Desde o fim do ano vêm ocorrendo grandes mobilizações em Teerã, a capital iraniana, e em outras cidades do país, que já se converteram no maior desafio ao regime teocrático desde a explosão social de 2022. O estopim foi uma nova desvalorização de 16% da moeda nacional, o rial, no mês de dezembro, que impacta diretamente nos preços de produtos básicos como os alimentos, que em 2025 tiveram em média um aumento de 75%.
Além disso, o governo do presidente Masoud Pezeshkian, que chegou ao poder prometendo reformas no regime, apresentou ao parlamento o Orçamento de 2026 com fortes medidas de ajuste fiscal, incluindo um aumento do imposto sobre o consumo (semelhante ao IVA da Argentina [e ao ICMS no Brasil – NdT]) de 12% e um modesto reajuste salarial aos trabalhadores do Estado equivalente à metade da inflação anual (calculada em 46%).
Uma onda de protestos que cresce
Os comerciantes do Grande Bazar de Teerã, um gigantesco complexo comercial localizado no centro da capital, iniciaram uma greve pela eliminação dos múltiplos tipos de câmbio e contra a corrupção do regime. Mas o que começou como um protesto econômico de um setor rapidamente se massificou e se transformou em um questionamento ao conjunto das políticas de ajuste e ao regime político. As ruas de Teerã, Mashhad, Tabriz, Qom e muitas outras cidades se encheram de jovens, mulheres e trabalhadores exigindo a queda do governo e do aiatolá Ali Khamenei, o principal expoente do regime teocrático.
Em meio aos protestos e temendo que eles se aprofundem, o parlamento reduziu o aumento do imposto sobre o consumo para 10% e dobrou o futuro aumento salarial. Também foram concedidos alguns subsídios miseráveis que giram em torno do equivalente a 7 dólares por trabalhador. Mas tudo isso sem mudar o essencial da política do governo e do regime, que é descarregar a crise econômica sobre as costas do povo trabalhador.
Consequentemente, dezenas de milhares de pessoas, cansadas do alto custo de vida, da repressão e da corrupção de uma casta político clerical que vive como rica, voltaram às ruas nesta quinta-feira sob palavras de ordem como “morte ao ditador”, em referência a Khamenei.
Como nos dias anteriores, os manifestantes resistiram à repressão policial, que já custou a vida de pelo menos 500 pessoas e deixou mais de 10.000 detidos. Além disso, neste último dia de protestos, o regime cortou a internet em todo o país e grande parte das comunicações com o objetivo de interromper o fluxo de informações e as eventuais coordenações que os manifestantes pudessem fazer pelas redes sociais. A Nobel da Paz Shirin Ebadi alertou que o apagão poderia facilitar um massacre. Organizações de direitos humanos e a ONU exigiram uma investigação independente e o respeito ao direito de protesto pacífico. Ainda assim, viralizaram alguns vídeos em que se pode ver a brutalidade policial, por exemplo atacando um hospital onde algumas pessoas tentaram se refugiar.
A repressão não é novidade: no marco de um regime teocrático e ditatorial, em 2022, quando eclodiu a última grande onda de protestos após o assassinato de Mahsa Amini pelas mãos da “polícia da moral” por usar o hijab de forma considerada incorreta, o regime desencadeou uma onda de violência semelhante.
Nesta sexta-feira, o próprio Khamenei fez um discurso reafirmando a política repressiva e acusando os manifestantes de serem “sabotadores a serviço dos EUA”. Na mesma linha, o governo iraniano chegou a ameaçar com a pena de morte aqueles que realizarem “atos violentos”. Apesar de tudo, a revolta é tão grande que a repressão não consegue conter a mobilização. Motoristas buzinam em sinal de apoio, panelas batem, as marchas continuam e parecem estar em uma dinâmica ascendente.
O cinismo imperialista dos EUA e seus verdadeiros interesses
Por sua vez, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e seu aliado Marco Rubio, manifestaram-se cinicamente “a favor do valente povo iraniano”. Trump chegou a ameaçar na semana passada com represálias caso houvesse um único morto nos protestos. Como sempre, o imperialismo tenta usar as penúrias das massas dos países dependentes para impor ou reforçar sua dominação econômica e política.
É preciso lembrar que, em junho de 2025, os EUA atacaram o país em apoio ao seu aliado estratégico, o Estado de Israel, durante a “guerra dos 12 dias” que este manteve com o Irã, causando a morte de mais de mil iranianos, para frear o programa nuclear persa. No contexto do genocídio que o Estado sionista (com apoio norte-americano) promove na Faixa de Gaza e da política belicista que impulsiona na região, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu também tenta se aproveitar da situação para pressionar por uma mudança de regime no Irã que lhe permita manter sua política colonialista no Oriente Médio e subordinar o Irã aos interesses imperialistas.
Se olharmos mais atrás, os EUA (com oscilações conforme governem democratas ou republicanos) e outras potências imperialistas vêm impondo sanções econômicas ao Irã desde 2011, provocando uma queda significativa em seu principal produto de exportação, o petróleo, além de outros impactos nas finanças estatais, sendo os principais responsáveis pela crise econômica que o país atravessa. Isso, junto com as políticas de ajuste e a corrupção da teocracia local, é a causa fundamental das penúrias das massas.
No fundo, os EUA pretendem manter o regime iraniano sob controle e, potencialmente, forçar uma mudança de regime e um governo fantoche para garantir o controle da região e dispor de seus recursos naturais. Como ocorre hoje na Venezuela, após o ataque militar que sequestrou Nicolás Maduro e terminou com Delcy Rodríguez como marionete de Trump à frente do governo, o imperialismo ianque não busca “defender a democracia” ou os “direitos humanos” nem no Irã nem em nenhum país. Tampouco nos EUA, onde a repressão e a violência policial acabaram de fazer mais uma vítima. Pelo contrário, como o próprio Trump declarou publicamente, em coletivas de imprensa e entrevistas, o que busca é o acesso ao petróleo e a outros bens comuns.
Por sua vez, a oposição de Reza Pahlavi no exílio, herdeiro da monarquia que governou com mão de ferro até a revolução de 1979, reivindica o apoio dos EUA e chama à continuidade das mobilizações, mas em um sentido totalmente reacionário, para eventualmente recuperar seu controle sobre o país e subordiná-lo aos interesses do imperialismo.
Os protestos atuais são a expressão do cansaço do povo iraniano diante de uma crise econômica e social profunda, resultado tanto da opressão do regime teocrático quanto da pressão e do cerco do imperialismo. O governo de Pezeshkian aplica austeridade e repressão, cuidando dos interesses da elite às custas das grandes maiorias, enquanto os Estados Unidos e outras potências imperialistas apenas buscam impor uma mudança de regime funcional aos seus próprios interesses geopolíticos e econômicos. A única saída progressista virá por meio da mobilização independente dos trabalhadores e do povo iraniano e de sua auto-organização, que ponha fim ao regime repressivo e imponha um plano econômico operário e popular.
Com Esq Diário