O fracasso das negociações entre os Estados Unidos e o Irã em Islamabad abre uma nova fase, marcada tanto pelo aumento das tensões quanto pela continuidade da comunicação entre Teerã e Washington. Após mais de vinte horas de negociações infrutíferas, Washington respondeu impondo um bloqueio naval com o objetivo de restringir o tráfego de petróleo iraniano no Estreito de Ormuz, bem como seu acesso ao Golfo Pérsico e ao Mar de Omã.
Por que as negociações fracassaram?
O fracasso das negociações em Islamabad não decorre de divergências menores, mas de uma incompatibilidade estrutural entre as posições americana e iraniana. Três pontos principais impediram qualquer progresso.
Em primeiro lugar, o controle do Estreito de Ormuz. Para o Irã, isso não é apenas uma alavanca estratégica, mas uma garantia concreta para qualquer acordo futuro. A experiência passada — e a profunda desconfiança em relação aos Estados Unidos, particularmente sob a presidência de Trump — levou Teerã a priorizar a dinâmica de poder real em detrimento de compromissos formais.
Em seguida, o programa nuclear. Washington tem defendido exigências maximalistas: eliminação total do estoque de urânio enriquecido, proibição de toda atividade por muitos anos, até mesmo décadas, e a completa paralisação do enriquecimento em território iraniano. Para Teerã, essas condições equivalem a uma capitulação total.
Por fim, há a questão regional. O Irã rejeita acordos parciais e acredita que qualquer compromisso deve abordar a situação como um todo, incluindo o Líbano e sua relação com Israel. Os Estados Unidos, por outro lado, buscam fragmentar as questões para obter concessões específicas.
Em última análise, a divergência também diz respeito ao momento. Washington exige concessões imediatas em troca de um alívio gradual das sanções; Teerã insiste na reciprocidade simultânea. Essa assimetria torna qualquer compromisso praticamente impossível. Da perspectiva iraniana, os Estados Unidos estão tentando obter por meio da diplomacia o que não conseguiram alcançar militarmente. Essa percepção reforça a recusa em ceder em questões consideradas essenciais.
Impasse estratégico de Trump
Por ora, a opção militar demonstrou suas limitações. Após várias semanas de intensos bombardeios dos Estados Unidos e de Israel, as capacidades estratégicas do Irã não foram destruídas e o equilíbrio de poder geral não foi fundamentalmente alterado. A ideia de impor uma mudança de regime unicamente por meio da superioridade aérea provou-se, mais uma vez, ineficaz.
Quanto à via diplomática, esta esbarrou imediatamente nas condições impostas por Washington, em grande parte alinhadas com as posições mais intransigentes do governo israelense. Encontramo-nos, portanto, num impasse: a continuação da escalada aumenta os riscos; recuar equivaleria a admitir o fracasso.
Nesse contexto, um bloqueio naval surge como uma solução provisória. Seu objetivo é claro: aumentar o custo para o regime iraniano sem ultrapassar — por ora — o limiar do confronto direto. Mas sua viabilidade permanece incerta. Requer operações nas imediações da costa iraniana, expondo as forças americanas a ataques em um ambiente extremamente hostil. Além disso, o Irã mantém a capacidade de ampliar o conflito, visando infraestrutura energética, instalações portuárias ou mesmo usinas de dessalinização cruciais em outros países do Golfo.
Esse bloqueio também acarreta o risco de interceptação de navios pertencentes a terceiros países — China, Índia ou Paquistão — com potencial para agravar ainda mais o conflito. Nessas condições, a possibilidade de incidentes descontrolados — interceptações, ataques a navios ou erros de cálculo — é muito alta, aumentando o risco de uma escalada repentina. Além disso, o limite de perdas aceitáveis para os Estados Unidos é extremamente baixo. Danos graves a um ou dois destróieres, ou a neutralização de um porta-aviões por drones ou mísseis, constituiriam uma grande catástrofe militar e política.
A isso se soma o impacto econômico. Ao restringir a oferta em um mercado já fragilizado, o bloqueio está elevando os preços do petróleo, alimentando a inflação global — particularmente nos Estados Unidos. A pressão exercida sobre o Irã pode, portanto, se voltar rapidamente contra Trump internamente. Além disso, estrangular a economia iraniana continua sendo difícil. Teerã estabeleceu rotas alternativas para contornar as sanções, desde o corredor ferroviário para a Ásia até as crescentes rotas comerciais pelo Mar Cáspio. Em vez de um colapso rápido, uma adaptação prolongada parece ser o cenário mais provável.
Em todo caso, é improvável que um bloqueio naval force o Irã a capitular. Se semanas de ataques intensivos não levaram a uma mudança estratégica, é difícil imaginar que um bloqueio por si só produziria um resultado diferente.
Crescente isolamento político
Esse impasse estratégico é agravado pelo isolamento político. Tanto Trump quanto Netanyahu se encontram cada vez mais isolados. Mas, no caso dos Estados Unidos, esse isolamento é particularmente profundo: é internacional, interno, institucional e ideológico, e tende a piorar à medida que a escalada se intensifica.
No cenário internacional, vários aliados tradicionais se recusam a se alinhar completamente. As tensões com as potências europeias são evidentes, enquanto países como a Coreia do Sul criticaram abertamente as ações de Israel. Enquanto isso, qualquer tentativa de interromper o comércio marítimo iraniano corre o risco de prejudicar as relações com importantes potências asiáticas.
