Nesta quarta-feira, o Departamento de Justiça norte-americano acusou formalmente o ex-presidente cubano Raúl Castro, de 94 anos, como responsável pela morte de membros da organização Irmãos ao Resgate em 1996. Imediatamente voltaram as especulações sobre um eventual ataque militar ianque contra a ilha, levando em conta o antecedente recente na Venezuela, onde o sequestro de Nicolás Maduro esteve baseado em uma acusação judicial por suposto narcotráfico.
Além disso, o Comando Sul do Exército dos EUA anunciou que deslocou um porta-aviões de propulsão nuclear para águas do Caribe. Trata-se do USS Nimitz, que no ano passado participou das operações ianque-israelenses contra o Irã.
O influente jornal estadunidense The Wall Street Journal termina um editorial desta quinta-feira, intitulado “Castro é o próximo Maduro?”, com a frase: “Sabemos que nem o ditador panamenho Manuel Noriega nem o ditador venezuelano Nicolás Maduro se saíram bem após as acusações estadunidenses”.
No entanto, pouco depois de conhecida a acusação contra Castro e a chegada do porta-aviões ao Caribe, o presidente Donald Trump tentou baixar o tom, dizendo à imprensa que “Não haverá escalada. Não acredito que seja necessária” e que em breve haveria “anúncios sobre o bloqueio” petrolífero. É preciso levar em conta que, pelo menos desde fevereiro, há negociações bilaterais diretas no mais alto nível e sob forte hermetismo, razão pela qual só se pode especular sobre os possíveis cenários.
O certo é que há uma pressão imperialista cada vez mais profunda, in extremis, para impor seus interesses sobre a ilha, e que os sinais de uma possível ação militar não deixam de se acumular, ainda que depois sejam matizados com declarações como as que citamos de Trump.
O presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, respondeu às acusações contra Raúl Castro afirmando que “Trata-se de uma ação política, sem nenhum fundamento jurídico, que busca apenas engrossar o expediente que fabricam para justificar o desatino de uma agressão militar a Cuba”. Díaz-Canel já havia mencionado, dias atrás, a “perigosa escalada” que vem sendo promovida por sua contraparte estadunidense.
Em um contexto de profunda crise social provocada pelo bloqueio energético que os EUA aplicam contra a ilha há quase cinco meses, e de novas sanções econômicas emitidas em 1º de maio, Trump já havia se referido a um possível envio de “um grande porta-aviões, o maior do mundo”, que colocaria diante das costas cubanas e diante do qual os cubanos se renderiam automaticamente ao vê-lo.
Há vários elementos que empurram Trump a jogar com as ameaças de uma intervenção armada. Por um lado, ele próprio enfrenta muitos problemas externos e internos. Principalmente, o pântano em que se meteu no Irã e do qual não consegue sair, e o cenário de perder as eleições de novembro. Seu desespero por conseguir uma vitória em Cuba poderia levá-lo a uma nova aventura militar, da qual ninguém tem claro qual pode ser o resultado imediato e as consequências a médio prazo.
Por outro lado, o governo cubano, que desde 2021 vem aplicando ajustes de corte diretamente neoliberal, reformas pró-mercado que só beneficiam os setores acomodados com acesso a divisas, e uma brutal repressão ao protesto social, tem um enorme desprestígio entre a população. Sem dúvida, é o governo mais frágil de toda a era revolucionária, embora possa ser perigoso confundir esse fato com apoio a uma eventual intervenção militar ianque. Também está claro que este é o pior momento econômico do país desde 1959, em muitos sentidos pior inclusive que a crise dos anos 1990.
Esta situação inédita seguramente é pesada pelo magnata norte-americano e por seu sócio cubano-americano Marco Rubio como “o momento” para avançar de forma decisiva sobre Cuba, razão pela qual não deixam de aumentar a pressão.
Um terceiro elemento é que a estratégia de asfixia econômica que a Casa Branca vem aplicando, embora esteja causando danos profundos, parece não ser suficiente para impor seus objetivos: forçar a capitulação da cúpula da burocracia governante ou aprofundar suas divisões internas, como conseguiu na Venezuela. As semanas e os meses passam, a crise se aprofunda em todos os níveis — econômica, social e política —, houve protestos muito amplos, superados apenas pelos de 2021, mas o regime ainda não chegou ao colapso.
As negociações bilaterais, que vêm se desenvolvendo pelo menos desde fevereiro e das quais se teve notícia de três reuniões, a julgar pela crescente escalada retórica de ambas as partes, parecem não estar avançando, ao menos nos ritmos e na profundidade pretendidos por Washington. Denunciamos que a cúpula da burocracia do Partido Comunista quer abrir a economia aos EUA e entregar o que resta das degradadas conquistas sociais em troca de preservar seus próprios interesses econômicos e políticos. Embora se desconheçam as discussões, o ponto de estancamento parece ser a exigência norte-americana de “mudanças políticas” e o controle de setores-chave da economia cubana que estão nas mãos da burocracia, como o império empresarial GAESA. As compensações pelas expropriações dos anos 1960 a cubanos residentes nos EUA são outra das discussões que estariam sobre a mesa.
Todo esse conjunto de fatores alimenta o fantasma de um ataque militar ao estilo daquele levado adiante pelos EUA na Venezuela em 3 de janeiro, ainda que as ameaças recorrentes se limitem a ser parte da pressão in extremis baseada no bloqueio petrolífero e na asfixia econômica.
Devemos redobrar todos os esforços para colocar de pé fortes e massivas campanhas anti-imperialistas em toda a América Latina e nos próprios EUA, independentes da burocracia governante e que impulsionem a auto-organização e a mobilização da classe trabalhadora cubana. Campanhas que partam do repúdio a qualquer tipo de agressão imperialista, especialmente se for militar, e da exigência do levantamento imediato do bloqueio energético. Lula, no Brasil, Sheinbaum, no México, e Petro, na Colômbia, que se dizem “progressistas” e “amigos de Cuba”, devem enviar combustível imediatamente, romper sua vergonhosa subordinação a Trump e repudiar suas constantes ameaças. Com Esq Diário