Na noite de domingo, 07 de setembro, Milei reconheceu sua derrota eleitoral em Buenos Aires, uma derrota de caráter nacional, pelo peso político e econômico desse estado no país, o que atribuiu a razões políticas, ao aparelhamento político dos prefeitos peronistas, e não econômicas, afirmando a necessidade de uma autocrítica, ratificando o rumo econômico rejeitado nas urnas. O governo perde volume político sendo derrotado em seis das oito seções eleitorais em que está dividida Buenos Aires por uns 15% de diferença. Quem capitalizou o descontentamento foi o peronismo em geral e em particular o governador Axel Kicillof na sua interna contra o kirchnerismo e o massismo. Mesmo assim, o triunfo unifica o peronismo na expectativa de ganhar mais espaços na eleição legislativa nacional no domingo, 27 de outubro, que renova 127 deputados na Câmara Baixa e 24 senadores na Câmara Alta. Por sua vez, uma parte desse descontentamento se expressou na votação da esquerda em Buenos Aires em geral, particularmente na Terceira Seção Eleitoral, La Matanza, com 7,5% dos votos, chegando a 8% em algumas cidades. A lista encabeçada por Nicolás Del Caño (PTS-FIT-U) ganhou duas cadeiras na legislatura provinciall. Foi a terceira força na Terceira Seção Eleitoral, conhecida como o “coração do peronismo”, e sendo a única força que cresceu em quantidade de votos se comparamos com a eleição de 2023, obtendo excelentes resultados em localidades como Ramos Mejía (9,44%), San Justo (8,87), Lomas del Mirador (8,84), La Tablada (8,71), Villa Luzuriaga (8,56), Circunscripción II (8,40), Isidro Casanova (8,30), Villa Madero (8,28), Aldo Bonzi (8,25), Tapiales (8,23), Villa Celina (8,18), y em vários outros distritos estando perto do 8%, como Laferrere, Rafael Castillo, González Catán e Ciudad Evita.
Desta forma o descontentamento popular cresceu por causa do ajuste sistemático e ataques aos coletivos PCD’s, aposentados e o escândalo conhecido como Karina-Gate, denúncias de corrupção envolvendo a irmã do presidente destruindo seu discurso anti-casta e queimando em semanas seu capital político “moral”. Algo que não é novo é o fato de ser da casta e figuras menores, que se apresentam como por fora da casta, na verdade expressam em pouco tempo o mais podre da casta.
Em termos políticos a derrota de Milei aprofundou as crises internas, principalmente no seu partido La Libertad Avanza (LLA) de extrema direita e até no seu aliado fagocitado, o PRO de Mauricio Macri, inconformados em como fecharam as chapas tanto para as eleições estaduais como para as nacionais. Isso tem impacto no Parlamento no sentido de que os deputados conformam “mini blocos” de alinhamentos políticos, econômicos e ideológicos, mas que em algumas circunstâncias deixam de votar com o governo quando é preciso não se comprometer diante do povo.
Em síntese a derrota de Milei se explica pela rejeição massiva às políticas de ajuste de seu governo, o escândalo de corrupção “Karina-Gate”, a crise interna e sua fraqueza extrema. O peronismo capitalizou o voto “de castigo”, sem resolver sua própria crise, sendo uma oposição política sem programa alternativo, e a esquerda é que se apresenta como alternativa com um programa e chamando a organização desde baixo.
Os efeitos da derrota política de Milei começaram a ter impacto na terça-feira, 09 de setembro, já que a Comissão de investigação da Câmara dos Deputados do Caso Libra em que Milei é acusado de promover um cripto golpe, convocou Karina Milei que em caso de se recusar pode ser levada à força. Em uma comissão extremamente equilibrada, integrada por 14 deputados favoráveis à investigação, entre eles Christian Castillo (deputado nacional PTS FIT-U), e 14 contrários, a deputada nacional do estado de Salta, Yolanda Veja, de Innovación Federal que responde al governador Gustavo Sáenz, pelo menos na última votação passou do lado daqueles que não queriam investigar a aqueles que querem investigar, o que não é um dado menor para a presidência e um indicador da crise de Milei com seus aliados depois da derrota.
Depois de afirmar que realizaria uma autocrítica na política e não na economia na quarta-feira, 10 de setembro, Milei lançou uma nova mesa política, o detalhe que está integrada pelos mesmos de sempre. Karina Milei (Secretaria General da Presidência), Guillermo Francos (Chefe de Gabinete), Martín Menem (presidente da Câmara dos deputados), Santiago Caputo (assessor presidencial), Patricia Bullrich (Ministra de Segurança) e Manuel Adorni (porta-voz presidencial).
Na quinta-feira, 11 de setembro, Lisandro Catalán, que era vice-ministro do interior, um homem de Daniel Sciol e de Francos, foi designado Ministro na perspectiva de construir uma nova mesa com os governadores.
O FMI continua apoiando Milei, mas no bloco das classes dominantes na Argentina se inicia uma divisão que se expressa em alguns governadores, os das províncias de Córdoba, Santa Fé, Corrientes, Jujuy, Chubut e Santa Cruz, que conformam “Provincias Unidas” pensando que Milei não vai poder aprofundar seus ajustes e desta forma a alternativa seria manter a política econômica e melhorar os modos políticos. Tentam um mileismo sem Milei, mas tem como problema a ausência de peso político na Área Metropolitana de Buenos Aires (conhecida como AMBA) que abrange a Cidade Autônoma de Buenos Aires e 40 municípios da Província de Buenos Aires, os mais populosos e de maior concentração econômica do país.
