Ao todo, cerca de 1000 pessoas entre trabalhadores, jovens, estudantes, professores, militantes e integrantes de diferentes movimentos sociais, foram parte do evento. Conversamos com algumas dessas pessoas e uma palavra se repetiu na boca dos que puderam conhecer as ideias transmitidas por Myriam Bregman: esperança.
A sensação expressa nesse depoimento apareceu também entre pessoas que tiveram naquele dia seu primeiro contato com Myriam Bregman e com a experiência da esquerda revolucionária argentina. Uma participante relatou como a atividade foi, para ela, um contraponto ao sentimento de impotência diante do crescimento da extrema direita na América Latina:
“Amiga, eu achei tudo muito organizado por parte de vocês da Faísca, de verdade! Eu achei ótima a iniciativa também, porque eu não conhecia a Myriam e, cara, ela parece ser uma luz em meio a essa escuridão contra a onda de extrema direita na América Latina. Na mesa, eu gostei muito de uma fala de uma das moças, ela se apresentou como professora, acho que o nome dela era Maíra, igual ao seu inclusive. Ela falou muito sobre a importância da luta coletiva porque muitas vezes nos sentimos sozinhos e ficamos até mesmo apavorados (eu pelo menos sim) com esse tanto de retrocesso e ficamos sem ver saída. E a Myriam vem exatamente pra trazer essa retomada da luta coletiva. Nossa, eu amei! Amei que ela bate de frente com o Milei! E amei o que ela trás sobre não ser somente "reformista" e sim revolucionária mesmo. Maravilhosa de tudo!”
O depoimento dialoga diretamente com um dos principais sentidos políticos da atividade. Em sua intervenção, Maíra Machado, professora e coordenadora pela oposição da Subsede da APEOESP de Santo André, destacou a importância das lutas coletivas e da experiência recente da Argentina, onde milhares enfrentam nas ruas o governo de extrema direita de Javier Milei. Uma experiência que mostra que, diante dos ataques, a saída não está em esperar passivamente pelas próximas eleições, mas em construir força social e política independente dos trabalhadores.
Foi também esse aspecto que atravessou a fala de Bregman. Ao recuperar experiências do movimento operário argentino, das lutas das mulheres, dos movimentos de direitos humanos, da juventude e da resistência ao governo Milei, Myriam colocou em discussão uma perspectiva oposta à resignação, a aceitação do mal menor e das alianças entre o PT e a direita, que muitas vezes se apresenta como a única saída diante do avanço da direita e da extrema direita.
Uma das participantes destacou especialmente a experiência das fábricas recuperadas por seus trabalhadores na Argentina:
“Eu gostei muito, é muito bom saber que a extrema esquerda vem crescendo cada vez mais na América Latina. Eu achei fenomenal ela falando dos trabalhadores que mantiveram a fábrica funcionando mesmo sem patrão. O que demonstra na prática o que nós sempre defendemos, não precisa de uma utopia para os trabalhadores reivindicar seus direitos.”
As experiências das fábricas ocupadas e colocadas para funcionar sob controle dos próprios trabalhadores tiveram um lugar importante na trajetória política apresentada durante o lançamento. São exemplos concretos de que a classe trabalhadora não precisa se limitar a escolher quem administrará a sociedade existente, mas pode desenvolver sua própria força e sua própria capacidade de organização. Não temos que escolher entre um capitalismo selvagem ou uma versão “humanizada” da exploração e opressão desse sistema.
Como afirma Myriam no seu discurso, não adianta ganhar o governo se o poder segue nas mãos dos capitalistas que usam de seus representantes para garantir seus interesses contra as necessidades da maioria da população. É preciso discutir como ter o poder de transformar as bases dessa sociedade de miséria e opressão, colocando as riquezas produzidas pelos trabalhadores a serviço das necessidades da maioria da população.
Outro participante sintetizou essa reflexão na forma de uma pergunta sobre os desafios colocados no Brasil:
“Quer dizer que na Argentina essa vertente política foi se criando e desenvolvendo sem moderação? E aqui nós não temos isso, né? De uma esquerda sem moderação? O desafio então é trazer pra aqui essa vertente não moderada”
A pergunta toca em um dos debates centrais propostos pelo próprio título do livro. Ser “moderada nunca”, na trajetória política apresentada por Bregman, não significa simplesmente utilizar um discurso mais radical. Significa não aceitar como inevitáveis os limites impostos pelos interesses dos grandes empresários, pelos governos ou pelas instituições existentes, buscando construir uma força política independente que confie na força da organização e da luta em cada local de trabalho e estudo contra os ataques da extrema-direita, do imperialismo, mas também do governo de Frente Ampla do PT e de Lula.
As falas realizadas durante o lançamento também buscaram mostrar que essa perspectiva não pode estar separada das experiências concretas daqueles que enfrentam diariamente a exploração e a violência do Estado. A atividade contou com a presença de trabalhadores terceirizados e familiares de vítimas da violência estatal, entre outros setores que participaram do encontro.
