Experimente fazer essas perguntas à ministra da Saúde, Ana Paula Martins. É provável que ela não saiba respondê-las. E, não sabendo, muito provavelmente mentiria. Como mentiu, aliás, no próprio parlamento português, ao afirmar que a gravidez de Umo Cani não estava sendo acompanhada clinicamente — declaração prontamente desmentida pela família de “a grávida que morreu no Hospital Amadora-Sintra”, digo, pela família de Umo Cani.
O fato, amplamente conhecido — ainda que mal nomeado — é que “a grávida que morreu no Hospital Amadora-Sintra”, digo, Umo Cani, deu entrada no hospital em 29 de outubro. Detectaram que ela estava com hipertensão. E o que se faz com uma grávida hipertensa, de 36 anos, com 38 semanas de gestação? O que se faz?
Eu nunca estudei medicina, mas dificilmente sugeriria “mandá-la para casa”. Ainda assim, foi exatamente isso que o hospital fez.
E fico aqui a pensar: se Umo Cani se chamasse Maria ou Filipa, se tivesse a pele branca e uma certidão de nascimento portuguesa, teriam mandado ela para casa? Eu estaria aqui, na madrugada de um sábado, escrevendo este texto enraivecido? E você, estaria lendo com a mesma indignação?
Imagine sua mãe, sua irmã… imagine sua esposa. Feche os olhos e pense nas roupinhas de bebê recebidas de amigos e familiares, todas dobradinhas, prontas para uma vida que viria. E agora? Agora o pai não sabe o que fazer com elas. Talvez doe. Talvez guarde, tentando preencher o vazio de um desejo que não se concretizou: o de ser pai. Afinal, depois de Umo Cani ter sido devolvida para casa, adivinhem só… no dia 31 de outubro, após mais de uma hora ao telefone esperando por uma ambulância do INEM, ela foi finalmente levada ao hospital — mas chegou em parada cardiorrespiratória. Tentaram um parto de urgência. O bebê nasceu, mas vocês sabem: a mãe morreu. Eu diria que morreu assassinada pela negligência da SNS, mas suspeito que a ministra da Saúde não concordaria com essa escolha de palavras.
No dia seguinte, o bebê também faleceu.
— O bebê também faleceu, ministra. O que tem a dizer?
— Grávidas que nunca foram seguidas durante a gravidez, sem médico de família, recém-chegadas a Portugal e que, muitas vezes, nem falam português, não foram preparadas para chamar o socorro e nem telemóvel têm — disse a excelentíssima ministra Ana Paula Martins.
Sim, é assustador o grau de despreparo demonstrado pela senhora ministra — ou, ao menos, aquilo que parece despreparo aos olhos de quem assiste a essas tragédias se repetirem. Assustador também é perceber como certas coincidências se acumulam sempre que um imigrante ou filhos de imigrantes e o SNS aparecem na mesma frase. Coincidências apenas? Talvez. Mas coincidências que, vistas de longe, soam cada vez menos inocentes.
E não é preciso rebobinar muito a memória para lembrar de outro episódio. No final de agosto — três meses atrás — o pequeno Luan, de 11 meses, morreu à porta do centro de saúde de Idanha-a-Nova, em Castelo Branco. Observem: o nome já não soa africano. Mas será que ainda lhe faltava outro “requisito”? A pele branca, talvez? Ou pais com origem europeia? Não sei. Talvez a ministra possa nos esclarecer, se um dia responder… talvez ela diga ao próprio travesseiro… eu disse talvez.
O fato é que, nesse outro “caso isolado”, Luan sofreu uma paragem cardiorrespiratória horas depois de ter sido mandado para casa, apesar de a mãe ter procurado atendimento. O médico dissera que não era nada — um mal-estar, provavelmente. Mas vejam só: a mãe voltou ao centro de saúde dez minutos antes de fechar. Sim, centros de saúde em Portugal têm horário para fechar, como lojas. Aliás, já faz tempo que anotei no meu bloco de notas para nunca adoecer depois do expediente do centro de saúde — até porque, mesmo que você vá direto a um hospital que funciona 24 horas por dia, nunca sabe em qual das 24 será realmente atendido, como contarei adiante.
Já na porta do centro de saúde, Patrícia, a mãe de Luan, pediu ajuda novamente, mas parecia que a equipe já tinha um pé fora da porta. Não quiseram atendê-la. E foi ali mesmo, na calçada, que o pequeno Luan perdeu a vida. Enquanto a médica que lá estava disse que não podia fazer nada, um enfermeiro foi até lá fora tentar reanimá-lo, mas era tarde demais. Depois disso, cada qual seguiu para casa — uns com as mochilas, outros com os cigarros. Patrícia, porém, voltou para casa algo maior: a ausência do filho.
— Ministra?
Silêncio.