Ainda no pior momento de sua crise, Milei veta tanto a lei de financiamento universitário, que estabelecia o aumento de recursos para o funcionamento e os salários nas universidades, assim como a lei de emergência pediátrica que pretendia incrementar o financiamento aos hospitais pediátricos.
Deputados solicitaram uma sessão especial para quarta-feira, 17 de setembro, para rejeitar os vetos de Milei. Paralelamente, estavam se auto-organizando os trabalhadores da saúde, estudantes, docentes e funcionários das universidades federais através de assembleias dos 3 setores, aulas públicas, ocupações, bloqueios nas ruas junto com os aposentados, coletivos de PCD’s, trabalhadores em luta e todos os afetados pelas políticas econômicas do governo. A crise política se articula com uma crise social. Se preparavam para a terceira marcha nacional educativa, junto com trabalhadores do Hospital Garrahan.
Os próprios reitores agrupados no Conselho Interuniversitário Nacional (CIN) convocaram a mobilização contra o veto. Nesse marco, a CGT também convoca a mobilização, mas sem paralisação, expressando a política do peronismo de aguardar as eleições presidenciais de 2027 para derrotar Milei, longe de convocar uma greve geral política para derrotar o plano de ajuste de Milei e do FMI.
Na segunda-feira, 15 de setembro, Milei fez um pronunciamento nacional para apresentar o orçamento de 2026, na qual falou da mesma forma que Mauricio Macri, que o pior já passou.
Na quarta-feira, 17 de setembro, a Câmara dos Deputados, no contexto de uma gigantesca mobilização nacional, conseguiu quórum e revogou os vetos de Milei. A crise política do governo se aprofundou com esta nova derrota parlamentar. Para anular um veto se precisa uma maioria especial de dois terços. Estando integrada por 257 deputados, caso estejam todos presentes, é preciso uma maioria de 171 votos. A presença de 20 blocos é um indicador da fragmentação, produto da própria crise e realinhamentos.
Para apresentar alguns exemplos, para aprovar a Lei de Bases, que se debateu em janeiro de 2024, o governo teve 142 votos e, agora, para a emergência pediátrica, 67 votos a favor do veto e para o financiamento universitário, 75 votos a favor do veto. Por sua vez, o dia que as leis vetadas foram aprovadas, 07 de agosto de 2025, na saúde tiveram 159 votos favoráveis, agora 181 e as universidades aumentaram também seus votos de 159 favoráveis a 174.
Na quinta-feira, 18 de setembro, o governo tem uma nova derrota parlamentar, desta vez no Senado, que rejeitou seu veto ao projeto de lei que estabelece a coparticipação automática das contribuições ao Tesouro Nacional (ATN) por uma ampla maioria. A votação terminou com 59 votos a favor, 9 contrários e 3 abstenções, obtendo 3 votos a mais que quando foi dada sanção à lei no dia 10 de julho. Um indicador do fracasso da articulação do novo Ministro do Interior, Lisandro Catalán, na mesa com os governadores
Simultaneamente, cresce a crise econômica, mesmo que o FMI apoie a Milei, o dólar continua subindo até quase acima da banda de flutuação acordada. Sendo assim, o que o governo, libertário ultraliberal, fez foi intervir pelo Banco Central com dólares futuros, queimando reservas e apresenta um orçamento para 2026, onde, além de suas mentiras, aparece mais ajuste tanto em aposentadorias como em auxílio aos PCD’s. Sexta-feira, 19 de setembro, o dólar continuou subindo e o Banco Central vendeu U$S 678 milhões, uma das dez maiores vendas na história do país, e em três dias vendeu U$S 1,1 bilhão.
Simultaneamente, o risco-país subiur acima dos 1400 pontos sendo que 11 meses atrás, em outubro do ano passado, estava por debaixo dos 950 pontos, em uma situação em que os vencimentos em moeda estrangeira entre 2026 e 2028 superam o superávit de um ano recorde como 2024, o que levaria a uma desvalorização antes ou depois das eleições legislativas de outubro e uma reestruturação da dívida ou um default.
O governo Milei enfrenta uma crise econômica, política e social profunda, pretende chegar às eleições, em cinco semanas, com as variáveis controladas, mais umas 25 dias úteis, hoje parecem uma eternidade. Enquanto isso o peronismo não apresenta uma alternativa, Kicillof foi à grande mídia, no jornal Clarin, para esclarecer que na verdade seria infantil estar contra o FMI e que Milei deveria negociar com mais força. A mesma receita da Frente de Todos com Alberto Fernandez, que acabou legitimando a dívida depois de fazer campanha contra.
Uma desvalorização aumentaria a recessão, as perdas salariais, o desemprego e a pobreza e as patronais já estão suspendendo, demitindo e atacando os salários.
Frente a crise de fim de ciclo do governo Javier Milei – Victoria Villarruel e a aceleração dos tempos políticos, a única força política que sempre votou contra Milei e enfrentou de forma permanente na rua, que propõe uma saída para que a crise que não seja paga pelos trabalhadores e o povo pobre é a esquerda, a Frente de Esquerda e de Trabalhadores – Unidade (FIT-U), que está levantando como programa uma alternativa de emergência à crise, que inclui um aumento geral de salários e aposentadorias, o não pagamento da dívida, assim como a nacionalização dos bancos e do comércio exterior, enquanto exige que a CGT acabe com sua trégua e declare uma greve geral política, organizada com assembleias de base contra os planos de ajuste de Milei e do FM
Como informações Esquerda Diãrio