“Gaza está queimando”, foram as palavras do ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, ao chegar a notícia do início da invasão total. A campanha de bombardeios israelenses intensificou-se nas últimas semanas com o objetivo claro de destruir a infraestrutura civil e “preparar o terreno” para a invasão. Hospitais, escolas, mesquitas, prédios residenciais, painéis solares e até abrigos da ONU foram alvo dos ataques.
A entrada terrestre em Gaza City representa cume de uma ofensiva que não visa combater “alvos terroristas”, como afirma a propaganda sionista, mas sim aniquilar qualquer possibilidade de vida organizada no território palestino. Trata-se de uma tentativa sistemática de eliminar a cidade como centro político, social e simbólico da resistência palestina. Um ex-professor refugiado em Gaza, Montaser Bahja, resumiu o desespero vivido pela população: “Estamos todos aterrorizados. A morte seria mais misericordiosa do que o que estamos vivendo.”
A operação mobilizará cerca de 130 mil reservistas e cinco divisões das Forças de Ocupação de Israel (IDF). Israel deu novas ordens de evacuação, dizendo que a cidade se tornou uma “zona de combate perigosa”. O porta-voz das IDF em árabe, coronel Avichay Adraee, fez o anúncio oficial da invasão por meio de redes sociais, enquanto explosões ecoavam por toda a cidade e faziam janelas tremerem a mais de 40 quilômetros de distância.
A invasão tem sido articulada com apoio explícito dos Estados Unidos. Em visita ao Catar, o Secretário de Estado norte-americano Marco Rubio afirmou que “o tempo está se esgotando” para um acordo negociado, pressionando o Hamas a aceitar um cessar-fogo sob condições de rendição total. Disse que a “janela de tempo” para uma trégua é de dias, talvez semanas – o que coincide com a previsão das próprias IDF, que afirmam que a operação terrestre pode durar “meses”, ainda que o tempo real seja imprevisível.
O recado é claro: o imperialismo norte-americano atua diretamente para garantir a consolidação da estratégia de “solução final” de Netanyahu, de fazer com que a Cidade de Gaza seja palco de uma nova Nakba (catástrofe) diante dos olhos do mundo. Ontem, até mesmo a ONU concluiu que Israel deve ser responsabilizado por cometer crime de genocídio na Faixa de Gaza. Pesquisas indicam que o número de mortos por Israel na Palestina desde Outubro de 2023 pode chegar a 680.000 pessoas, muito acima das estatísticas oficiais.
O anúncio da invasão deixa claro que não se trata de um “conflito entre dois lados”, ou “de uma guerra”. Estamos falando de um Exército que já controlava boa parte da cidade, cercando militarmente a região e impedindo a saída de nativos, como foi o caso do correspondente do Esquerda Diário em Gaza.
Entrevista | Diretamente da Faixa de Gaza: Voz e resistência em meio ao genocídio
A população não tem para onde correr. Ordenam que os moradores fujam para a parte sul da Faixa de Gaza, na chamada “zona humanitária” de Al-Mawassi, já tomada por centenas de milhares de refugiados internos, despejados por Israel, que não possui comida, água, ou sistema de saúde, nenhuma infraestrutura para receber pessoas. Uma zona onde operam centros de distribuição de alimentos controlados por Israel, que os utilizam de armadilhas para famintos que viram alvo móvel de atiradores sionistas.
Trata-se de um massacre perpetrado por um Estado colonial, armado até os dentes, contra um povo sitiado, empobrecido e sem acesso a meios básicos de sobrevivência. A destruição deliberada da cidade de Gaza, sob o pretexto de eliminar o Hamas, é parte de um projeto histórico do sionismo: apagar a Palestina do mapa. Netanyahu deixou isso bem claro em declarações recentes ao falar que não haverá Estado palestino e que aquelas terras são de Israel. Israel não quer cessar-fogo, não quer reféns, quer a tomada completa da Palestina.
A cumplicidade das potências imperialistas com essa barbárie é total. Desde os Estados Unidos, mas também diversos países da União Europeia, são fornecedores de armas e tudo que é necessário para alimentar a máquina de extermínio sionista. Recentemente, aliados de Israel passaram a emitir declarações e propor sanções parciais ao país, diante da força da solidariedade internacional que não deixa Gaza sozinha e luta contra esse genocídio. Mas não há qualquer ruptura desses países no seu fornecimento dos bens necessários ao genocídio.
Enquanto isso, o governo Lula mantém a sua condenação ao genocídio, mas segue mantendo a elevação da exportação de petróleo a Israel, permitindo o envio de aço brasileiro para a sua indústria militar e está sendo cúmplice dessa invasão terrestre. Enquanto o governo brasileiro se recusa a romper relações com Israel ou mesmo suspender acordos comerciais, crianças continuam sendo assassinadas sob escombros em Gaza.
Diante disso, é fundamental todas as iniciativas para travar uma luta consequente contra o genocídio, mostrando para o mundo o que acontece em Gaza e não a deixar só. Toda a forma de solidariedade internacional ativa à resistência palestina é fundamental nesse momento. É preciso mobilizar a classe trabalhadora, a juventude e os setores oprimidos, com greves, boicotes, manifestações de rua e ocupações para denunciar o genocídio.
Diante da Global Sumud Flotilha, missão humanitária que busca furar o bloqueio humanitário a Gaza, ter sido atacada por drones israelenses e estar sendo ameaçada de ser tratada como terrorista, diversos setores começaram a se mobilizar em sua defesa. Portuários da Itália e de Barcelona ameaçam paralisar tudo caso os barcos sejam interceptados. Estudantes de Madrid e da Itália começam a organizar paralisações das aulas contra o genocídio e em apoio à Flotilha. É fundamental que em cada local de estudo e trabalho se organizem medidas que colocam a força da nossa classe e da juventude para enfrentar o projeto capitalista de ocupação total da Faixa de Gaza.
A invasão da cidade de Gaza não é parte de uma guerra, é a continuidade de uma catástrofe colonial iniciada há mais de 75 anos, desde a Nakba de 1948. Hoje, como ontem, o Estado de Israel age como ponta de lança do imperialismo na região. Sua existência está baseada na negação da Palestina. Por isso, a luta por uma Palestina livre — do rio ao mar — é hoje a luta que marcará o destino de todas as lutas por libertação contra a exploração e opressão da classe trabalhadora e dos povos oprimidos do mundo.
Com Esquerda Diário