Sem intenção de manter as aparências, Donald Trump foi explícito ao celebrar o que considera um avanço em seus interesses petrolíferos na Venezuela e anunciar que o governo venezuelano teria concordado em entregar entre 30 e 50 milhões de barris de petróleo, correspondentes ao petróleo acumulado nos depósitos venezuelanos durante esses meses de bloqueio militar da marinha ianque sobre as costas do país caribenho. Segundo anunciou o valentão do norte, o petróleo será comprado a preço de mercado. Segundo diversas fontes jornalísticas, a petroleira Chevron já teria carregado um navio com petróleo e outra dezena estaria a caminho da Venezuela.
Enquanto Trump comemora, deixa claro que seu interesse intervencionista sobre o país latino-americano estava centrado no petróleo, sendo que o próprio Departamento de Justiça dos Estados Unidos eliminou qualquer referência ao Cartel de los Soles como uma entidade “narcoterrorista”, tal como havia argumentado para justificar o sequestro de Nicolás Maduro.
Por sua vez, a presidente em exercício, Delcy Rodríguez, embora não tenha confirmado se realmente assinaram algum tipo de acordo pela entrega do petróleo, vem dando claros sinais de submissão aos interesses imperialistas. Primeiro, ela afirmou em um comunicado a “vocação de paz e convivência pacífica” e suas intenções de “avançar para um relacionamento internacional equilibrado e respeitoso entre os EUA e a Venezuela”, assim como convidar “o governo dos EUA a trabalhar conjuntamente numa agenda de cooperação”. Ou seja, um chamado à cooperação com o mesmo estado que, depois de dois meses de bloqueio militar e assassinato seletivo de lanchas que circulavam pelo mar (acusadas sem provas de transportar drogas), avançou até uma invasão em território venezuelano com dezenas de aviões, assassinou cerca de 80 pessoas e sequestrou o presidente.
Essas declarações a favor da cooperação com o agressor imperialista parecem ser confirmadas por diversas versões midiáticas. O jornal El País (Espanha), por exemplo, comenta que: “Miller (subchefe do gabinete trumpista), considerado um dos falcões entre os falcões, dedicou palavras positivas aos irmãos ao dizer que até o momento a Casa Branca está recebendo uma ‘cooperação plena, completa e total’ por parte do Governo em Caracas liderado por ela”. Os irmãos são Jorge e Delcy Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional e presidente interina, respectivamente.
O Wall Street Journal, por sua vez, afirma que “O governo de Trump vem falando secretamente com Rodríguez sobre uma transição pós-Maduro há meses, segundo informou na segunda-feira o Financial Times, onde também há uma opinião sobre Delcy Rodríguez de Ali Moshiri, um ex-executivo da Chevron que agora espera investir em projetos petrolíferos na Venezuela: “É uma mulher muito qualificada, conhece bem o negócio do petróleo e também a flexibilidade que os investidores pedem. Poderia liderar uma administração de transição, mas que os Estados Unidos a ajudem, especialmente com um alívio das sanções”.
Ou seja, as versões jornalísticas tendem a insinuar a possibilidade de que a entrega de Maduro tenha sido orquestrada por setores do próprio regime. As nulas intenções de Rodríguez de organizar algum tipo de resistência à brutal interferência imperialista que passa por cima de todos os acordos internacionais e da soberania nacional venezuelana parecem corroborar isso.
Rodríguez e ministros venezuelanos fazem política como se no Caribe houvesse “normalidade”. Enquanto a Venezuela está no foco do mundo inteiro após os recentes acontecimentos militares, a Presidente verifica a produção agrícola ou os empreendimentos cooperativos.
É real que o governo venezuelano atua neste momento sob a pressão da bota ianque sobre sua cabeça: uma enorme frota militar que inclui o maior porta-aviões do mundo estacionado a poucos quilômetros de suas costas e centenas de aviões prontos para o combate.
No entanto, diante dessa pressão extrema e da ameaça vigente, as últimas declarações da presidenta interina da Venezuela mostram que está disposta a aceitar essas condições e a negociar com o governo estadunidense. Além das primeiras declarações contra o ataque, o governo venezuelano (como ocorreu antes com Maduro) não mostra nenhuma perspectiva de desenvolver a mais ampla mobilização da classe trabalhadora e das grandes maiorias para enfrentar o ataque imperialista.
Esta luta também é a luta para disputar a consciência anti-imperialista em toda a região, demonstrando os vínculos profundos que unem o atraso e a dependência de toda a região aos interesses imperialistas e todos os mecanismos de submissão que impedem o pleno desenvolvimento, para favorecer os interesses dessas potências.
É a luta por essa consciência e pelo desenvolvimento da mais ampla mobilização e auto-organização por parte das centenas de milhões de trabalhadores de todo o continente, a única capaz de enfrentar a máquina de guerra e destruição do imperialismo. Essa luta precisa ser desenvolvida de forma independente das burguesias nacionais, das quais o chavismo é uma expressão, que ao longo das décadas se recusaram a enfrentar de forma consistente as tentativas de submissão do continente. Nesse caminho, é necessário lutar por uma greve continental de toda a classe trabalhadora.
Com Esq / Diário