(Matéria atualizada às 19h em função da Conferência de Imprensa de Donald Trump e Benjamin Netanyahu na tarde desta segunda-feira, 29)
Trump anunciou sua “proposta de paz”: um verdadeiro ministério das colônias chefiados pelos mesmos responsáveis pelo genocídio, sem qualquer tipo de escolha pelos palestinos senão aceitar que Trump, Netanyahu, Tony Blair e as reacionárias burguesias árabes construam uma “Força de Estabilização Internacional” (ISF, no acrônimo em inglês) para reprimir os protestos dos palestinos que desejarem retomar seu território e a reconstrução de suas vidas em suas mãos. Abjeto.
Adicionalmente, Trump propôs que se a proposta fosse aceita pelas partes, as linhas de combate seriam congeladas e o Exército sionista permaneceria ocupando as posições conquistadas até que se prove que Gaza foi “des-terrorizada”, cujo critério será decidido pelos próprios agressores: Trump e Netanyahu. Gaza seria então entregue ao comando de um Conselho de Paz chefiado por Trump e Israel, setores da burguesia árabe e possivelmente com o trabalhista inglês, Tony Blair.
Não à toa, esse “Ministério das colônias” foi plenamente aceito pelo assassino Netanyahu: suprime-se qualquer autodeterminação do povo palestino com o objetivo de quebrar a continuidade da luta de classes no mundo pela Palestina.
Em resumo, a proposta “imperialista” é tornar Gaza uma zona “livre de terrorismo e desradicalizada”, que não represente uma ameaça para os seus vizinhos. Isso implica a saída do Hamas da Faixa de Gaza. O Hamas seria substituído pelo tal Conselho de Paz, que seria presidido pelo próprio Trump, e incluiria possivelmente o trabalhista inglês, Tony Blair.
Em contrapartida, Trump disse que Gaza será “reconstruída para o benefício do seu povo, que já sofreu mais do que o suficiente”. Ninguém será forçado a deixar Gaza, e aqueles que desejarem partir serão livres para fazê-lo e livres para retornar. Caso ambas as partes concordem, a “guerra terminará imediatamente”. As forças israelenses se retirarão para a linha acordada para preparar a libertação dos reféns.
Significa que o cessar-fogo estará subordinado a criação de um novo poder em Gaza, a saída do Hamas e a entrega de reféns. Gaza seria governada sob a administração transitória e temporária por um comitê palestino “tecnocrático e apolítico”, submetida a esse Conselho de Paz comandado pelo Trump, ou seja, um comitê de marionetes dos americanos.
Trata-se de uma proposta radical com vários termos que o Hamas já negou anteriormente e que possivelmente não seja aceito. O que pode estar sendo usado como uma forma de justificar e legitimar uma nova ofensiva ainda mais brutal do que a que vem sendo colocada, com a ocupação total da Faixa de Gaza, expansão das colônias na Cisjordânia e ameaça de anexação dessa região. Um novo banho de sangue em larga escala.
A proposta já contou com apoio dos demagógicos líderes europeus como Emmanuel Macron, que fez a França “reconhecer” o Estado Palestino e condenar o genocídio, e agora brinda alegremente a solução encontrada que favorecerá ainda mais a influência do imperialismo europeu na região, sobretudo caso se consolide a rachadinha com Tony Blair.
Em uma reedição da velha política de tutela imperialista, Donald Trump estaria cogitando o nome de Tony Blair — conhecido por seu apoio a invasão do Iraque em 2003, comandada pelo governo americano de George Bush — para assumir o comando do “Conselho de Paz”, um organismo artificial que contaria com apoio da ONU e de países árabes aliados.
O ex-primeiro-ministro britânico, que governou o país de 1997 a 2007, seria o chefe de uma administração temporária na Faixa de Gaza, de acordo com reportagens da BBC e do The Guardian. Essa administração imperialista assumiria o controle do território até uma suposta “transição” para o domínio palestino. Tal proposta ecoa iniciativas de ocupação anteriores, como as missões da ONU no Kosovo e em Timor-Leste, que pavimentaram a intervenção ocidental em nome da “estabilização”
Não por acaso, a possível nomeação de Blair encontra resistência imediata entre os palestinos. Sua associação à destruição do Iraque e à morte de centenas de milhares de civis — ao lado de George W. Bush — é uma mancha indelével no legado do político trabalhista.
O legado de Tony Blair no Iraque a serviço dos interesses dos EUA
Desde que deixou o cargo em 2007, Blair tentou se reposicionar como diplomata do “processo de paz”, atuando como enviado do Quarteto Internacional para o Oriente Médio, focado em projetos de desenvolvimento econômico. Mas sua imagem permanece profundamente marcada por sua cumplicidade nos crimes de guerra no Iraque e por seu alinhamento incondicional à lógica imperialista. A nomeação de um agente histórico da guerra e da ocupação para liderar uma suposta reconstrução de Gaza é um escárnio e uma provocação à dignidade do povo palestino.
A guerra do Iraque foi amplamente deslegitimada por uma investigação oficial britânica, o informe Chilcot, que demonstrou que o Reino Unido invadiu o Iraque sem esgotar as vias diplomáticas e sem provas concretas da suposta ameaça que Saddam Hussein representava. Mesmo após esse escândalo, Blair manteve sua postura arrogante, afirmando que o mundo estaria “mais seguro” após a invasão, apesar de admitir que as consequências foram “mais sangrentas e prolongadas” do que o previsto.