Mas o desenvolvimento mais marcante continua sendo a crise aberta entre Washington e a Santa Sé, um confronto sem precedentes nos últimos anos, que revela a deterioração política da estratégia dos EUA. O ponto de virada ocorreu em janeiro, quando o Núncio Apostólico nos Estados Unidos foi convocado ao Pentágono — um evento excepcional que ilustra o nível de tensão alcançado. As críticas do Papa à noção de “guerra justa” e à retórica da destruição total — incluindo alusões ao uso de armas nucleares — contradizem frontalmente a lógica de escalada da administração Trump.
Esse conflito impacta diretamente a base eleitoral de Trump. Eleito com forte apoio católico — particularmente entre os hispânicos —, ele agora vê esse apoio se erodir. As tensões com o Vaticano estão enfraquecendo um pilar de sua coalizão e alimentando divisões dentro de sua própria administração: o vice-presidente JD Vance, recém-convertido ao catolicismo, expressa reservas, enquanto Marco Rubio precisa conciliar suas convicções religiosas com suas responsabilidades políticas.
A crise vai ainda mais longe. Crescem as preocupações sobre a legitimidade das ordens militares num contexto de escalada extrema, particularmente no que diz respeito ao potencial uso de armas nucleares. Alguns setores das forças armadas e das comunidades religiosas levantam a possibilidade de que as ordens possam ser consideradas moralmente inaceitáveis, ou mesmo recusadas. Tensões internas — e até mesmo sinais de indisciplina — introduzem uma nova incerteza: a coesão das forças armadas já não está garantida.
O custo para a classe trabalhadora e a oposição à beligerância.
À medida que a escalada do conflito continua, seus custos recaem desproporcionalmente sobre a classe trabalhadora, tanto regional quanto globalmente. No Oriente Médio, as consequências são imediatas: milhares de mortos, destruição generalizada e economias devastadas. No Irã e no Líbano, a população paga o preço direto da guerra. Globalmente, o impacto é sentido nos mercados de energia e commodities. As interrupções no Estreito de Ormuz — e as ameaças a Bab el-Mandeb — estão elevando os preços do petróleo e do gás, alimentando a inflação, corroendo o poder de compra e piorando os padrões de vida.
Esse fenômeno está se tornando estrutural. Os conflitos se multiplicam em um contexto de crise da ordem global: uma guerra de desgaste na Ucrânia, a ofensiva israelense em curso em Gaza e o rearmamento acelerado da Europa no Pacífico diante da China. A crise hegemônica do imperialismo estadunidense alimenta essa dinâmica: uma proliferação de conflitos, uma competição acirrada entre potências e uma corrida armamentista generalizada. Desde janeiro, Trump ameaçou ou atacou diversos países, incluindo Venezuela, Cuba, Groenlândia e Irã. Governos ocidentais, que apoiaram o genocídio em Gaza, agora justificam as baixas civis no Irã e as perdas na Ucrânia, enquanto simultaneamente se preparam para um confronto com a Rússia.
O resultado é inequívoco: aumento dos gastos militares, tensões crescentes e o risco de uma guerra generalizada. E é a classe trabalhadora que paga o preço, por meio da inflação, da deterioração das condições de vida e do risco de ser arrastada para conflitos com outros trabalhadores. Daí a necessidade vital de se opor à beligerância: rejeitar uma lógica que força as populações a pagar — material e humanamente — por guerras que são contrárias aos seus interesses.
Luta de classes e resistência à guerra
Se a escalada continuar, seus efeitos se estenderão muito além das esferas militar e diplomática. A guerra já está se alastrando para a esfera social, e tudo indica que surgirão formas de resistência.
O primeiro fator é econômico. O aumento dos preços dos combustíveis já está causando tensões. Na Irlanda, os protestos contra os custos de energia quase paralisaram o país, forçando o governo a mobilizar o exército para proteger certas infraestruturas e a liberar pacotes de ajuda maciços.
Mas este não é um caso isolado. Num contexto de inflação energética, dívida elevada e estagnação económica, é provável que as tensões sociais se tornem generalizadas. A França — com o seu histórico recente de mobilizações ligadas ao custo de vida — parece particularmente vulnerável, enquanto muitos países asiáticos têm uma margem orçamental limitada para conter tais mobilizações.
Nos Estados Unidos, essa dinâmica atinge o cerne da estabilidade política. O aumento do custo de vida, aliado ao cansaço causado por um conflito sem fim à vista, está enfraquecendo a base social de Trump. Sua estratégia contra o Irã pode se voltar contra ele mais rapidamente do que enfraquece seu oponente.
Mas há um nível mais profundo: o da legitimidade. Guerras baseadas em bombardeios massivos, sem objetivos claros ou resultados visíveis, perdem gradualmente sua legitimidade, mesmo dentro das sociedades que as travam. Ao mesmo tempo, a resistência das populações bombardeadas — como já demonstram alguns relatos do Irã — produz o efeito oposto.
À medida que histórias, relatos e depoimentos circulam, uma crescente repulsa moral à guerra pode se intensificar – não apenas no “Sul Global”, mas também no próprio coração das potências que a iniciaram. Com RP