Esses casos me fizeram recordar a primeira vez que precisei ser consultado no SNS, no Hospital de Vila Franca de Xira. Era inverno e eu fui tratar de um choque térmico que paralisou metade do meu rosto. Amigos diziam que podia ser AVC, mas eu tinha certeza que não. O meu pai morreu de AVC — e quando perdemos alguém assim, ganhamos um radar interno para a tragédia. Não era AVC. Era azar.
O fato é que, na virada do ano de 2022 para 2023, eu estava assando um pudim de leite e abria o forno de dez em dez minutos para ver se estava pronto, afinal iria passar o réveillon na casa de uns amigos na vizinhança. Depois que o pudim ficou pronto, fui andando até a casa deles — três minutos. Estavam 3°C lá fora. Foi o suficiente para o choque térmico na minha cara ainda quente do forno. No dia seguinte, o lado direito do meu rosto paralisou. Belo jeito de iniciar o ano novo.
Fui para o hospital logo pela manhã, mas levei horas para ser atendido. E quando digo horas, não estou exagerando: só fui atendido por volta das 20h. Mas atenção: era apenas a primeira triagem. Aquilo era inacreditável. O sentimento que mais me dominava era a saudade do SUS, o Sistema Único de Saúde do Brasil. Mas, com o tempo de espera, percebi algo maior: o caos estruturado da saúde portuguesa, mas não apenas isso, como se constata a seguir.
O Hospital de Vila Franca de Xira, que não é pequeno, estava abarrotado de idosos. A maioria estava sozinha ou acompanhada por outro idoso amigo. Conversei com muitos e perguntei por que estavam ali sem família. Diziam que os filhos estavam viajando, ou que não os viam há muito tempo. Outros vinham direto do lar de idosos. A minha cara torta atrapalhava a fala, mas eu estava de máscara, então consegui disfarçar enquanto conversava com os velhinhos.
E de repente, o sentimento de saudade do SUS foi-se transformando em outro: a convicção de que eu não passaria a minha velhice em Portugal. Como pode um país tratar assim os seus idosos? Imagina eu, um velho imigrante? Eles estavam ali horas e horas, assim como eu. Muitos com pneumonia ou simples gripe, mas tão frágeis que isso já os debilitava de forma brutal.
Antes de precisar deste atendimento, eu sempre ouvi dizer que a saúde em Portugal criava imensas barreiras para atender imigrantes. Mas percebi que a questão era muito mais complexa. As barreiras não eram impostas apenas aos imigrantes, mas a toda a população de utentes que sustenta o sistema com os seus impostos.
E não era falta de estrutura física: os complexos hospitalares de Portugal são enormes, verdadeiros colossos, dependendo da região. A questão é que os médicos formados aqui geralmente imigram para outros países, porque a carreira pública na medicina portuguesa é uma vergonha, como dizem por aí. Naquele dia, corria pelos corredores o rumor de que havia apenas dois ou três médicos de plantão naquele imenso hospital. Se é verdade ou não, nunca saberei.
Passava da meia-noite quando fui chamado para a sala de espera do médico. A minha senha era 1888, mas o ecrã marcava 157. Ao invés de chorar, tive uma crise de riso. Os velhinhos olharam para mim, cansados, alguns tossindo, outros só levantando a sobrancelha como quem dizia: “é isso que nos espera, meu filho”. Respirei fundo e fui para casa de Uber. O motorista era imigrante brasileiro. Conversamos sobre a saúde em Portugal. Ele contou que quase perdeu a esposa devido a um erro médico em Lisboa, porque numa cirurgia em que ela precisou remover uma das trompas, perfuraram seu intestino por engano. A situação da mulher se complicou e ela acabou ficando sem as duas trompas, de quebra, ainda ganhou uma bolsa de colostomia. Eu fiquei em choque. Não disse mais nada.
Cheguei em casa, tomei banho, comi, descansei um pouco. Voltei ao hospital. Ainda estava na senha 1500. Esperei mais algumas horas até que finalmente fui atendido. O médico — um imigrante angolano — examinou-me com cuidado e pediu desculpas pela demora, pois era um dos poucos de plantão. Expliquei o que aconteceu e ele concordou: choque térmico. Pediu exames para descartar algo mais grave: TAC, sangue, urina. Mais algumas horas de espera.
Quando finalmente peguei os resultados, já era dia. Quando fui chamado novamente, já era hora do almoço. E afinal, constatou-se o que eu já sabia desde o início: choque térmico. O nervo facial do lado direito tinha inflamado, e consequentemente, essa parte do meu rosto decretou greve geral. Recebi corticoides em doses tão altas que tive alucinações nos dias seguintes e inchei como um balão. O médico recomendou fisioterapia facial no próprio hospital. Bastava aguardar a carta de confirmação.
Alguns dias depois, o que chegou primeiro foi a fatura: 50 euros no total. Saúde pública? Não!