Uma trabalhadora terceirizada que esteve presente com suas companheiras enviou após o evento:
“Obrigada, pela recepção e por toda atenção conosco. Eu e as meninas amamos tudo. Já te falei em outras ocasiões - e volto a repetir - você é uma mulher foda que admiro muito; você é luz por onde for! Que seu fim de noite seja maravilhoso. Agradeça todos, por gentileza, eu e as meninas estamos imensamente gratas!”
Uma mãe que faz parte de um coletivo de mães de vítimas da violência do Estado também deixou seu depoimento:
“Quero agradecer o Pão e Rosas, a Casa Marx. Ana Cláudia, Rita e toda a equipe que nos deram essa assistência. Gostei da experiência só gratidão.”
Outro relato ressaltou o impacto emocional das discussões feitas durante o lançamento:
“Bom dia, prof! Tudo bem? Passando pra agradecer o convite para o evento de ontem! Nós gostamos bastante, o posicionamento dela é extremamente necessário e as falas dela até nos emocionaram, dá até esperança de viver nesse mundo. Infelizmente tivemos que sair um pouco mais cedo ontem devido a um compromisso, mas curtimos bastante!”
É muito importante que a discussão colocada por Myriam Bregman, junto a Diana Assunção, Marcello Pablito e Maíra Machado, tenha tocado corações e mentes sobre a possibilidade de lutar e que existe um caminho alternativo ao que os reformistas e o governo de Frente Ampla colocam para os trabalhadores. Uma alternativa que aposte na força da organização e ação coletiva, que entenda a necessidade de coordenar as lutas que se dão sempre isoladas por conta da separação imposta pelas burocracias sindicais.
Vivemos um momento de ofensiva imperialista contra a América Latina, como acontece através do fortalecimento de figuras da extrema-direita, mas também através da intervenção dos EUA na Venezuela, sequestrando Nicolás Maduro, e agora no Brasil com a tentativa de Trump de interferir nas eleições de outubro. Em um momento como esse é muito importante que diversos jovens, trabalhadores, mães e imigrantes vejam esperança em uma saída revolucionária e anticapitalista, pois é o único caminho para derrotar de fato os inimigos da nossa classe.
O principal objetivo do lançamento de “Moderada Nunca” é justamente fazer com que essa esperança não permaneça apenas como um sentimento individual. Se a força de figuras como Myriam Bregman desperta entusiasmo, isso está ligado sobretudo às lutas das quais ela é parte e à construção coletiva que tornou possível que uma esquerda revolucionária tivesse peso político, eleitoral e social na Argentina. Como ressaltou Bregman, essa projeção não nasceu de uma campanha de marketing ou de uma construção individual. Ela foi construída participando de algumas das principais batalhas políticas e sociais do país: ao lado dos trabalhadores, enfrentando as reformas e os planos de ajuste, junto ao movimento de mulheres, na defesa dos direitos humanos, contra a repressão estatal e, atualmente, na linha de frente da oposição ao governo Milei.
Portanto, é necessário transformar esse sentimento individual em uma coletividade comunista, que atua politicamente na realidade e que combata a ideologia neoliberal, individualista, que nos quer cada um enfrentando sozinhos as mazelas cotidianas que vivemos no capitalismo. Frente ao medo, ao isolamento e à sensação de que não existe alternativa, é preciso recuperar a força que aparece quando trabalhadores e jovens lutam coletivamente, que é o verdadeiro motor da história que faz o impossível se tornar inevitável. Frente a decadência do imperialismo norte-americano, que atestou para o mundo que não é invencível na sua guerra contra o Irã, serão os trabalhadores e jovens dispostos a colocar o corpo na batalha por uma nova sociedade que irão abrir caminho para um futuro sem guerras, crises e miséria.
Como concluiu Myriam no lançamento:
Não nos moderamos, porque somos de esquerda com orgulho, porque sabemos acompanhar a luta dos demais e porque, quando há ataques antidemocráticos, nos pronunciamos, não importa contra quem sejam. Mas temos claro que queremos verdadeiramente ser uma força de esquerda, anticapitalista, que lute pelo socialismo e por uma vida que mereça ser vivida. Porque a vida é bela, e esperamos que as futuras gerações possam livrá-la de todo mal, de toda opressão e de toda violência, e que possam desfrutá-la plenamente. É por isso que, todos os dias, colocamos nossa militância a serviço da luta por essa vida que merecemos: uma vida em que todos e todas sejamos livres da opressão e da violência.
Fazemos um chamado a todas e todas a conhecerem e se organizarem no Movimento Revolucionário de Trabalhadores, nas agrupações do Movimento Nossa Classe, da Juventude Faísca, no coletivo de negros e indígenas Quilombo Vermelho e no grupo de mulheres e LGBTs Pão e Rosas. Fazemos parte da Corrente Revolução Permanente – Quarta Internacional, do qual Myriam Bregman e o PTS também fazem parte na Argentina. Nossa batalha é pela organização da esperança e ódio contra o capitalismo para lutar por um governo de trabalhadores que rompa com esse sistema.
Com esq. Diário