Há 50 anos atrás, à meia noite, em Luanda, Agostinho Neto (MPLA) proclamava a independência. No mesmo momento, Holden Roberto (FNLA), no Ambriz, e Jonas Savimbi (UNITA), em Huambo, faziam o mesmo. A partir daí, é colocado o fim do regime colonial português e se reinicia a guerra civil que duraria até 2002, com a vitória do MPLA.
“Conheço a escravidão, 1482, trouxe de novo o Diogo Cão”, diz o Movimento Hip Hop Terceira Divisão em seu álbum “Legítima Defesa”. Foi o ano da primeira chegada portuguesa à Ngola, que marcou séculos de colonização e de sequestro de africanos da costa do Reino do Congo para o trabalho escravizado nas Américas. Colonização que se aprofundou com a Conferência de Berlim no final do século XIX. Esses séculos foram marcados brutalmente por roubos humanos, regimes de trabalho forçado, destruição de comunidades tradicionais, espoliação das riquezas naturais como o petróleo e o diamante e a imposição de uma total miséria às amplas massas.
A luta de libertação, com seu início na década de 1960, no chamado “ano da África” (que marcou diversas independências de ex-colônias britânicas e francesas), foi marcada pela formação dos diversos movimentos nacionalistas. A Baixa de Cassange, em janeiro de 1961, uma greve de trabalhadores do algodão massacrada pelas forças repressivas, foi o estopim para o início da Guerra de Independência. A luta nacional contra a colonização e a convulsiva situação internacional, marcada pelas lutas de libertação não só nas demais colônias portuguesas como Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, mas também na Argélia, Vietnã e outras, e a Revolução dos Cravos que derrubaria o regime salazarista em Portugal, empurraram os movimentos independentistas à vitória.
Influenciados por diferentes matizes estratégicas e financiamentos externos, o MPLA, a UNITA e a FNLA entraram em uma sangrenta guerra civil. A concepção stalinista de “partido exército” militarizado, tanto do MPLA, mas também das outras forças, suprimiram as possibilidades de auto-organização democrática das massas trabalhadoras angolanas, e deram origem, desde o início, à um Estado burocrático e autoritário, mantendo grandes setores da burguesia controlando os meios de produção das principais riquezas naturais. Logo no início da Guerra Civil, os países imperialistas, por meio da África do Sul do Apartheid, invadiram o sul de Angola para fortalecer a UNITA e a contrarrevolução, entretanto a chamada “Operação Savana” foi derrotada já em 1976.
O Massacre do 27 de Maio de 1977, com dezenas de milhares de assassinados pelo MPLA como forma de expurgo político, marcaram um salto no autoritarismo do novo regime que se conformava. Após o final da Guerra Civil, com a morte de Jonas Savimbi, a UNITA e a FNLA passam à oposição. A década de 1990 foi marcada por uma forte abertura econômica de Angola ao neoliberalismo. Privatizações em massa, precarização do trabalho, venda de recursos naturais à empresas estrangeiras.
Hoje o país segue sendo um dos mais pobres do mundo. Como publicamos em um texto anterior: “A espoliação capitalista faz com que um terço dos angolanos vivam com menos de 2,15 USD por dia, o que equivale à extrema pobreza, segundo o Banco Mundial, um dado completamente chocante. A taxa de desemprego chega a quase 30%, sendo que na juventude o número chega a 54%. Ou seja, mais da metade da juventude angolana não tem emprego, o que se expressou também na revolta. Alguns dados sobre a qualidade de vida da população também mostra o nível de precariedade, segundo o Instituto Nacional de Estatística do próprio governo angolano, em duas diferentes pesquisas apenas 44% da população tem acesso à saneamento básico, 53% à eletricidade, 64% à serviços de água potável e 39% das crianças menores de 5 anos sofrem de desnutrição crônica, e ainda que haja uma desigualdade entre a população urbana e rural, são dados alarmantes.”. Enquanto isso, a dívida pública corrói 63% do orçamento nacional, indo direto aos bolsos de banqueiros estrangeiros.
Essa situação faz com que o ódio contra o Estado e os governos do MPLA seja permanente. Como se expressou na forte greve dos taxistas na metade deste ano, junto à revolta popular que paralisou o país por três dias.
Hoje o João Lourenço e seu governo, inundados em corrupção, tentam dar continuidade ao discurso oficial do MPLA de “libertadores da nação”, promovendo eventos festivos que gastam milhões de kwanzas, como o jogo do dia 14 entre Angola e Argentina, enquanto crianças estão sem material escolar e sem saneamento básico.
Como disse o jovem de Caop, em Luanda, “pão pão, queijo queijo”. Não temos nada a perder na luta contra um sistema que joga milhões à miséria. O Estudo aprofundado das lutas de libertação deve ser usado para tirarmos os balanços e contradições do processo. O sangue deixado na heróica luta de independência não pode ser utilizado em falsos discursos para justificar a perpetuação do MPLA no poder, mas sim retomado para encher de energia as novas gerações que vislumbram uma nova sociedade mais justa e igualitária, uma sociedade socialista. Nós do Esquerda Diário nos colocamos de prontidão para fortalecer essa luta em Angola, no continente africano e em todo o mundo.
Com Esq / Diário