Apesar da negativa de seu gabinete de que Blair aceitaria um projeto que implicasse deslocamento forçado da população de Gaza, o histórico do ex-premiê é suficiente para deixar clara sua função: servir de rosto “civilizado” e “humanitário” para uma ofensiva imperialista que visa neutralizar a resistência palestina e a crescente solidariedade internacional a esse povo, garantindo os interesses estratégicos dos EUA, de Israel e de seus aliados na região.
Reação a entrada da luta internacionalista de trabalhadores na cena histórica
Trump, que havia sugerido transformar Gaza em uma “Riviera do Oriente Médio”, assumindo o controle completo e unilateral região, promovendo o deslocamento forçado — cinicamente chamada de “voluntário” — da população palestina para o Egito e Jordânia, busca dar uma solução para ganhar o espaço conquistado. Ao mesmo tempo, a diferença entre as propostas mostra que é uma tentativa de conter a luta pela palestina que cresce no mundo.
Não é por acaso que essa proposta começa a ser cogitada após a greve geral italiana em 22 de Setembro, que contou com manifestações massivas em 80 cidades e paralisações de ferrovias e portos. É a primeira greve geral política e de caráter internacionalista do país em décadas.
O despertar de uma profunda solidariedade internacional em setores de trabalhadores é um dos maiores medos da burguesia mundial e do imperialismo, sendo o efeito contraditório produzido pelo extermínio étnico em Gaza. A entrada em cena dessa classe, com seus métodos históricos de mobilização, fará com que as potências atuem para evitar que se espalhe, o que já vem dando sinais que pode ocorrer sobretudo no Estado Espanhol e na França.
No próprio Reino Unido, a solidariedade internacionalista tem sido duramente reprimida pelo regime britânico. Embora o país tenha começado a falar contra os “excessos” de Israel, tem imposto medidas cada vez mais autoritárias contra o movimento palestino. A começar com o grupo Palestine Action, que foi banido no Reino Unido após um protesto em que jogou tinta vermelha em aeronaves militares que prestam apoio logístico às ações terroristas de Israel em Gaza, contribuindo diretamente para o massacre palestino. Diversos protestos tem ocorrido contra o banimento do Palestine Action, que representa um ataque ao movimento pró-palestina como um todo no Reino Unido e na Europa, e milhares de manifestantes são detidos em cada um desses protestos, como o ocorrido neste fim de semana.
A tentativa de impor uma administração internacional, à revelia da autodeterminação palestina, não é um projeto isolado. Em julho, França e Arábia Saudita apresentaram uma proposta semelhante na ONU, prevendo a supervisão de Gaza pela Autoridade Palestina — iniciativa que foi rejeitada por Washington e Tel Aviv, por não atender aos objetivos de controle total e desmilitarização impostos pelo sionismo. Agora, com o apoio de Trump, o plano com Blair à frente busca impor uma solução ainda mais dura, sob a aparência de neutralidade internacional.
Essa movimentação ocorre num momento de tensão diplomática crescente. Nesta semana, Reino Unido, França, Canadá e Austrália anunciaram o reconhecimento do Estado da Palestina, medida que, na prática, segue subordinada ao modelo falido da solução de dois Estados em que Palestina serve de legitimação da ocupação colonial do território histórico palestino por Israel.
Para Israel e EUA, esse reconhecimento seria uma “recompensa ao Hamas”, reafirmando suas pretensões de estabelecer um controle sobre a totalidade do território palestino. É que tem avançado com a invasão total de Israel em Gaza, tomando a principal cidade da região em base ao uso sistemático da fome como arma de guerra, destruição de moradias e todo tipo de meio de vida local. Assim como na Cisjordânia, com a ampliação das colônias sionistas em meio a declarações de políticos do governo israelense em favor da anexação desse território.
O que está em jogo não a paz em Gaza, mas uma repartição do controle da Palestina entre as potências em uma espécie de “Ministério das Colônias”. A luta do pelo fim do genocídio deverá necessariamente enfrentar o interesses das grandes potências imperialistas, sobretudo dos EUA e da Europa, que são os maiores fiadores do massacre em Gaza. Por isso, somente o fortalecimento da organização independente frente aos governos tanto por parte dos movimentos de solidariedade ao povo palestino, quanto também pelas lutas de trabalhadores que começam a colocar os seus métodos de luta, paralisando a produção e circulação capitalista, a serviço de uma política internacionalista de defesa da Palestina, seguindo o exemplo dos italianos.
Mas também seguindo o exemplo da Global Sumud Flotilha que mostrou ao mundo que é possível fazer algo contra o genocídio e pela Palestina, contribuindo para que o mundo veja o que está acontecendo em Gaza e se some a essa luta que está no coração da luta anti-imperialista do mundo hoje. É a maior missão humanitária marítima para romper o bloqueio humanitário de Netanyahu expressando a força da solidariedade internacional, que vem sendo alvo de inúmeros de ataques terroristas, criminosos de Israel. A Flotilha que foi parte de contaminar os trabalhadores italianos e mostrando que seu objetivo é muito maior que a entrega de ajuda humanitária e o fim do bloqueio, mas também mostrar para os palestinos que não estão sozinhos e que a solidariedade internacional pode e está se ativando em todas as partes do mundo.
A luta palestina está na coração da luta internacionalista e anti-imperialista, contra o racismo colonial e o capitalismo, se enfrentando com o roubo do território palestino em base a uma limpeza étnica. Aprofundar a solidariedade internacional, seguindo o exemplo da Flotilha e da greve geral na Itália, é fundamental para arrancar uma Palestina Livre do Rio ao Mar.
Com Esquerda Diário