José Enrique Jerí Oré assumiu nesta madrugada a Presidência da República, depois que o Congresso aprovou a destituição de Dina Boluarte. Em uma sessão expressa, o plenário o empossou para exercer o cargo até 28 de julho de 2026, na condição de presidente interino.
Essa substituição quase mecânica nos altos escalões do Estado não implica uma mudança real: representa, antes, uma manobra política urgente para aliviar a pressão social crescente nas ruas. Após dias de mobilização contra o regime golpista e o desgaste do sistema institucional, o Parlamento impôs a sucessão constitucional como resposta tática imediata.
Jerí: um perfil questionado e vínculos com a burguesia
Jerí, de 38 anos, é membro do partido Somos Perú e foi presidente do Congresso para o período 2025‑2026. Sua chegada ao poder Executivo, no entanto, carrega uma série de acusações que minam sua legitimidade social — além de ter sido parte do golpe contra Pedro Castillo em 7 de dezembro de 2022.
Entre as acusações mais graves está uma denúncia por violência sexual iniciada em janeiro de 2025, que foi arquivada em agosto por falta de provas suficientes, segundo versões do Misntéro Público. Jerí também enfrenta investigações por corrupção ligadas a seu período na Comissão de Orçamento, onde teria ocorrido um suposto pagamento ilícito de 150. 000 soles para incluir um projeto no orçamento nacional. Além disso, é denunciado por descumprimento de ordens judiciais quando foi acusado de desobediência à autoridade no curso de processos judiciais.
Dessa forma, Jerí chega ao Executivo já carregando o peso das denúncias vigentes, o que demonstra que sua chegada não pretende trazer ares democráticos, mas disciplinar a situação política. Em outras palavras, a burguesia aposta em um rosto “mais aceitável” para reorganizar seu domínio sobre o Executivo e evitar que os protestos alcancem níveis de ruptura institucional.
Uma tentativa de trégua antes do choque social
A mudança no executivo ocorre num contexto explosivo: diferentes sindicatos convocaram mobilizações massivas para este mês. A saída de Boluarte — que respondia ao desgaste social e político — deixou o poder executivo vago justamente quando a crise e as reivindicações populares atingiam patamares insustentáveis. Jerí é anunciado como um “governo de transição”, mas sua legitimidade popular está profundamente questionada.
Seu governo terá que lidar com expectativas imediatas: gestos simbólicos (como a saudação em seu primeiro discurso às mobilizações da geração Z), restrições à repressão e promessas de reformas mínimas. Mas os setores mobilizados exigem mudanças estruturais; demandas que não podem ser resolvidas apenas com simples rearranjos institucionais.
No Legislativo: o fujimorismo se relocaliza com Rospigliosi
Enquanto Jerí assume o Executivo, no Parlamento o fujimorismo assume a presidência com Fernando Rospigliosi, que ocupava a vice‑presidência do Congresso. Rospigliosi foi um dos principais artífices de leis de anistia para policiais e militares implicados em violações dos direitos humanos durante o período de protestos sob a gestão de Boluarte. Em julho de 2025, ele assumiu a presidência da Comissão de Constituição e desde então impulsionou projetos para blindar o aparato penal militar‑policial contra processos por execuções extrajudiciais.
Com isso, o fujimorismo e seus aliados asseguram uma presença legislativa robusta que atue como contrapeso, e potencialmente como eixo decisor em nomeações e reformas urgentes. A ascensão de Rospigliosi no centro do tabuleiro político parlamentar revela que o fujimorismo aposta em relocalizar sua intervenção desde o Legislativo: acompanhar o novo Executivo, condicionar decisões-chave, preservar imunidades e impulsionar sua agenda (especialmente de segurança e repressão) com nova força.
A continuidade disfarçada
A assunção de José Jerí não representa uma ruptura popular ou institucional, mas um reajuste para retomar o controle em um momento de fragmentação social. Seu perfil controverso, suas denúncias judiciais e sua proximidade com setores conservadores apenas reforçam que a mudança de comando é uma operação de contenção.
Enquanto os sindicatos anunciam novas jornadas de luta, o novo governo enfrenta um dilema: ou cede parte do poder real às demandas populares, ou acabará sendo um peão frágil diante da pressão crescente das ruas. Em paralelo, o fujimorismo reorganiza suas peças com Rospigliosi à frente, garantindo que o Parlamento continue exercendo papel dominante nessa nova etapa. Nos próximos dias será decidido se esse movimento consegue silenciar a mobilização social ou intensifica-lá.
Com Esq Diário