanços ou iniciativas concretas a partir dessa conversa?
Celso Amorim: A mensagem principal é um balanço positivo dos progressos feitos ultimamente em várias áreas. Entre elas, a de computadores, como o caso de supercomputadores, e a área espacial, envolvendo satélites. Tem também a expectativa de um trabalho conjunto em relação à inteligência artificial com base em código aberto e com padrões éticos que possam ser aceitáveis.
Quais são as expectativas do Brasil com relação à presidência chinesa do Brics e em quais áreas o senhor acha que o Brics deve avançar mais concretamente?
A China tem, como o Brasil, uma vocação natural pelo multilateralismo. Na reunião com Wang Yi, eu citei até uma frase que eu tinha lido do Xi Jinping, de que é preciso carregar a tocha do multilateralismo. É fundamental para a China, considerando que é um país que progrediu dentro de um sistema multilateral de respeito, a existência de, pelo menos, algum respeito às regras internacionais. E o Brasil também precisa disso para poder avançar. É muito importante também o papel que a China pode ter no conflito entre Irã e Estados Unidos, considerando o peso do país na busca pela paz no Oriente Médio. Assim, como o Brasil, a China também é afetada imediatamente por esse conflito, especialmente pela reação iraniana de fechar o Estreito de Ormuz.
Agora, com relação a avanços, há vários aspectos importantes. Como exemplo, no que diz respeito à inteligência artificial, há visões que não são totalmente coincidentes entre todos os países. Mas isso não impede que nós avancemos naquilo que é possível em certas aplicações, certos padrões de regulação. Além disso, eu diria que um aspecto muito importante, que foi objeto de muitas conversas, é o financeiro e monetário. Embora, pela sua própria natureza, seja um aspecto que avança devagar. Eu acho que é um campo em que a China pode, sem dúvida, ajudar. Isso também envolve fazer com que o Banco dos Brics seja cada vez mais ativo.
Como o senhor avalia a percepção da China sobre o atual movimento dos Estados Unidos na América Latina? O senhor acredita que o Brasil também precisa estar atento a possíveis pressões ou tentativas de ingerência?
Eu não posso falar em nome da China. Eu acho que nós temos muita afinidade com a China no que diz respeito a não intervenção em assuntos internos em qualquer região. Agora, o Brasil tem que estar atento aos riscos de intervenção externa, venha de onde vier, ainda que ele tenha condições diferentes de outros países.
Por isso mesmo, o presidente Lula tem enfatizado a importância do fortalecimento da nossa defesa. O Brasil é um país pacífico, mas o fato de ser pacífico não é uma garantia de que ele não possa vir a sofrer algum tipo de interferência. Nós não podemos aceitar isso.
Outro tema discutido ontem foi a inteligência artificial. Qual será o papel do Brasil na Organização Internacional para Cooperação em Inteligência Artificial (Waico)? Como o senhor avalia uma possível reação dos Estados Unidos a esse movimento do Brasil em direção a uma IA mais ética, aberta e inclusiva?
Não estamos preocupados sobre qual vai ser a reação desse ou daquele país. Achamos que é uma pena que, na realidade, haja dois sistemas. Mas eu acho que, por ora, é inevitável. São filosofias diferentes, principalmente no que diz respeito ao código aberto e padrões éticos.
O que é importante é que a Waico contempla uma inteligência artificial com base em código aberto. Isso nos possibilita desenvolver os nossos próprios aplicativos, sem interferência externa, em princípio. A gente sabe que a inteligência artificial ainda é algo com que nós estamos começando a caminhar. Mas, pelo menos em princípio, nos facilita um caminho como esse que nos permite inovar sem dar satisfação, sem pedir licença a ninguém. Para o Sul Global, o fato de ter uma inteligência artificial de código aberto é muito importante. Eu quero frisar que, no caso da criação da Waico, estava presente o Secretário-Geral da ONU, dando à organização uma espécie de bênção multilateral.
Na reunião que o senhor teve com o chanceler chinês, também discutiram minerais críticos e terras raras. Existe uma intenção de avançar de uma relação baseada principalmente no comércio para uma cooperação tecnológica e industrial que permita ao Brasil agregar mais valor a esses recursos?
Eu não diria que houve uma discussão em profundidade, mas acho que os dois países reconhecem que é preciso tratar desse desenvolvimento tecnológico. No caso do Brasil, o presidente Lula tem sempre reiterado que nós não queremos só ser exportadores de minérios. Um outro aspecto é que queremos beneficiar, valorizar, usar cientificamente. Algo muito importante, que tem que ser dito e frisado, é saber identificar as suas necessidades, seja na defesa, na ciência, na questão espacial, nos supercomputadores, etc. Para isso, a recente criação do Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos (Cimce) é de grande importância. Em todas aquelas necessidades, precisa-se beneficiar estes minerais.
A gente precisa saber trocar experiências com a China, que é muito rica também nesse material. Não é que ela precise destes nossos minerais, nem nós estamos precisando dos minerais de lá, necessariamente. É mais uma questão de trocar experiências de como fazer esse beneficiamento e como utilizar isso em prol de um desenvolvimento tecnológico. Pode ser cooperativo, mas tem que guardar um grande grau de autonomia.
Com EBC