Anas estudava medicina na Venezuela antes do genocídio e estava de visita a sua família na Palestina, quando ficou preso em Gaza sem possibilidade de sair. Desde então, tem dedicado todos os esforços para levar sua voz aos países de língua espanhola, essencial para receber notícias de primeira mão sobre o que acontece na Faixa. É uma honra poder compartilhar e dialogar com ele, Sandra Romero, da Cidade do México, e Milton D’León, de Caracas. Aqui está seu testemunho:
Resistir desde o coração de Gaza: um testemunho de vida, guerra e compromisso
Bem, amiga Sandra, e nosso amigo que participa conosco da Venezuela, saúdo a todos. Saúdo a todos meus amigos e a quem nos assiste da América Latina, Espanha ou qualquer lugar do mundo.
Me apresento: sou Anas Ayesh, um palestino de Gaza que viveu em Gaza durante toda sua infância, adolescência e juventude. Fui para a Venezuela graças a uma bolsa de estudos concedida pelo governo de Chávez, pela qual serei eternamente grato. Lá, comecei minha formação como médico cirurgião. Passei vários anos na Venezuela e, depois, tive a oportunidade de voltar ao meu país para visitar minha família, a quem não via há muito tempo. Mas poucos dias após a minha chegada, a guerra estourou. Desde então, fiquei preso em Gaza: já vou completar — ou já completei — dois anos sem poder sair, porque todas as passagens estão fechadas e a fronteira está sob controle de Israel. Como sabem, Gaza não tem aeroporto.
Atualmente, dedico todas as minhas forças a transmitir e divulgar o que acontece aqui em Gaza, a contar de dentro a realidade que vivemos na fronteira sob essa guerra brutal.
Também quero dizer que pude me comunicar com o mundo em espanhol, uma língua que aprendi graças aos meus amigos latinos durante os anos que vivi na Venezuela, e em minhas viagens à Bolívia, Brasil e outros países da América Latina. Conheci muitos companheiros através da Escola Latino-Americana de Medicina, onde estudava, e foi lá que fortaleci meu compromisso com essa língua.
Hoje, coloco todo meu esforço em usar o espanhol como ferramenta para que o mundo conheça os crimes de guerra cometidos na Faixa de Gaza.
Além disso, participo de vários programas e instituições humanitárias, como a Oxfam e o International Rescue Committee (IRC).
(Explosões são ouvidas na transmissão).
O que vocês ouvem agora são bombardeios muito fortes. Desde a manhã, muitos ataques ocorreram; pelo que pude saber, já superaram 10 ou 15 bombardeios intensos perto da parte oeste da cidade de Gaza. Apesar disso, continuo com meu esforço em programas para crianças, pois são elas que mais sofrem com esta guerra.
Também tento ajudar os que precisam de cuidados médicos, participando de tudo o que me for possível para servir ao meu povo em meio a esta guerra. Esse é, em resumo, meu esforço: apoiar, resistir e manter-me ativo para ajudar no que for possível.
Por isso, considero muito importante ter a possibilidade de conversar ao vivo de Gaza para o La Izquierda Diario. Contar o que acontece aqui, diretamente e sem intermediários, é fundamental em um momento tão difícil, marcado pelo genocídio perpetrado pelo Estado de Israel.
Evacuar ou morrer: a dura escolha sob as bombas em Gaza
Atualmente, vivemos sob a ameaça constante de evacuação imediata pelo exército israelense. Amiga Sandra, esses últimos dias tenho me preparado com minha família para pegar nossas coisas e nos deslocarmos para o sul da Faixa, para o que chamam de “zona humanitária” de Al-Mawassi — talvez tenham ouvido falar dela. Estamos tentando conseguir um meio de transporte para chegar até lá, porque a situação se tornou completamente insuportável.
Como podem ouvir, o que vivemos é isso: bombardeios constantes, a todas as horas do dia, com uma intensidade brutal, como se a guerra tivesse recomeçado. É como reviver o mesmo pesadelo repetidamente, um filme repetido que nunca termina.
Desta vez, a ordem não foi apenas para um bairro ou uma zona específica, mas para toda a cidade de Gaza: todos devemos nos deslocar para o sul. É uma instrução imposta pelo exército de ocupação. Declararam que Gaza é um zona de guerra — assim dizem eles — e justificam o uso massivo de forças militares. Já começaram a avançar do leste e do noroeste, e forçaram a evacuação de famílias e bairros inteiros por onde entram.
