A ofensiva começou com bombardeios massivos para demolir de vez o que mal restava de pé – incluindo prédios residenciais em ruínas e até barracas –, juntamente com um apagão nas comunicações que deixou literalmente em completo isolamento cerca de 800.000 palestinos de Gaza.
O Estado de Israel exerce uma pressão brutal por todos os meios para forçar o deslocamento, um crime de guerra sem atenuantes que alguns cínicos tentam vender como “migração voluntária”. Portanto, é de se esperar que as calamidades para os palestinos aumentem à medida que o exército israelense avance para o coração da cidade.
Israel vem acelerando seu processo de deslegitimação internacional e, neste ponto, está reduzido quase à condição de pária, embora conte com o apoio incondicional dos Estados Unidos – seu principal aliado – e de poucos mandatários, entre os quais está o presidente argentino Javier Milei, cuja única política externa é obedecer a Washington e a Israel.
Nos últimos dias, o Reino Unido, França, Canadá, Austrália e Portugal reconheceram o Estado palestino, uma demonstração de que para Israel cometer um genocídio diante dos olhos do mundo não sai impune, levando a declarações inesperadas de governos que até pouco tempo atrás eram aliados do Estado de Israel.
Segundo Yaakov Amidror, assessor de segurança nacional de Benjamin Netanyahu entre 2011 e 2013, a ofensiva contra a Cidade de Gaza poderia ser dividida em duas fases: cerca de três meses de combates intensos, seguidos por outros seis meses para “limpar” a zona da presença palestina. Após completar a ofensiva sobre a cidade, o próximo alvo potencial seria justamente essa região central, densamente povoada pelos palestinos deslocados pelos ataques.
O governo israelense advertiu os residentes da Cidade de Gaza a evacuar para o sul, em direção às chamadas zonas humanitárias designadas, embora muitos palestinos resistam ou não possam fazê-lo. Além disso, trabalhadores humanitários relataram que foram “avisados” por oficiais militares israelenses de que haverá operações nesses campos centrais.
A ofensiva gerou uma enorme onda de deslocamentos internos na Faixa de Gaza. Segundo dados da ONU, mais de 250.000 pessoas abandonaram a cidade no último mês. Também se afirma que até 300.000 pessoas fugiram desde meados de agosto, quando começou a nova fase da ofensiva militar.
No entanto, muitos moradores não deixam o local. As razões são múltiplas: a falta de lugares considerados seguros ao sul, a impossibilidade financeira de se deslocar, a ausência de transporte, o trauma acumulado por deslocamentos anteriores e o medo de que até mesmo as chamadas “zonas seguras” sejam atingidas por ataques.
No sul da Faixa de Gaza, apontado por Israel como destino das evacuações, a situação é catastrófica: escassez de água, alimentos, atendimento médico e serviços básicos. Em algumas áreas designadas para os refugiados deslocados, os relatos apontam que essas zonas estão superlotadas, sem infraestrutura adequada e continuam vulneráveis a bombardeios ou são inseguras.
A crise sanitária é grave. Dois hospitais importantes — o Hospital Infantil Al-Rantissi e o hospital oftalmológico — tiveram que suspender suas operações devido a danos estruturais e a bombardeios próximos. Além disso, o Ministério da Saúde de Gaza alerta que muitas rotas de atendimento médico estão inoperantes, que os feridos têm dificuldade para se locomover e que a infraestrutura hospitalar do norte está colapsada.
A insegurança alimentar também atingiu níveis catastróficos, especialmente no norte de Gaza, onde a ONU e outras organizações apontam que a população está à beira da fome. O deslocamento contínuo, somado ao bloqueio parcial da ajuda, à destruição de moradias e às ordens de evacuação (e a sua impossibilidade prática de serem cumpridas por muitos) contribuem para agravar a crise.
O avanço do exército de Israel em Gaza representa uma etapa-chave na continuação do genocídio que está sendo conduzido contra a população palestina. Esse avanço vem acompanhado de um enorme sofrimento humanitário, com deslocamentos massivos e colapso dos serviços essenciais.
Essa situação deu origem a um forte movimento internacional de solidariedade com o povo palestino, e ao surgimento de uma juventude antissionista, que avança na compreensão de que o genocídio e a limpeza étnica são a conclusão lógica do projeto sionista de colonialismo de colonos (ou seja, de substituição da população local). E que a única forma de detê-lo é com mobilização internacional e apoio à resistência palestina.
Esse movimento é duramente reprimido e perseguido pelos governos imperialistas e pelos aliados de Israel, mas não foi derrotado, como demonstram as mobilizações que continuam no Reino Unido, Austrália ou Países Baixos, as ações na Volta Ciclística do Estado Espanhol, e a greve com bloqueios realizada nesta segunda-feira pelos trabalhadores portuários na Itália, ou as denúncias dos parlamentares da Frente de Esquerda na Argentina contra o governo pró-sionista de Milei, para citar apenas alguns exemplos. Nestes dias, a Global Sumud Flotilha (da qual participa Bruno Gilga, trabalhador da USP e dirigente do MRT), que reúne representantes de 45 países, tentará chegar a Gaza apesar da ameaça militar de Israel.
Desde o holocausto nazista houve muitos genocídios, mas o que está sendo perpetrado pelo Estado de Israel em Gaza tem a particularidade de ser um crime no qual estão diretamente envolvidas todas as potências imperialistas e seus aliados. Por isso, a luta contra o genocídio tem necessariamente um componente anti-imperialista e está objetivamente ligada às lutas em curso, que, como na França ou Argentina, enfrentam os ataques dos governos capitalistas ajustadores, cúmplices do colonialismo israelense.
Com informações da Esquerda Diário