Na manhã do último domingo, 14/09, trabalhadores terceirizados da plataforma P-74, do campo de Búzios, iniciaram uma paralisação em protesto contra a extrema precarização imposta pela adoção do chamado “accommodation” durante a campanha de UMS da plataforma. Denúncias feitas por trabalhadores em grupos e redes sociais, repercutidas pelo portal Ururau Notícias, mostram as absurdas condições de trabalho às quais os trabalhadores da plataforma foram sujeitados: insetos na comida, banheiros quebrados e falta de locais adequados para banho e descanso! Trabalhadores denunciam mesmo a ausência de locais para sentar, sento forçados a passarem o descanso em pé ou no chão, além da falta de locais para banho durante o dia de trabalho, obrigando-os a suplicarem aos encarregados o uso dos vestiários da unidade.
Diferentemente de como as campanhas de manutenção normalmente são conduzidas, com a UMS passando o dia acoplada à plataforma, permitindo que seus trabalhadores se desloquem de uma embarcação para a outra, o accommodation significa que os trabalhadores da UMS UMTJ que trabalham na campanha de manutenção da P-74 estão sendo obrigados a desembarcarem de sua unidade para a plataforma, passando o dia inteiro de trabalho sem poderem retornar. Esse modo foi implementado em Búzios como uma suposta solução para a alta taxa de desacoplamento das UMS nas plataformas, que paralisava trabalhos enquanto a unidade não podia acoplar de forma segura, mas vale ressaltar que esse desacoplamentos, como já denunciamos anteriormente, são em grande medida resultantes de um erro de projeto, que faz com que os vent posts das plataformas fiquem alinhados às tomadas de ar das UMS. Ao colocar o accommodation como resposta, a Petrobrás empurra para os trabalhadores o custo de um erro que não tem nada a ver com eles.
Diferentemente de situações normais, em que podem retornar via gangway para sua unidade de origem para comerem e acessarem seus vestiários, esse trabalhadores ficam presos à plataforma durante todo o turno de 12 horas, gerando excesso de pessoal na ordem de dezenas. Como viemos denúnciando no Esquerda Diário desde quando esta mesma modalidade foi implantada na P-76, durante a campanha de UMS da unidade em julho, o accommodation, feito ao gosto da chefia que quer espremer até a última gota de suor dos trabalhadores, forçando a continuidade de campanhas de UMS enquanto mantém o mesmo ritmo de produção para agradar os acionistas, cria uma superlotação das unidades que necessariamente resulta em condições mais precárias de trabalho para o pessoal a bordo. Trata-se de uma “solução” empurrada de cima da baixo pela chefia da Petrobrás às contratadas, com plena consciência de seus efeitos – um verdadeiro escândalo em uma empresa que despeja tanto dinheiro em propaganda sobre o quanto se importa com a segurança do trabalho e as condições de saúde dos trabalhadores, em especial com uma diretoria apontada pelo governo da Frente Ampla de Lula/Alckimin, sobre o qual também recai a responsabilidade por toda a precarização que avança na Petrobrás.
Foi insurgindo-se contra essas situações que montadores de andaime, pintores e caldeireiros terceirizados, entre outros trabalhadores, organizaram uma paralização que arrancou no mesmo dia uma reunião com fiscais da Petrobrás a bordo, que se estendeu noite adentro. Ainda segundo cobertura do Ururau Notícias, a reunião com fiscais e coordenadores da plataforma foi das 22h30 às 2h da manhã. Um trabalhador envolvido nas manifestações, falando em condição de anonimidade ao portal, relatou que “não nos garantiram nada. Tentaram convencer a gente a diminuir o efetivo para continuar o modo accommodation. Mas se a gente ceder, não virão as melhorias”. A Petrobrás foi intimada pelo Ministério do Trabalho acerca do caso, e nova reunião foi marcada para ocorrer nesta terça, 16/09, para tratar do caso. Enquanto isso se desenrola, segundo o trabalhador, “não vamos trabalhar no modo accommodation, porque teríamos que ficar na plataforma sem alimentação e sem local adequado para descanso”.
A justa luta dos terceirizados da P-74 é um exemplo de resistência à precarização imposta em nome de manter a produção, visando apenas seguir enchendo de dividendos os bolsos dos acionistas às custas dos trabalhadores, obrigados a pagar pelos problemas de projeto que levam aos desacoplamentos e pela vontade da empresa de manter o máximo de pessoal a bordo, mesmo durante manutenções. Mostram como não podemos naturalizar a precarização e que os trabalhadores não aceitarão humilhações e violações flagrantes de seus direitos.
No texto Plataformas do pré-sal e o ‘modo accommodation’ como instrumento de exploração da classe trabalhadora, escrito pelo companheiro Kelber Costa, apontamos que:
É necessário e urgente que o Sindipetro RJ assuma essa luta, tornando as condições do accommodation conhecidas a todos os trabalhadores e organizando um amplo repúdio à precarização! Não permitiremos a piora das nossas condições de trabalho só para seguir enchendo os bolsos dos acionistas!
Resgatamos aqui essa urgência de que o Sindipetro RJ não permita a normalização da precarização imposta pelo accommodation! É preciso que todos os petroleiros e petroleiras se somem e cerquem de solidariedade a brava luta dos colegas terceirizados! Essa luta é de todos nós e é dever do sindicato não só se posicionar sobre a paralisação, como prestar todo apoio e solidariedade ativa a essa luta, organizando também entre os efetivos a resistência à imposição do accommodation em Búzios!
Com informações de Esquerda Diário