Nesta quarta, Donald Trump apresentou em sua rede social como um avanço “em direção à paz” o anúncio de que o Hamas e Israel assinarão a primeira fase do acordo para um cessar-fogo em Gaza. Uma decisão imposta sob a enorme pressão dos regimes árabes e a ameaça genocida de Israel e dos Estados Unidos, que gerou manifestações de alegria e celebração na Faixa, depois de dois anos de genocídio e extermínio sistemático da população palestina.
Enquanto milhões no mundo se mobilizam exigindo o fim do genocídio e lutam nas ruas para acabar com a cumplicidade de seus governos com o Estado de Israel, é fundamental parar para examinar o que está por trás deste anúncio, após dezenas de milhares de mortos e sob a ameaça de Trump e Netanyahu intensificarem ainda mais o massacre caso não seja aceito.
Em primeiro lugar, como viemos denunciando desde o primeiro anúncio, em 30 de setembro, do chamado “plano de paz” de vinte pontos impulsionado por Trump e Benjamin Netanyahu, não se trata de um acordo para qualquer paz. É a culminação de um projeto imperialista que busca formalizar a vitória israelense e a rendição total do povo palestino. O plano inclui uma retirada apenas parcial e indeterminada das tropas israelenses em troca do desarmamento total do Hamas, para que passe a controlar a zona um governo e exército estrangeiros, sem a participação dos palestinos. Ou seja, trata-se de um plano neocolonial projetado para legitimar o genocídio, consolidar a ocupação militar e relegar os palestinos a um mero protetorado, sem soberania ou direitos plenos.
Vamos analisar mais detalhadamente. O plano exige o desarmamento imediato e o desmantelamento de toda a infraestrutura de resistência, para então substituir a ocupação israelense por outra ocupação, chamada “Força Internacional de Estabilização” (FIE). Este corpo militar estrangeiro, que incluiria parceiros árabes dos Estados Unidos, assumiria as responsabilidades de “segurança” de Israel. Estaria sob a autoridade de um “conselho de paz” presidido por Trump e por figuras como, nada menos, o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, uma espécie de governador na mais pura tradição do colonialismo do século XIX. Um velho aliado do imperialismo norte-americano na “guerra do Iraque”, aliás, invasão que resultou na morte de um milhão de pessoas. O acordo também deixa de fora qualquer reivindicação palestina relacionada à Cisjordânia, o que abre caminho para que Israel continue com seu plano declarado de expansão colonial para aquele território.
Não esqueçamos também o “Plano Riviera” de Trump, que certamente não foi descartado, especialmente quando ele pretende que seu genro, o empresário Jared Kushner, se encarregue da reconstrução: transformar a Faixa em um centro tecnoindustrial, onde os palestinos sobreviventes serviriam como mão-de-obra forçada para o capital estrangeiro. É a consolidação de uma colonização econômica que perpetua a dependência e a exploração.
Além disso, o plano sempre foi um ultimato: se o Hamas não o aceitasse, “o inferno seria desencadeado sobre Gaza”, nas palavras de Trump — inferno que, na verdade, já está desatado há décadas, especialmente nesses dois últimos anos. Em conclusão, o que se propõe é um cessar-fogo momentâneo e frágil — não é preciso mais do que observar a lista de violações recentes do cessar-fogo por parte de Israel — em troca de uma nova fase do genocídio e da limpeza étnica, apenas disfarçada de “solução acordada”. Porque Netanyahu sempre deixou clara sua intenção de expulsar os palestinos. Com esse plano, esse objetivo poderia ser canalizado por vias como acordos com o Egito e outros países árabes da região para estabelecer campos “temporários” que, à semelhança dos de Jordânia, durem décadas, consolidando o deslocamento forçado. E não esqueçamos, o plano também visa garantir a impunidade para os responsáveis pelo genocídio e os governos cúmplices que sustentaram, armaram e encobriram Israel durante esses dois anos desastrosos.
