Antes de mais nada, é preciso denunciar a quase completa ausência de cobertura midiática para esse “conflito”. Justamente, em primeiro lugar, por que assim como em Gaza não ocorre uma guerra, não é um “conflito” o que se passa do leste da RDC, mas um genocio brutal e criminoso, que só esse ano provocou o deslocamento em massa de um milhão de refugiados. Ainda que seja apresentado como um conflito etnico histórico entre duas etnias, Hutu e Tutsi, a brutalidade desse enfrentamento só se explica pelos interesses cinicos das grandes potências, com os EUA e a China à frente, que votam resoluções da Onu e dos salões diplomáticos denunciam os crimes de guerra e contra a humanidade de ambas as partes, quando são essas potências que financiam cada bomba e cada bala lançada, com o objetivo de se apoderar do coltan de Rubaya (15% da produção mundial) e outros minerais estratégicos no leste da RDC, nas regiões de Kivu do Norte e do Sul e do cobalto na região de Katanga, com mais da metade da reserva mundial, extraído principalmente no sul.
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Isso explica o silêncio geral e o fracasso sucessivo das negociações de paz ao longo dos anos. As regiões do leste controlada pelas rebeldes do M23 (reconhecidamente sustentados pelo governo de Ruanda), alimentam tanto os celulares da Apple, quanto os chips dos drones que Israel lança contra os palestinos, enquanto o governo da RDC garante o fluxo constante de riquezas minerais, em especial o cobalto, para a China e para a Glencore, multinacional suíça relacionada com abastecimento na máquina de guerra genocida do sionismo. Nesse contexto, a grande “força de paz” da ONU, que contou com 17 mil soldados em grande parte do tempo, de 2018 até hoje comandados por generais brasileiros, escapam das denuncias de cometerem atrocidades, como os estupro sistematicos de mulheres e crianças, em uma região assolada por décadas de guerras e massacres. Na medida em que fim do “conflito” não interessa a nenhuma das potências estrangeiras enquanto segue o fluxo de minerais banhados em sangue, o massacre continua.
O acordo de Washington e o cessar-fogo não garantem a paz
Analisar o acordo promovido por Trump, que contou, como dissemos com duas etapas diferentes, é também uma caminhada para entender além da superficialidade as causas no novo genocidio congoles.
A primeira etapa de negociações entre RDC e Ruanda, nos EUA, tratou principalmente de um acordo de integração econômica e de alguns compromissos de segurança que a RDC foi obrigada aceitar. Esse acordo girou em torno de 3 pontos: 1. A retirada das tropas ruandesas do leste da RDC num prazo de 90 dias. 2. O fim do apoio do governo congolês à milícia FDLR. 3. O estabelecimento de um “Quadro de Integração Econômica Regional” para aprofundar os laços econômicos entre os dois países, com o envolvimento dos EUA.
Apesar do Financial Times e da imprensa e analistas da Otan cinicamente apresentarem o acordo como um compromisso efetivo de Ruanda em encerrar o apoio ao M23, a verdade pode estar no contrário. Com o “Acordo de Washington”, Trump legitimou o papel de Ruanda como mediador regional, num momento em que as críticas à atuação de Paul Kagame se multiplicam, não apenas pela ingerência militar no leste da RDC, o que implicou em alguma sanções, mas também pela expansão da presença ruandesa em outros contextos africanos, como em Moçambique, onde a intervenção em Cabo Delgado tem sido questionada. Além disso através de acordo de cooperação econômica garante uma via pra legalizar o comércio ilgeal que de minerais da RDC que abastecem as refinarias de Ruanda e Uganda e buscando garantias estabilidade no funcionamento do estratégico corredor de Lobito, que leva as riquezas da região para o porto de mesmo nome no litoral de Angola.
Para os EUA e a Otan esse acordo tem uma importância estratégica e é uma aposta para tentar recuperar um pouco do terreno perdido para a China na exploração das riquezas naturais africanas. Os acordos firmados em junho nos EUA não envolveram o M23, que seguiu no controle das minas de Sivu e do leste da RDC. Somente em julho seria assinado, entre RDC e M23 um frágil cessar fogo, em torno dos seguintes pontos:
- O estabelecimento de um cessar-fogo permanente. 2. A cessação dos ataques mútuos e do discurso de ódio. 2. A criação de um cronograma para restaurar a autoridade do Estado nas áreas controladas pelo M23. 3. O início de negociações de paz formais até 18 de agosto de 2025 (um prazo que, no entanto, não foi cumprido). 4. A facilitação do regresso seguro e digno dos deslocados internos e refugiados
Os protocolos de outubro e a continuidade dos enfrentamos
Em 14 de outubro de 2025, René Abandi, o negociador-chefe do M23, e Sumbu Sita, o representante do presidente congolês Félix Tshisekedi, assinaram um acordo para estabelecer um mecanismo formal de verificação do cumprimento do cessar-fogo de julho. Estiveram presentes delegações do Catar, Estados Unidos, União Africana e o ex-ministro das Relações Exteriores do Mali, Zahabi Ould Sidi Mohamed.
A principal cláusula acordada foi a concordância de ambas as partes em utilizar o Mecanismo de Verificação Conjunta Expandido da Conferência Internacional sobre a Região dos Grandes Lagos (ICGLR) como o órgão oficial responsável por monitorar e investigar quaisquer alegações de violações do cessar-fogo. O ICGLR é integrado por países africanos (Angola, Burundi, República Centro-Africana, República do Congo, República Democrática do Congo, Quénia, Uganda, Ruanda, Sudão, Sudão do Sul, Tanzânia, Zâmbia). Sob o manto de legitimidade do discurso – cínico – de “soluções africanas para problemas africanos”, o ICGLR é uma fachada, através da qual se projetam os interesses das grandes potências estrangeiras, que em última instância alimentam um genocidio que atravessa décadas.
A fragilidade do cessar-fogo salta à vista. Em primeiro lugar, como informa o site Alma Preta, “mesmo durante as negociações, novos combates entre as Forças Armadas da República Democrática do Congo (FARDC) e o grupo armado M23 foram registrados na cidade de Mulamba. Testemunhas denunciaram à Agence France-Presse (AFP) que os conflitos utilizaram armamento pesado e bombas, com disparos atingindo diversas regiões.”
As próximas semanas serão decisivas para sabermos se ao menos haverá uma paz duradoura, mesmo que precária, ou se as hostilidades voltarão a se intensificar. Independente do resultado imediato, a entrada dos EUA com força nas negociações, dando sustentação indireta aos interesses de Paul Kagame, presidente de Ruanda, com o objetivo de aproveitar as posições do M23 no leste da RDC para fazer frente ao domínio chines da região, agrava todas as contradições e será fonte de novos massacres.
O genocidio na RDC, em que todas as grandes potencias estão envolvidas, evidência que somente a aliança dos povos africanos com a classe trabalhadora internacional que entrou em cena em defesa do povo palestino, numa luta anticolonial e antiimperialista independente de todas as potencias e governos burgueses, pode parar o genocidio sistematico e histórico que dizimou e dizima sistematicamente as nações da África Central e abrir caminho para que o próprio povo trabalhador congolês determine e tome em suas mãos o seu futuro.
Com Esq Diário