Este artigo foi publicado originalmente em 3 de março no La Izquierda Diario , jornal do PTS, organização irmã da Revolução Permanente na Argentina.
A polarização social e política, e a instantaneidade que caracteriza as conversas públicas nas redes sociais, muitas vezes alimentam a distorção cognitiva: as ideias são percebidas sem nuances e os julgamentos são feitos sem levar em conta a complexidade das situações. No X, publicações com mais de 280 caracteres são alvo de chacotas; no Instagram, um vídeo é visualizado por uma média de apenas três segundos — e muitos têm uma predileção por insultos desenfreados, tão rapidamente que nem tudo foi mencionado nesses primeiros três segundos. Talvez crenças rígidas e unidimensionais possam nos ajudar a lidar com a ansiedade, a instabilidade e a insegurança do mundo em que vivemos, mas jamais poderão nos dar uma visão realista que nos permita transformá-lo.
Esse é o tipo de efeito que a palavra “Irã” produz. Sem falar no que acontece se você adicionar “feminismo”. E se você incluir na discussão o fato de que os Estados Unidos e Israel provocaram uma guerra imperialista contra essa nação oprimida, onde reina um regime político reacionário, particularmente repressivo contra as mulheres… a leitura para por aí. Mas esqueça o emoji da cabeça explodindo: os aiatolás oprimem as mulheres lá, bombas israelenses matam jovens estudantes e Trump está expulsando ditadores de países que têm (que coincidência!) reservas de petróleo.

Mais uma vez: onde estão as feministas?
O movimento feminista é unânime sobre como responder a essa situação? Não. E a esquerda, menos ainda. E veja só, até a direita trumpista está dividida quanto ao objetivo de iniciar uma guerra contra o Irã! A realidade é complexa, diversa e repleta de contradições.
Esta é a opinião do Pão e Rosas, nosso movimento feminista internacional — comunista e revolucionário, anti-imperialista e antirracista, e, claro, antipatriarcal. Nesta guerra, distinguimos entre nações opressoras e nações oprimidas, mesmo aquelas cujos governos desprezamos. É por isso que consideramos imperativo lutar pela derrota política e militar dos Estados Unidos e de Israel no Irã.
Quem pode acreditar que aqueles que massacraram mulheres e crianças palestinas, aqueles líderes que enfrentam uma enxurrada de acusações de crimes sexuais contra adolescentes, aqueles que acabaram de bombardear uma escola matando mais de cem meninas, irão promover a emancipação das mulheres iranianas com seus mísseis? Nada se pode esperar daqueles que são as figuras políticas e militares mais poderosas, responsáveis pelo genocídio mais abominável do século XXI, que estão perpetrando a menos de 1.600 quilômetros do Irã.
Mas também sabemos que nenhuma força moral pode ser formada no Irã para confrontar o imperialismo estadunidense e o colonialismo sionista enquanto o regime teocrático dos aiatolás desencadear uma repressão implacável e sangrenta contra as mulheres, toda a população trabalhadora iraniana e o povo curdo. É por isso que dizemos: “Abaixo a guerra imperialista de Trump e Netanyahu contra o Irã”, em completa independência política do regime antioperário, repressivo e reacionário dos aiatolás.
Com eles, não contra eles.
As mulheres iranianas não precisam da “proteção” do véu islâmico para escapar do olhar lascivo dos homens; nem do paternalismo ocidental de líderes políticos ultrarreacionários, nem mesmo das feministas progressistas que afirmam “salvá-las” de seus opressores.
As mulheres iranianas são resilientes e possuem uma força poderosa para enfrentar a opressão, como demonstrado em 2022 com o movimento “Mulheres, Vida, Liberdade”, após o assassinato de Masha Amini pela polícia moral do regime islâmico. Elas também têm uma longa história de luta: desempenharam um papel fundamental na revolução operária e popular de 1979, quando as massas radicalizadas, auto-organizadas em conselhos operários, derrubaram o rei Reza Pahlavi e repeliram os estados que o apoiavam.
A ditadura teocrática dos aiatolás confiscou esse enorme processo revolucionário, expropriando-o politicamente. Sufocaram a marcha da classe trabalhadora rumo à ascensão social. Mas também sufocaram a imensa força daquelas jovens mulheres iranianas que, com suas minissaias e penteados da moda, deixaram universidades, fábricas e escritórios para protestar nas ruas contra a opressão da monarquia e o imperialismo “democrático” que protegia seus interesses.
Esses “libertadores armados” de hoje devem ser advertidos a não subestimarem as mulheres que ainda se lembram da força daquela luta. E aqueles que pensaram que poderiam domesticá-las, cobrindo-as da cabeça aos pés e confinando-as em seus lares, também devem ser advertidos.
As feministas socialistas não podem desviar o olhar.
Diante desse cenário, algumas vozes da esquerda e dentro do movimento feminista estão esboçando posições de “nem uma coisa nem outra” ou de “fim da guerra”, incluindo o apoio à restauração das relações diplomáticas com os Estados Unidos, como se fosse simplesmente uma questão de pedir. Como se isso fosse sequer uma solução, quando, por décadas, a opressão estadunidense mergulhou o povo iraniano na miséria — a vingança de um império contra uma revolução que depôs o rei que melhor representava seus interesses exploradores.
Outros exigem, em meio à luta contra a ofensiva imperialista, silêncio absoluto sobre os crimes perpetrados pelo regime dos aiatolás; sem tolerar por um único momento qualquer menção de que metade da população vive sob uma opressão diária devastadora.
A organização Pão e Rosas defende a urgência de lançar uma mobilização internacional de mulheres, de toda a classe trabalhadora e dos povos oprimidos em todo o mundo pela derrota dos Estados Unidos e de Israel, e pela vitória da nação oprimida, em completa independência política do regime iraniano. Acreditamos ser essencial unir todas as forças anti-imperialistas, especialmente nos Estados Unidos, para lutar pela derrota de Trump e Netanyahu no Irã, pela retirada das tropas imperialistas e colonialistas da região, pela expulsão do imperialismo estadunidense da Venezuela e de Cuba, e pelo fim do genocídio na Palestina.
A direita trumpista e seus aliados, como Milei na Argentina, atacam os direitos das mulheres em seus países diariamente; disseminam discursos de ódio contra o feminismo e instilam misoginia em todas as suas políticas, exibindo um machismo flagrante e obsceno em público e em privado. Se vencerem essa atroz luta pelo poder, terão ainda mais poder para infringir os direitos de todos nós, nos países que governam e em todo o mundo.
É por isso que as feministas devem unir esforços para construir um grande movimento global contra a agressão imperialista, juntamente com a classe trabalhadora e a juventude de todo o planeta. E, nesse sentido, a história das mulheres iranianas é uma tremenda fonte de inspiração. Com RP