Neste momento, minha família e eu estamos no processo de evacuação. Há uma enorme pressão sobre os meios de transporte: milhares de famílias tentando fugir ao mesmo tempo. Ninguém pode suportar essa violência indefinida. E as pessoas aprenderam, não é mais como antes; agora todos entendem o risco real. O que está acontecendo não é fácil de explicar: ou você vai, ou corre o risco de morrer.
Às vezes a ordem de evacuar chega com uma ligação telefônica, outras vezes com panfletos lançados de aviões, ou até mesmo através de redes sociais. Mas depois do aviso, o bombardeio começa quase imediatamente. Não há tempo real para organizar uma saída segura.
Da minha perspectiva, observando as declarações dos líderes israelenses e a escala dos ataques, isso parece parte de um plano muito mais amplo. Não se trata mais apenas de eliminar membros do Hamas; tudo indica que eles querem ocupar completamente a cidade de Gaza. Estão esvaziando a cidade. Mas não vamos esquecê-la. Não vamos esquecer Gaza.
Sabemos que isso não é uma evacuação humanitária, mas uma limpeza forçada. Nos empurram para um canto da Faixa, sem garantias, sem condições mínimas de vida. Em Al-Mawassi não há infraestrutura, não há serviços básicos, não há segurança. É uma zona transformada em campo de despejados, onde milhares de pessoas vivem amontoadas, sem água potável nem atendimento médico adequado.
Como médico, o que vejo é desolador. Crianças com infecções sem tratamento, pessoas com ferimentos que não podem ser tratados, doenças respiratórias por causa da poeira e dos escombros. Tudo isso enquanto continuam os ataques, até em supostas “zonas seguras”. Não há um único lugar em Gaza onde se possa estar seguro.
Apesar disso, continuo trabalhando com os poucos recursos que temos. Tento colaborar com organizações humanitárias, fornecer cuidados básicos e, acima de tudo, continuar me comunicando. Acredito firmemente que quebrar o cerco informativo é parte da nossa resistência. Enquanto conseguirmos que nossas vozes saiam de Gaza, não nos silenciarão.
Muitos aqui dizem que esta é uma guerra contra a própria vida. Eu acredito que eles estão certos. Mas também sei que, enquanto estivermos vivos, continuaremos falando, resistindo, ajudando os nossos. Porque, embora queiram apagar Gaza do mapa, Gaza continua viva em cada um de nós.
La Izquierda Diario: Como mostram as últimas declarações do governo genocida de Netanyahu, estamos diante de uma política de terra arrasada. A intenção é avançar sobre todo o território de Gaza, sem deixar nada em pé. Nessas condições extremas, com Gaza completamente sitiada, como vocês conseguem acessar o mais básico para viver? Como chegam os alimentos, a água, os medicamentos, se tudo está controlado pelo Estado de Israel?
A ajuda não é suficiente, há uma profunda crise alimentar e uma inflação descontrolada em Gaza. Vocês já viram o que acontece nos chamados “pontos de distribuição” de ajuda humanitária. Esses não são centros de assistência: são armadilhas mortais. São iscas usadas pelo exército para atrair palestinos famintos e depois abrir fogo contra eles. Eu estive lá várias vezes e vi pessoas caírem mortas diante dos meus olhos. Os soldados começam a disparar aleatoriamente contra multidões desesperadas. Muitos morrem, outros ficam gravemente feridos. E quem é ferido, infelizmente, fica abandonado, ninguém pode resgatá-lo sem arriscar a própria vida ou arriscar não voltar e levar comida para seus filhos.
Hoje, o que mais preocupa as famílias é conseguir alimento, especialmente para as crianças. Mas a ajuda humanitária entra em quantidades mínimas. Para estabilizar minimamente a situação alimentar, seriam necessários pelo menos mil caminhões de ajuda por dia. O que está entrando agora não passa de 30 ou 50 caminhões diários. É como uma gota no oceano. Não é suficiente para nada.
É importante lembrar que já estamos há mais de seis meses com todos os pontos de passagem fechados, sem acesso real a bens e suprimentos. A carência é total.
Diante disso, muitas pessoas recorrem ao escambo: “te dou farinha, você me dá óleo”. Mas os preços dispararam de tal forma que tudo se tornou inacessível. A maioria das pessoas não consegue obter o que precisa.
Eu vivi em Caracas e lembro os tempos de inflação, quando os preços subiam tanto que era difícil acessar o básico. Na Venezuela, ao menos, existia uma certa circulação de produtos e as pessoas encontravam formas de troca. Mas em Gaza não há nada, literalmente. Aqui não é só que os preços estão altos: é que não há o que comprar.
