“UFSM, território antifascista” foi a afirmação que reuniu estudantes e integrantes da comunidade acadêmica na manhã desta quarta-feira (7), na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), na região central do Rio Grande do Sul. Convocado pelo Diretório Central dos Estudantes (DCE), junto a centros e diretórios acadêmicos, o ato ocorreu após a identificação de inscrições fascistas em um banheiro do Centro de Ciências Naturais e Exatas (CCNE), na terça-feira (6).
No local, foi encontrado o desenho da chamada runa Odal, acompanhado da frase “Você não está só”. Conforme a nota divulgada pelo DCE, o símbolo foi apropriado pelo nazismo e é utilizado por grupos neonazistas e supremacistas brancos.

Crédito fotos: Nathália Arantes
A mobilização teve início às 11h30, em frente ao CCNE. O ato também contou com uma intervenção artística de Melany Wollmann, estudante de Licenciatura em Teatro, que interpretou “Bella Ciao”, canção associada à resistência antifascista italiana, com um figurino em referência à série “The Handmaid’s Tale”, conhecida no Brasil como “O Conto da Aia”. Após as falas e manifestações no local, os participantes seguiram em caminhada até o Restaurante Universitário (RU).
Segundo Tiago Maia, da coordenação geral do DCE, a entidade tomou conhecimento do caso após receber fotos e vídeos encaminhados por um estudante. A partir da denúncia, o diretório comunicou a Reitoria e cobrou um posicionamento da instituição.

O DCE articulou a mobilização com os diretórios e centros acadêmicos como uma resposta à gravidade do episódio. “A nossa resposta precisa, sim, ser uma resposta coletiva, massificada, para que a gente consiga dizer que não vai tolerar esse tipo de comportamento e esse avanço do neonazismo dentro da universidade”, afirmou Maia.
De acordo com o dirigente estudantil, a universidade informou ao DCE que havia isolado o banheiro e acionado a Polícia Federal. Ele relatou ainda que a instituição e a direção do centro buscavam imagens de câmeras para tentar identificar o responsável.

Para Tiago, o episódio se insere em um contexto mais amplo de avanço do conservadorismo e de tentativas de disseminação de ideias neonazistas entre os jovens. Nesse cenário, ele defende que as entidades estudantis atuem na organização de uma resposta coletiva e na defesa das pessoas que são alvo dessas manifestações.
“Eu acho que é justamente isso: não normalizar. Acho que o que está tendo aqui hoje, esse monte de estudante reunido, é para dar um recado de que a gente não vai normalizar”, destacou. “A gente sabe que esses ataques de ódio são direcionados a um público específico que hoje povoa a universidade.”
Permanência e mobilização estudantil
Vitória Contessa, mestranda no Programa de Pós-Graduação em Geografia (PPGeo) da UFSM, relacionou as manifestações à tentativa de intimidar grupos historicamente excluídos do ensino superior. “O recado é que eles não aceitam a nossa permanência na universidade. Eles não aceitam que as minorias ocupem os espaços”, alertou durante o ato.
A mestranda também destacou a organização dos estudantes como resposta às ameaças. “E eles acharam que a gente não ia se organizar”, finalizou, ao defender que a comunidade universitária se mobilize contra o fascismo, o racismo e o machismo.

Xainã Pitaguary, do Coletivo de Estudantes Indígenas Augusto Ope – UFSM, destacou que a ascensão da extrema direita no país não é recente e convocou os presentes a integrar os espaços de campanha e mobilização. “Nós temos que, mais do que nunca, nos preparar para o segundo turno, que já começou”, frisou.
“O medo tem que mudar de lado! Eles que têm que ter medo de nós, e não a gente que tem que ter medo deles!”, pontuou durante o ato.
Durante a manifestação, Luiz Boneti, estudante de Direito da UFSM, alertou para o risco de intensificação das ações da extrema direita e defendeu a mobilização dos estudantes nas ruas e nas redes sociais.
“As ruas não vão ser só nossas. A extrema direita logo, logo vai querer disputar”, afirmou. Boneti também ressaltou a tarefa de “fazer disputa na rede social, de fazer disputa nas ruas” como parte desse enfrentamento.
Em nota publicada na terça-feira (6), o DCE já havia cobrado uma investigação e repudiado a tentativa de intimidação. “Isso não é uma brincadeira e não pode ser tratado como algo normal. Símbolos nazistas e mensagens de intimidação não têm lugar dentro da nossa universidade”, disse a entidade.
“Não vamos nos intimidar. A UFSM é território antifascista. E aqui, o fascismo vai encontrar resistência”, afirmou o diretório no documento.
Seis ocorrências identificadas
Nesta quarta-feira (7), a identificação de outros cinco registros ampliou para seis o número de ocorrências na universidade. Conforme informações da instituição, quatro foram localizadas no CCNE e duas no Centro de Tecnologia (CT).
A Seção Sindical dos Docentes da UFSM (Sedufsm) também se manifestou nesta quarta-feira, em nota de repúdio às pichações identificadas nos dois centros. A entidade cobrou da gestão a identificação e a punição dos responsáveis, além da implementação imediata de ações educativas sobre a gravidade e a violência histórica do nazismo.
“Expressões de ódio e pichações com símbolos nazistas são inaceitáveis e incompatíveis com os valores democráticos, de direitos humanos e de respeito à diversidade que devem nortear o ambiente universitário”, afirmou a diretoria.
O que diz a UFSM
Em nota divulgada ainda na terça-feira (6), após a denúncia inicial, a UFSM repudiou as pichações com símbolos apropriados pelo nazismo e utilizados por grupos neonazistas, acompanhados de mensagem de caráter intimidatório. O comunicado mencionava inscrições em portas e paredes de banheiros de dois prédios do CCNE.
Segundo o documento, assinado pelo Gabinete da Reitoria e pela direção do centro, a instituição tomou conhecimento dos fatos por meio do DCE e de outros estudantes. Os locais foram isolados pela direção do CCNE, e a universidade registrou boletim de ocorrência e denúncia na plataforma Fala.BR.
A UFSM também informou que instaurou processo administrativo interno para apurar os fatos e responsabilizar eventuais autores. Conforme a instituição, a apuração criminal cabe à Polícia Federal. O caso será acompanhado ainda pela Assessoria de Promoção de Igualdade Racial, vinculada ao Gabinete da Reitoria.
“O uso de símbolos nazistas não é opinião nem brincadeira. Eles remetem a uma ideologia responsável pela perseguição e pelo extermínio de milhões de pessoas”, afirma a nota.
No comunicado, a universidade se solidarizou com as pessoas que se sentiram ameaçadas e informou que a Coordenadoria de Ações Educacionais (CAED) oferecerá acolhimento, escuta e apoio psicológico. O contato pode ser feito pelo e-mail caed.acolhimento@ufsm.br. Informações que possam contribuir com a apuração e relatos de discriminação ou ameaça podem ser encaminhados à Ouvidoria da UFSM ou à plataforma Fala.BR.
A reportagem entrou em contato via e-mail com o Gabinete da Reitoria na tarde desta quarta-feira (7) para solicitar informações sobre os novos registros identificados e as medidas adotadas pela instituição. Até o fechamento desta matéria, não houve retorno.
Com BDF