Perez integrou um bloco de 74 nomeações aprovado por 51 votos a 47, majoritariamente com votos republicanos e dois votos de Democratas. A indicação já havia provocado um conflito diplomático depois que Washington tornou seu nome público antes da conclusão das consultas reservadas com o Itamaraty e passou a pressionar pela autorização.
A escalada aumentou quando o governo Trump decidiu revogar o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, acusando o Brasil de demora na escolha, mesmo tendo ficado 2 anos e meio sem indicar o embaixador.
A eventual chegada de Perez a Brasília, porém, ainda depende do agrément do governo brasileiro, que só deve acontecer após eleições, segundo o governo brasileiro.
Perez não é um diplomata de carreira. Republicano da Flórida, advogado e filho de imigrantes cubanos, foi eleito deputado estadual em 2017 e tornou-se presidente da Câmara dos Representantes da Flórida entre 2024 e 2026. É próximo do secretário de Estado Marco Rubio e, durante sua sabatina no Senado, agradeceu publicamente pela “confiança e amizade” do chefe da diplomacia de Trump.
Sua trajetória combina a agenda econômica conservadora do trumpismo com uma política externa agressiva contra governos considerados adversários de Washington: defendeu mudanças de regime em Cuba, apoiou a intervenção norte-americana que derrubou Nicolás Maduro na Venezuela e já apresentou Trump como uma barreira contra uma suposta “agenda socialista”.
Para o Brasil, Perez declarou como prioridades ampliar os interesses comerciais e de investimento dos EUA, combater organizações classificadas como criminosas, disputar a influência de outras potências e pressionar por aquilo que Washington define como condições para “eleições livres e justas” e “liberdade de expressão”. Uma retórica abertamente intervencionista, que alimenta a retórica da extrema-direita de desconfiança do processo eleitoral em base à perseguição contra a família Bolsonaro e os vassalos de Trump no Brasil.
Esse programa coincide com a chamada “Doutrina Donroe”, apelido dado ao “Corolário Trump” à Doutrina Monroe oficializado pela Casa Branca. A Estratégia de Segurança Nacional dos EUA estabelece como objetivo restaurar a “preeminência” norte-americana no Hemisfério Ocidental, impedir que potências externas controlem recursos e ativos estratégicos, ampliar o acesso de Washington a minerais críticos e posições geográficas decisivas e apoiar governos, partidos e movimentos políticos alinhados à estratégia dos Estados Unidos.
Em sua sabatina, Perez reproduziu praticamente o mesmo vocabulário ao destacar as reservas brasileiras de minerais críticos como essenciais para a segurança econômica norte-americana, apresentar a presença de outras potências na América Latina como ameaça e colocar o processo eleitoral brasileiro entre suas preocupações. Sua indicação, portanto, deve ser entendida dentro do contexto de aceleração da tentativa do governo de Donald Trump de retomar o controle da América Latina frente a sua decadência hegemônica, que cada vez expressa mais fragilidades com a sua guerra inglória contra o Irã.
A ofensiva ocorre às vésperas das eleições brasileiras de outubro e depois de uma série de medidas de Trump para pressionar o país. O Brasil já negou vistos a dois funcionários do Departamento de Estado americano que viriam ao Brasil com o mesmo discurso de Perez em defesa da “liberdade de expressão”.
A tentativa de impor Perez mediante chantagem diplomática revela até onde o imperialismo norte-americano está disposto a avançar para defender seus interesses e seus aliados políticos no continente. É necessário repudiar qualquer ingerência de Trump e do imperialismo do Brasil, apostando na força da nossa classe para enfrentar esse ataque e defender que as nossas riquezas estejam a serviço das necessidades da população.
Não será pela diplomacia do Itamaraty e os afagos de Lula com Trump, que em meio a essa crise diz que o presidente americano o trata com respeito, mostrando que não quer se enfrentar e está disposto a negociar com seu governo. Com Esq. Diário