Pesquisei na internet exercícios faciais e descobri que o problema era comum. Passei dias soprando canudos, enchendo bexigas e contando até dez com a boca escancarada. Parecia um idiota rindo de mim mesmo, mas funcionou: em três semanas meu rosto estava absolutamente normal.
Decidi que faria de tudo para nunca mais precisar do SNS, e dentre as precauções que adotei, agora só faço pudim no verão.
Mas imprevistos acontecem. Alguns meses depois, tive um acidente de trabalho: um fragmento de vidro entrou no meu olho direito. Comecei a achar que o lado direito do meu rosto estava amaldiçoado. A parte interna da pálpebra inferior abriu e formou-se uma espécie de filamento, deixando o tecido exposto. Fui ao seguro de saúde da empresa. A médica ironizou a situação e disse que provavelmente eu já tinha nascido com aquilo. Olhei para a cara dela, cocei a cabeça e questionei se ela era realmente médica. Ela não gostou e mandou-me embora.
Lá fui eu novamente para o Hospital de Vila Franca de Xira.
Expliquei a situação à atendente, que rolava o feed do Facebook enquanto me ouvia. Disse que marcaria consulta com a oftalmologia e que eu deveria aguardar a carta chegar. E novamente, o que chegou primeiro foi a fatura: 15 euros.
Saúde pública? Não!
Meses depois chegou uma carta. Era da fisioterapia facial — que já não me servia para nada. Eu agora tinha outro problema. Resolvi agir sozinho: esterilizei uma tesoura e cortei o filamento de tecido morto da minha pálpebra. Não doeu. Nem sangrou. Foi simples. Um ano depois chegou a carta do hospital marcando a consulta de oftalmologia. Eu já nem lembrava disso.
De lá para cá, nada mudou na saúde pública portuguesa. Talvez tenha piorado.
Para justificar mortes, a ministra da saúde diz até que na Guiné-Bissau não se fala português. Ora… até onde sabemos, não foi a China que colonizou a Guiné.
E mesmo que fosse, que tipo de ministra da Saúde diz algo assim?
Qualquer pessoa minimamente decente sairia do cargo depois de uma declaração dessas. Mas ela permanece lá, convicta de que está tudo bem. Convicta de que a saúde portuguesa respira sem aparelhos. Enquanto isso, grande parte dos utentes não tem médico de família — principalmente imigrantes. Nunca conheci outro imigrante com médico de família. Muitos médicos aposentam-se, adoecem, mudam de país. E não há um plano concreto de substituição ou incentivo à carreira.
Talvez haja mais médicos portugueses em Luxemburgo do que em toda a Grande Lisboa. Entre 2022 e 2024, por exemplo, quase 3 mil médicos abandonaram Portugal e foram atuar em outros países.
E eu não preciso dizer mais nada para convencer alguém de que a saúde portuguesa anda à beira do precipício.
Mais de 1,6 milhões de pessoas estão sem médico de família em Portugal. E mesmo entre os que têm médico atribuído, muitos nunca o viram. Há urgências que fecham à noite, há maternidades que funcionam como calendário lunar: hoje há vagas, amanhã talvez.
A ministra fala de dificuldades de comunicação, mas os dados comunicam muito bem: em 2023, mais de 40 urgências obstétricas encerraram temporariamente por falta de médicos em Portugal.
Segundo a Ordem dos Médicos, um em cada três recém-formados abandona o SNS nos primeiros anos de carreira. Num ranking europeu, Portugal é um dos países com maior tempo de espera nas urgências. E diante disso tudo, seguimos com ministros garantindo que está tudo bem, que “há pontos de melhoria”, que “o sistema está a adaptar-se”. Se isto é adaptação, imaginem quando a catástrofe se instalar de vez.
A verdade é simples: no SNS, a vida das pessoas está na mesma fila que as faturas. E algumas ficam pelo meio do caminho, em direção ao cemitério…
Mas esperem — antes de encerrar esta crônica, há mais um caso. Na última quarta-feira, 12 de novembro de 2025, uma grávida deu entrada no Hospital São Francisco Xavier com fortes contrações. E adivinhem o que decidiram fazer? Deram-lhe alta. Mandaram-na para casa. Meia hora depois, não aguentava mais com as dores das contrações e chamou um Uber — afinal, ela sabia muito bem que confiar no INEM é brincar com a sorte, dadas as eternas esperas ao telefone. Nunca se esqueçam de Umo Cani e seu bebê.
A intenção dessa grávida, obviamente, era retornar àquele hospital em Loures, na Grande Lisboa. Mas no meio da viagem, ela começou a se contorcer e a gritar de dores… até que seu último grito fez o motorista se desesperar:
— VAI NASCER! — gritou a mulher.
E nasceu mais um português, mas desta vez, dentro de um Uber.
Sim, podem respirar aliviados: mãe e bebê estão vivos.
— Ministra?
Silêncio…
Com Esq Diário