Faltam produtos essenciais como carne, ovos, frutas ou vegetais. Muitos alimentos básicos simplesmente desapareceram do mercado. Para terem uma ideia: um quilo de frango pode custar entre 70 e 80 dólares; um quilo de vegetais, entre 10 e 15 dólares; uma lata de comida, entre 5 e 15 dólares, dependendo do tipo e da disponibilidade. A inflação é sufocante e ninguém tem renda. As pessoas não estão trabalhando, não exercem suas profissões. Gaza está paralisada. A única fonte de sustento são as ajudas ou doações que vêm do exterior. Não há outra forma de sobreviver.
Global Sumud Flotilha: resistência e solidariedade contra a agressão sionista
A solidariedade global em Gaza é sentida com todo o coração e a valorizamos profundamente. Sabemos que os povos do mundo estão ao nosso lado, e esse apoio nos sustenta e fortalece a cada dia. Sem essa solidariedade internacional, Gaza já teria sido destruída por completo há muito tempo.
O apoio econômico, político e emocional que recebemos é imenso e vital para nós. Sentimos isso em cada palavra, em cada gesto que chega de diversas partes do mundo, através dos meios de comunicação, dos movimentos sociais e dos povos que nos acompanham. Eu mesmo enviei meu apoio à Global Sumud Flotilha, que trava uma grande luta. Estávamos muito preocupados com eles, porque o exército sionista não tem limites em sua agressividade, nem senso humanitário. Há poucos dias atacaram com um drone um barco da flotilha, colocando em grande perigo aqueles que defendem nossa causa.
Como em Gaza enfrentamos a morte sob bombardeios diários, não quero que ninguém tenha que viver este pesadelo. Por isso, tentei oferecer todo o meu apoio possível, comunicando-me com muitas delegações: espanholas, mexicanas, suíças, argentinas, uruguaias e outras de língua espanhola. Enviei palavras de ânimo e garanti que aqui em Gaza os receberia pessoalmente, me colocando como tradutor e apoio para tudo o que precisarem. Estou disponível para qualquer detalhe ou ajuda que precisem.
Esperamos que a flotilha chegue bem e consiga trazer uma quantidade significativa de ajuda humanitária, especialmente fórmulas para bebês, que são urgentes e vitais para os mais vulneráveis. Cada dia morrem pessoas de fome e, até agora, o número de mortos por desnutrição já supera os 420, incluindo pelo menos 150 crianças, muitas delas devido à falta de leite em pó. Portanto, cada lata de fórmula ou ajuda que consiga entrar em Gaza pode salvar uma vida. Esses recursos são quase impossíveis de conseguir devido ao bloqueio e ao cerco.
Apesar da gravidade da situação, nossa mente coletiva está concentrada neste momento na evacuação forçada, mas mesmo no meio dessa crise, as pessoas estão atentas a cada avanço da Flotilha, se mantêm informadas e organizadas.
Continuamos com esperança no caminho da Global Sumud Flotilha e a receberemos aqui com uma imensa gratidão por tudo o que fazem pelo nosso povo. Muito obrigado a todos.
A Global Sumud Flotilha é crucial, aqui em Gaza estamos esperando e orando para que chegue bem. Receberemos e agradeceremos muito por tudo o que tentam fazer para quebrar o cerco e levar ajuda humanitária.
La Izquierda Diario:De fato, há uma grande solidariedade internacional. Gaza não está sozinha. Têm ocorrido grandes manifestações e ações de apoio, desde a Cidade do México até a Europa e América Latina. Existem ações de solidariedade fortes dos povos e dos trabalhadores, como na Itália e Barcelona: se a flotilha for interceptada pelo exército genocida, setores sindicais já disseram que irão paralisar fábricas em sinal de protesto. O movimento estudantil no Estado Espanhol também declarou que vai paralisar as universidades se a flotilha for impedida.
Colapso total do sistema de saúde: em Gaza não há hospitais, só feridos sem atendimento
Em Gaza já não existem hospitais funcionando com serviços médicos completos. Mais de 20 centros hospitalares foram desativados, incluindo o Hospital Al-Shifa, o Hospital Europeu e o Hospital Nasser. A maioria foi destruída pelos bombardeios israelenses ou ficou inoperante devido ao colapso total da infraestrutura sanitária.
Hoje, quando uma pessoa se fere — seja por bombardeios ou por qualquer outra causa — não é levada a um hospital, mas sim para o que chamamos de “postos médicos”. Mas esses lugares carecem quase completamente de insumos, equipamentos e pessoal. Não há medicamentos, nem material cirúrgico ou capacidade de atendimento.