A armadilha da Primeira Fase e a recorrência do engano
A fase inicial do plano se concentra na troca dos prisioneiros israelenses por 2.000 prisioneiros palestinos. Lembremos que atualmente há pelo menos 10.000 palestinos presos, dos quais 300 são crianças. Como dissemos, isso é acompanhado por uma promessa futura de retirada que é uma armadilha: o exército de Israel se retiraria apenas da cidade de Gaza, mas deixaria o restante da Faixa sob o controle de uma ocupação militar de países terceiros sob comando de Estados Unidos e Israel, que implantariam um cerco enorme, garantindo que o território se mantenha asfixiado. O futuro a longo prazo e a reconstrução do território ficam suspensos em um futuro incerto. Na realidade, com essa ocupação e a relegação do povo palestino a uma supervisão internacional e sem direitos plenos, o plano concederia a Israel a vitória que não conseguiu alcançar militarmente, apesar da carnificina que custou a vida de centenas de milhares de palestinos, como afirma a relatora da ONU Francesca Albanese, muitos deles crianças.
Por outro lado, não dá nenhuma garantia de que Israel, que tem um histórico de romper os acordos após a primeira fase, nem os Estados Unidos, que aplaudem essas violações, vão respeitar seus compromissos. A quebra de um cessar-fogo pactuado em janeiro é um precedente imediato, seguido pela violação unilateral em março, que ainda foi acompanhada de um bloqueio brutal sobre a Faixa de Gaza que está matando de fome crianças palestinas. Pode-se observar um padrão no qual o cessar-fogo não passa de uma pausa para que as hostilidades sejam retomadas mais tarde, mas que permite ao Estado de Israel aparecer com o aval de acordos internacionais patrocinados pelos Estados Unidos e aplaudidos pela UE.
A aceitação parcial do Hamas ocorre sob uma chantagem criminosa que não podemos ignorar, e parece buscar um espaço de negociação que Netanyahu e seus parceiros de governo ultradireitistas dificilmente permitirão. No entanto, a estratégia do Hamas de depositar confiança mais uma vez nos regimes árabes reacionários da região facilitou esse chantagem. Esses regimes, muitos deles aliados do imperialismo norte-americano como os de Catar, Egito ou Turquia, não apenas mantiveram intercâmbios comerciais e financeiros com o Estado genocida, ou participaram da repressão ao movimento em solidariedade com a Palestina, mas também são os que mais pressionam o Hamas a aceitar o acordo sob a ameaça da destruição completa de Gaza. A subordinação às burguesias árabes que historicamente usaram a causa palestina como moeda de troca para seus próprios interesses não pode oferecer nada à luta do povo palestino por sua autodeterminação.
Uma repetição histórica que perpetua o genocídio
O plano de Trump e Netanyahu é uma repetição histórica que valida a expansão israelense. A premissa de negociar a paz a partir do reconhecimento do Estado colonial israelense, construído sobre a limpeza étnica do povo palestino, transforma todas as iniciativas em uma legitimação do Estado sionista e um aval para o genocídio.
A experiência dos Acordos de Oslo de 1993, longe de inaugurar a paz, é o exemplo mais claro de como esses processos só servem para legitimar a opressão e se tornar um aval para a próxima fase do genocídio. Como explica Josefina Martínez em detalhes neste artigo, o líder da OLP, Yasser Arafat, reconheceu Israel em troca da criação de uma Autoridade Nacional Palestina (ANP), que se tornou uma pseudo-administração com poder limitado. O intelectual palestino Edward Said os definiu na época como “um instrumento da rendição palestina; o Versalhes palestino”. Esta farsa apenas consolidou a fragmentação territorial, permitindo a expansão dos colonos sobre territórios formalmente adjudicados aos palestinos. O historiador Rashid Kalidi foi categórico: “Oslo foi um grande sucesso se você acredita na colonização, na limpeza étnica e na apropriação de terras”. Em vez de garantir um Estado, Oslo consolidou a posição israelense.
