Foi noticiado aqui que a Sabesp pagou R$ 1,8 bilhão em dividendos aos seus acionistas poucos dias de gerar uma explosão no Jaguaré, que deixou dois mortos.
A verdade, porém, é que desde a privatização da empresa, em 2024, a Sabesp tem aumentado bastante a distribuição de dividendos, buscando remunerar seus acionistas, em especial a Equatorial, que detém 15% da empresa e é a principal acionista privada. Isso está diretamente ligado à precarização do serviço.
A estratégia da empresa para aumentar seus lucros tem se centrado na diminuição dos custos com funcionários, a partir da diminuição do quadro via PDV, e também no reajuste de tarifas para os consumidores. Entre o primeiro trimestre de 2025 e o primeiro trimestre deste ano, houve uma diminuição de 13% no número de funcionários, e de 26% nos custos trabalhistas, refletindo uma precarização também daqueles que ficaram, em uma medida que aumenta as margens de lucro da empresa.
A outra medida, anunciada na época da privatização, é o aumento do payout, ou seja, quanto do lucro líquido é distribuído aos acionistas na forma de dividendos ou juros sobre capital próprio. Na época em que foi concluída a privatização, em meados de 2024, foi anunciado um plano de aumento do payout, que seria de 50% em 2026 e 2027, até 75% em 2028 e 2029, e chegaria a 100% do lucro líquido a partir de 2030, taxas consideravelmente acima da média do mercado.
Abre-se uma outra questão ainda com esta política agressiva de distribuição de lucros: como uma companhia de saneamento e distribuição de água, a Sabesp precisa fazer investimentos volumosos na expansão e manutenção do serviço. É de se esperar que, com o afã pelo crescimento dos lucros e dividendos, tais investimentos fiquem abaixo do necessário. Segundo o Sintaema, o plano de suposta universalização do serviço da Sabesp até 2029 na verdade exclui comunidades pobres, que seguiriam sem água e esgoto.
E neste ponto, na falta de lucros retidos, aparece a outra face da farra financeira da Sabesp: qualquer investimento ou expansão tem que ser financiado por dívidas. Não por acaso, a dívida líquida da empresa aumentou 66%. O principal meio de financiamento da Sabesp tem sido a emissão de títulos de dívida, vendidos no mercado financeiro. Desde a privatização, em julho de 2024, foram feitas 7 emissões, em valores de mais de R$ 22,5 bilhões.
As dívidas da Sabesp são vistas como um investimento relativamente seguro, por ser um monopólio de um serviço essencial, e oferecem rentabilidades altas, maiores que títulos da dívida pública.
O que acontece com a Sabesp neste momento é a verdadeira definição de dilapidação do patrimônio público: uma empresa estatal que presta um serviço essencial é vendida e utilizada para gerar lucros aos acionistas e financiadores, aumentando o endividamento e cortando a retenção de lucros, um caminho que parece indicar uma intenção de depenar a Sabesp.
Os impactos na prestação de serviços já aparecem, a começar por pessoas que viram suas contas de água darem saltos, chegando a passar de 70 para 500 reais por mês. A quantidade de reclamações também cresceu enormemente desde a privatização, e somando multas de R$ 200 milhões aplicadas por descumprimento de normas. A falta de investimentos quase levou a uma nova crise hídrica na capital paulista com a baixa do nível dos reservatórios, diminuição da pressão da água, que deixou certa regiões efetivamente sem água em vários períodos, e problemas com abastecimento como os que afetaram o Conjunto Residencial da USP.
A explosão no Jaguaré é o caso mais grave gerado pela privatização, mas outros vazamentos de gás ocorreram, e mais uma vez os moradores da região disseram não ter tido nenhuma orientação da Sabesp de evacuação, ou apoio para isso, lhes restando agir por conta própria em defesa de suas vidas.
Amauri Pollachi, diretor da Associação de Pessoal Universitário da Sabesp, culpou diretamente a política de terceirização da companhia pela explosão no Jaguaré, dizendo que não há mais equipes de rua próprias da empresa, e que houve afrouxamento de protocolos e demissão de funcionários experientes. Não é difícil prever um futuro próximo onde a Sabesp seja cada vez mais parecida com a Enel, que presta um péssimo serviço em São Paulo, com aumento da quantidade e duração das faltas de luz.
A luta contra a privatização dos serviços em São Paulo é fundamental no momento em que avança a entrega do Metrô e da CPTM. Precisamos de uma assembleia estadual de todos os setores e categorias em luta, das universidades, os professores da rede municipal de São Paulo, contra Tarcisio e Nunes e seu projeto privatista que sucateia os serviços, piora a educação básica e quer expulsar os estudantes pobres e negros da universidades públicas. Com Esq Diário