No carro de som, o locutor pede que os foliões aplaudam as trabalhadoras do sexo: “É uma vida difícil e elas merecem respeito”. A música começa e os versos são direcionados às mulheres da Vila Mimosa: “esse samba é de vocês”.
Apesar de homenagens e palavras de apoio, a maior parte das trabalhadoras não se junta ao bloco de carnaval. Prefere dançar e observar a festa a partir das calçadas e do interior dos bares. É o caso de Estrela, de 58 anos.
“Eu vou dançar aqui de longe, porque não quero chamar muito a atenção”, diz.
Este é um dos desafios do “Bloco Zona do Mangue e Vila Mimosa”, que desfilou na noite chuvosa da última sexta-feira (6) pelas ruas da Praça da Bandeira, no Rio de Janeiro. Moradores da região criaram a festa em 2018 para celebrar a memória e potência cultural do lugar, historicamente estigmatizado por reunir pontos de prostituição.
A integração com as trabalhadoras do sexo, no entanto, nem sempre ocorre da maneira desejada, explica Cleide Almeida, presidente do bloco e assistente social.
Um dos líderes da banda “Enxota que eu vou”, que há três anos toca no bloco, Felipe Vasconcellos entende que barreiras socioeconômicas são um dos motivos que impedem maior participação e protagonismo das trabalhadoras na festa.
Carnaval e comunidade
Laísa, de 21 anos, trabalha há cinco anos na Vila Mimosa. Mesmo sem desfilar, vê o bloco como algo positivo para todos.
“Aqui é um local de trabalho bom e o bloco é uma alegria. Muitas pessoas acabam tendo que trabalhar na hora, mas o desfile ajuda a valorizar a região e a gente. A realidade hoje em dia é de muito preconceito, mas o bloco é muito bom para alertar sobre isso”, diz Laísa.
A presidente do bloco garante que o principal objetivo dos desfiles é mudar a visão negativa do lugar.
A vida de Estrela, que preferiu aproveitar o bloco a distância, ajuda a derrubar alguns desses tabus.
“Eu sou técnica de enfermagem e venho em busca de um extra. Comecei aqui por causa de dívida alta. Caí em um golpe e perdi mais de R$ 100 mil. Consegui pagar tudo, mas continuei porque ganho muito dinheiro aqui. Não devo nada para a sociedade, tenho dois filhos criados. Estou aqui para manter o que tenho e adquirir mais”, explica.
A administradora Daniela Tarta veio ao bloco pela primeira vez, justamente com a ideia de conhecer melhor a região e quebrar preconceitos.
Transformações
A Vila Mimosa é herdeira de uma história que vem da antiga Zona do Mangue, no fim do século XIX e início do século XX. O principal local de prostituição da cidade ficava no entorno do Canal do Mangue e da atual Avenida Presidente Vargas, região central da cidade.
Intervenções urbanas e políticas de “ordenamento” do centro empurraram bares e casas noturnas para outro lugares ao longo do século XX. A Praça da Bandeira, com galpões e terrenos industriais, começou a receber as trabalhadoras. A consolidação da Vila Mimosa como lugar de trabalho sexual ocorreu em meados da década de 1990.
Hoje, a luta de movimentos sociais, associação de moradores e trabalhadoras do sexo é para que a chamada VM receba mais atenção do poder público com promoção de serviços, direitos e melhorias na estrutura urbana. Ou seja, ações que deem conta da complexidade social e histórica da região.
Com EBC
Edição:
Graça Adjuto