O sistema de saúde está completamente colapsado. Gaza tem uma população de mais de dois milhões de pessoas e pelo menos 200.000 feridos desde o início desta guerra. Estamos falando que cerca de 15% da população está ferida. Mas quase não há um pequeno grupo de médicos que, exaustos, continuam trabalhando sem descanso há mais de dois anos, sem ajuda internacional, sem reforços e sem suprimentos. Estão lutando completamente sozinhos.
Eu mesmo tive uma lesão no pé há pouco mais de um mês. A ferida se infectou com uma bactéria e fiquei sangrando durante semanas, não conseguia coagular nem com vitaminas nem com antibióticos. Algo tão básico como a amoxicilina não se encontra em nenhum lugar. Depois de uma busca exaustiva, consegui encontrá-la, mas a um custo impagável: centenas de dólares por poucas cápsulas.
Nosso corpo já não tem defesas para resistir nem às infecções mais comuns. Estamos meio mortos em Gaza, literalmente, pela falta de tudo: alimentos, água, medicamentos, cuidados médicos.
Em resumo, não há sistema de saúde. Os médicos estão completamente exaustos, e os feridos morrem porque não há como atendê-los. Essa é nossa realidade diária.
Além disso, a internet e a energia para todos os serviços que dependem disso são muito limitadas e caras. Usamos cartões para ter uma a duas horas de internet, e depois não conseguimos mais conectar. Não há combustível e falta todo tipo de energia; a única que conseguimos em Gaza é a energia solar.
La Izquierda Diario: Queremos aproveitar este espaço para dar visibilidade a uma situação urgente e denunciar o que está acontecendo em Gaza em relação à saúde. Durante várias semanas, Anas esteve completamente desconectado devido a um problema de saúde que lhe impediu até de ficar em pé. Isso não apenas afetou seu estado físico, mas também a possibilidade de sustentar sua família, conseguir alimentos e seguir com seus trabalhos de apoio comunitário. O que ele viveu é um reflexo radiográfico do que enfrentam milhares de famílias em Gaza hoje: sem saúde, sem recursos e em total isolamento.
Também queremos denunciar o caso do doutor Hussam Abu Safiya, um médico reconhecido internacionalmente, diretor do Hospital Kamal no norte de Gaza, que está sequestrado há mais de nove meses pelo exército israelense. Sua captura foi brutal e foi registrada praticamente ao vivo: ele enfrentou os tanques e bombardeios, recusando-se a abandonar o hospital e seus pacientes, até o último momento. Hoje, esse hospital está devastado e ele está encarcerado.
Devemos levantar a voz a nível internacional pela libertação do doutor Hussam e de todo o pessoal de saúde preso nas prisões de Israel, denunciar a desumanização imposta ao povo palestino. Devemos nos opor ativamente a esses crimes de guerra que os governos se recusam a denunciar.
Fazemos um chamado urgente à solidariedade financeira com Anas, que continua colaborando em programas com crianças em sua periferia, apoiando diversas famílias — inclusive a sua —, apesar de seu delicado estado de saúde.
Em seu perfil pessoal no Instagram @anas_ayesh_ há um link para doações. A situação exige e a solidariedade é urgente hoje.
Desde Gaza: chamado urgente à solidariedade diante de uma nova fase de ocupação e agressão
O que está por vir para Gaza não é um plano que saibamos. Ninguém sabe o que Israel planeja. Está muito claro que há uma agressão intencional com objetivos diferentes. Desta vez, possivelmente, querem evacuar-nos para o sul da Faixa de Gaza e, na minha opinião, ocupar o território, a própria terra da cidade de Gaza. A política de Israel é sempre ocupar mais terra.
Vemos as notícias falando sobre o que supostamente acontecerá conosco e, do coração de Gaza, tentamos entender. Supostamente, muitos países vão receber esses refugiados. Não sabemos quais são, mas eles pretendem esse plano. Enquanto isso, os bombardeios são muito intensos, novamente. Horrível, horrível, de verdade. Nunca vimos algo assim.
Então, meu chamado é para o mundo todo, para todos os povos livres, para os povos latino-americanos, que denunciem esse genocídio e o objetivo da agressão sionista, que agora é novo e diferente. Precisamos abrir os olhos, acordar diante das intenções de Netanyahu e dos líderes do regime sionista.
Agradeço todos os esforços feitos pelos meios de comunicação e pela Rede Internacional La Izquierda Diario, pois isso permite denunciar o que está acontecendo. Também agradeço ao ativismo da Flotilha Global Sumud. Do meu lugar, do genocídio.
Com Esquerda Diário