No dia 18 de outubro, centenas de milhares de pessoas foram às ruas em mais de 2.500 cidades dos Estados Unidos para protestar contra a militarização das ruas promovida por Donald Trump, as batidas de imigração, a cumplicidade com o genocídio e os ataques aos trabalhadores e à liberdade de expressão. Milhares se reuniram em Detroit sob o lema “No Kings” (Sem reis). Tristan Taylor, membro da organização antirracista Detroit Will Breathe e do Left Voice, organização irmã do MRT nos Estados Unidos, discursou à multidão para defender uma verdadeira independência da classe trabalhadora em relação aos dois partidos e combater os ataques de Trump.
Meu nome é Tristan Taylor, sou cofundador do Detroit Will Breathe e membro da Left Voice. Estou feliz por estar aqui com outras pessoas que se recusam a aceitar o autoritarismo e os ataques de Trump à classe trabalhadora e aos oprimidos, tanto aqui quanto no exterior.
Como muitos de vocês, estou indignado com a forma como algumas lideranças nos Estados Unidos responderam a essa ameaça. Dias atrás, um pastor negro democrata que está concorrendo à prefeitura de Detroit disse que estaria disposto a coordenar com tropas federais. Enquanto o outro candidato disse se opor a isso, se recusou a criticar a relação de Detroit com o ICE e outras agências federais, que rotineiramente aterrorizam comunidades negras e latinas com batidas violentas.
Eles também não estão dispostos a enfrentar os bilionários que — ao contrário dos imigrantes sem documentos ou trabalhadores de outros países — são os verdadeiros culpados pela crescente desigualdade que os trabalhadores daqui enfrentam. Bem diante de nós está a antiga estação de trem que foi reformada pela Ford, recebendo mais de 100 milhões de dólares em isenções fiscais. Ou seja, mais uma empresa bilionária que explora brutalmente seus trabalhadores conseguiu escapar de pagar impostos na cidade de Detroit.
Mesmo agora, líderes democratas, sindicais e dos direitos civis têm medo de liberar todo o poder da classe trabalhadora ao se recusarem a enfrentar Trump de forma direta. Alguns, como a prefeita de Washington D.C., Muriel Bowser, até cederam ao envio da Guarda Nacional por Trump sob o falso e racista pretexto de “combater o crime”. É por isso que precisamos ser realistas. Para lutar por um mundo melhor, não podemos confiar numa Constituição nascida da escravidão e do genocídio ou nos tribunais para nos salvar. Além disso, qualquer conquista progressista da classe trabalhadora e dos oprimidos — como o direito à liberdade de expressão e os direitos civis — foi conquistada com luta. Por isso, não podemos simplesmente almejar voltar ao que éramos antes de Trump chegar ao poder. Aquele já era um mundo cheio de sofrimento, desigualdade crescente e opressão. Foi esse mundo que nos trouxe até aqui. Mais do que nunca, precisamos de independência política como classe e como povo oprimido para enfrentar o sistema bipartidário que nos conduziu até esse ponto.
Neste momento, devemos aprender a confiar no poder coletivo da classe trabalhadora — que é multirracial, imigrante, multigênero e multiétnica — para lutar contra Trump e a brutal desigualdade e barbárie do capitalismo: o sistema que ele serve e tenta salvar. O movimento sindical precisa romper sua convivência pacífica com Trump e convocar o movimento No Kings, além de todos que constroem a resistência contra Trump em todo o país, a travar uma luta unificada nas ruas, em nossas escolas, bairros e locais de trabalho. Somente nossa unidade na luta pode derrotar Trump. Essa unidade precisa vir de cima — nos sindicatos, organizações comunitárias, etc. — e de baixo, formada por trabalhadores e oprimidos de carne e osso.
O Detroit Will Breathe aprendeu com nossa experiência em 2020 que os movimentos precisam de organizações que fortaleçam a base, para garantir que os objetivos e estratégias venham da base do movimento, e não de líderes autoproclamados. Aprendemos a importância de realizar microfones abertos e assembleias de massa onde o movimento pudesse discutir, debater e votar os próximos passos. Não há nada mais poderoso do que a classe trabalhadora e os oprimidos se organizando em instituições independentes do Estado e dos partidos capitalistas, lideradas pelas comunidades nos locais de trabalho, bairros e escolas.
Para derrotar Trump, precisamos de mais ações como essas, mas também mobilizações como as que vimos na Itália, mobilizações de trabalhadores e jovens que pararam tudo por nossos irmãos palestinos enfrentando a brutal ofensiva colonial de Israel. Trabalhadores como eu e você, metalúrgicos e estivadores, em greve contra o genocídio. Hoje, aqui, lutamos por nossos irmãos imigrantes, exigindo que o ICE fique fora de nossas comunidades; fazemos isso por nossas famílias; pelas pessoas negras e latinas em todo lugar; pelos trabalhadores de todas as raças empobrecidos pelo neoliberalismo; pelas pessoas trans; pelo povo palestino; por todos os ativistas, estudantes e professores perseguidos por denunciar o genocídio; e contra a ofensiva imperialista contra nossos irmãos e irmãs da Argentina e do México até o Congo.
A mudança radical de que precisamos só virá se nós, trabalhadores, assumirmos as rédeas de como nossa sociedade é conduzida. Para construir um movimento assim, que nos unifique e lute contra a culpabilização racista, precisamos de discussões coletivas entre a base. Por isso, quero convidar todos aqui, estejam vocês em um grupo ou não, se vejam como líderes ou não — mas especialmente se têm perguntas, ideias e querem debater com outros — para uma reunião no próximo sábado, 25 de outubro, na Igreja Episcopal St. Matthews & St. Joseph’s, em Detroit, das 15h às 17h. Para mais informações, acesse a página do Detroit Will Breathe nas redes sociais ou pegue um panfleto em nossa mesa.
E, por fim: um salve para a People’s Assembly, que trouxe um lindo bloco para cá hoje, por estar na linha de frente da luta contra a guerra de Trump contra os imigrantes. Passem na mesa deles para saber como se envolver. Visitem também a mesa da Left Voice e sigam nossa publicação socialista e independente. E, é claro, obrigado a todas as pessoas que ajudaram a organizar o evento de hoje e a todas que compareceram.
Com Esq Diário