Por Alberto Zanconato – Aeroporto Antonov, em Gostomel, menos de 10 quilômetros a noroeste de Kiev. Foi ali, nos dias imediatamente sucessivos ao início da invasão russa, que ocorreu a batalha destinada a marcar profundamente o andamento do conflito na Ucrânia.
Ali, as tropas da Rússia viram fracassar o seu plano de tomar a capital, e um mês depois, bateram em retirada de toda a região. Desde então, as hostilidades se concentraram no sul e no leste do país, transformando-se gradualmente em um conflito muito diferente da “blitz” que Moscou tinha em mente.
No dia 24 de fevereiro de 2022, as tropas russas entraram no território ucraniano por meio da fronteira com Belarus, ao norte, pelo da Crimeia, ao sul, e pelo seu próprio país no leste e nordeste. Forças aéreas de Moscou atacaram o aeroporto Antonov com o objetivo de fazer uma espécie de ponte para a conquista de Kiev. Mas, os ucranianos estavam preparados para responder.
Quem alertou o governo um dia antes, segundo afirmação do chefe dos serviços secretos militares, Kyrylo Budanov, foi o banqueiro e agente da Inteligência Denys Kireyev, morto cerca de duas semanas depois pelos próprios serviços de Kiev porque era suspeito de ser um “agente duplo”.
Depois de uma batalha feroz, as forças de Moscou conseguiram conquistar o aeroporto, mas ele estava já muito danificado para ser utilizado. E, no fim de março daquele ano, a Rússia anunciou a retirada de suas tropas da região de Kiev, abandonando a ideia de conquistar a capital, enquanto as negociações russo-ucranianas pareciam estar em um bom caminho.
Os russos, que no máximo de sua expansão conseguiram controlar 27% da Ucrânia, ocupam hoje entre 15% e 20%, depois de serem obrigados a se retirar de Kharkiv, no fim do verão europeu, e depois de parte de Kherson, em novembro, incluindo a capital regional.
Ao longo da costa do Mar Negro, a oeste da Crimeia, não se concretizou uma possível ofensiva para capturar Odessa e depois chegar à Transnístria, área separatista pró-Rússia que fica na Moldávia, em um cenário que seria um colapso para a Ucrânia.
Ao invés disso, o fronte se cristalizou em uma área de milhares de quilômetros a leste da própria Crimeia, nas províncias de Kherson e Zaporizhzhia, e depois para o norte, indo para Donetsk e Lugansk. Anexando unilateralmente quatro regiões, Moscou ocupou totalmente a costa do Mar de Azov, que liga o Donbass a Crimeia. Porém, boa parte dos territórios das províncias ainda fogem ao controle russo.
Para conquistar as províncias inteiras de Donetsk e Lugansk serão necessários “entre um ano e meio e dois anos”, prevê o chefe da milícia privada Wagner, Yevgeny Prigozhin, que está na primeira linha da luta no Donbass. A Rússia também aparenta preparar-se para um conflito de longa duração, mas as ofensivas das últimas semanas mostram que eles não pretendem renunciar aos seus objetivos. Isso é visto com as metas de tomar as pequenas cidades de Vulhedar e Bakhmut, depois de controlar Soledar.
“Artyomovsk [Bakhmut] e Soledar têm significados muito importantes porque são uma Stalingrado em miniatura”, diz o analista militar e blogueiro ucraniano pró-Rússia, Yuriy Podolyaka.
Do outro lado, o correspondente de guerra pró-Kiev Yuriy Butusov afirma que a batalha por Vulhedar é ainda a mais importante porque é um ponto de comunicação que os russos querem conquistar para impedir que os ucranianos o transformem em um trampolim para possíveis ofensivas para o sul, em direção à Crimeia.
Para os russos é, de fato, vital consolidar as próprias posições ao longo do Mar de Azov e seguir ao norte, para as províncias de Kherson e Zaporizhzhia, como forma também de proteger a Crimeia e garantir o fornecimento de água – em particular, do dique de Kakhovka, que Kiev cortou da península após sua anexação pela Rússia em 2014.
Se Odessa é a “linha vermelha” que Kiev precisa defender a qualquer custo para manter o acesso ao Mar Negro, assim também é a Crimeia para Moscou para proteger o Mar de Azov, transformado em um grande lago russo.
Não por acaso, os recorrentes bombardeios com mísseis contra as infraestruturas críticas de muitas cidades ucranianas começaram depois do atentado com um caminhão-bomba que, em 8 de outubro, provocou a destruição parcial da ponte sobre o Estreito de Kerch, que liga a península ao território russo.