Falou-se então da “solução dos dois Estados”, mas ficou claro que ela é fundamentalmente incompatível com o caráter de Israel. Como apontaram historiadores como Ilan Pappé, Israel é um colonialismo cuja existência se baseia na limpeza étnica para constituir um Estado étnica e religiosamente “puro”. A solução dos dois Estados, longe de trazer justiça, oferece apenas um pseudo Estado quase residual, dividido em pequenos territórios ou bantustões isolados pelo Muro do Apartheid e pelos assentamentos, sem controle de fronteiras ou recursos, e sem direito ao retorno para os milhões de refugiados. As recentes declarações de Netanyahu, insistindo que “não haverá um Estado palestino”, são a prova definitiva de que essa solução é uma quimera reacionária que apenas serve para disfarçar a consolidação do apartheid. Mas o fato é que, embora agentes políticos como o próprio Pedro Sánchez tentem vincular o plano de Trump à solução dos dois Estados, o ultimato imperialista nem sequer finge respeitar um estado palestino.
A única saída: escalar a mobilização até o fim do genocídio e da ocupação, por uma Palestina livre do rio ao mar
O fato é que, por outro lado, a pressão da crescente onda internacional de solidariedade, marcada por greves gerais na Itália, mobilizações massivas em todo o mundo e iniciativas como a Global Sumud Flotilla, conseguiu isolar Israel de uma forma sem precedentes.
Essa pressão forçou Israel e Trump a tentar intervir com um plano, e as potências imperialistas, incluindo aquelas que se apresentam como “aliadas” da Palestina — embora ainda mantenham relações com Israel, como o Estado espanhol — a apoiar rapidamente este plano, diante da ameaça de que o movimento de solidariedade continue escalando e ultrapasse o controle político. A incorporação da classe trabalhadora é um fantasma demasiado perigoso para uma UE que está em plena escalada de rearme imperialista.
Precisamente por isso, a mobilização deve continuar escalando e ultrapassar o controle dos governos imperialistas e aliados de Israel: esse é o caminho para que a armadilha da neocolonização e limpeza étnica dessas negociações sob a mira da pistola fracasse.
A classe trabalhadora e os povos do mundo devem exigir de seus governos que rompam todas as relações com Israel e imponham embargos totais de armas, colocando Israel em dificuldades reais e forçando sua retirada incondicional. A derrota de Israel, com uma retirada incondicional, seria possível se o proletariado dos países imperialistas, aliado aos povos do mundo árabe enfrentando seus próprios governos colaboracionistas de Israel — como está mostrando a juventude no Marrocos — agir com força.
É por meio de uma mobilização independente e internacionalista que paralise a cumplicidade dos portos, das armas e dos governos do mundo que poderemos impor uma vitória. Há precedentes históricos, como a derrota política dos Estados Unidos no Vietnã, que foi possível pela combinação da resistência heroica do povo vietnamita e pela incapacidade do imperialismo de continuar a guerra sem que a metrópole se incendiase com protestos.
Na Espanha, lembramos das enormes mobilizações contra a participação do governo de Aznar na guerra do Iraque. Agora temos a oportunidade de transformar o dia 15 de outubro em uma grande jornada de luta e construir uma grande greve geral que obrigue o governo a romper de uma vez todas as relações com o estado genocida e deixar de ser cúmplice.
A única saída para o povo palestino é o desmantelamento do Estado sionista e a construção de uma Palestina única, onde possam conviver os diferentes povos e confissões. Uma Palestina do rio ao mar só será possível conquistá-la com uma mobilização independente das diferentes saídas dos governos imperialistas e seus parceiros na região, por meio de uma ruptura completa com o imperialismo que provoca e sustenta o genocídio, minando as bases econômicas de seu domínio e abrindo o caminho para uma Palestina operária e socialista no marco de uma federação socialista do Oriente Médio.
Com Esq Diário