Às vésperas da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025 (COP30), a cidade de Belém está a todo vapor com uma série de obras públicas para receber cerca de 40 mil visitantes em novembro. O governo federal já investiu R$4,8 bilhões nos preparativos do evento, mas quase nada deste valor busca solução para 80% da população paraense sem saneamento básico.
Além do problema de saneamento, que existe para apenas de 20% do Estado, cerca de 604 mil casas na região da Grande Belém estão em situação de “moradia inadequada”, ou seja, não possuem condições mínimas como dormitórios para os moradores e estão em irregularidade fundiária de acordo com a Fundação João Pinheiro.
Enquanto 1,1 milhão de paraenses vivem em condições precárias, o governo de Helder Barbalho (MDB) entregou 3 armazéns portuários e um antigo prédio da Receita Federal para gigantes do setor de hospedagem de luxo. O governo também privatizou a Companhia de Saneamento do Pará em abril deste ano, fazendo um forte ataque à frágil estrutura de saneamento do Estado, que já sofre com uma das contas de água mais altas do país.
A relação entre altos investimentos em hotelaria e logística na cidade em contraste aos dados absurdos da situação habitacional de Belém expressam que por trás da demagogia dos organismos internacionais em relação a crise climática, não há sequer uma preocupação com a população pobre. No último ano, dezenas de famílias foram desapropriadas para as obras da COP30, que vão de canalizações de rios até revitalizações de alguns bairros para fortalecer os investimentos imobiliários.
Para compor a estrutura de hospedagens de Belém, os investimentos públicos estão concentrados em revitalizar bairros já desenvolvidos e investir em projetos que não terão função social depois de novembro, como reformar 17 escolas para fornecer 5 mil leitos (com mobiliários que serão redistribuídos entre as secretarias do Estado) e a atracagem de 2 navios de luxo no porto de Belém, que fornecerão cerca de 6,5 mil leitos, demonstrando uma contradição evidente, já que navios de cruzeiro são responsáveis por 3% das emissões globais de gases de efeito estufa.
Toda a operação de preparo para a COP30 tem se baseado em descaso com a classe trabalhadora, seja pela falta de um programa de conversão dos investimentos da Conferência em programas habitacionais ou pelas denúncias de más condições de trabalho e salários dos trabalhadores da construção civil belenense, que fizeram uma forte greve em setembro.
Enquanto o governo Lula usa a Conferência para fortalecer um discurso de preocupação com o meio ambiente e soberania da Amazônia, a construção do evento se dá com a brutal exploração de trabalhadores e ataques aos povos ribeirinhos, quilombolas e indígenas do Pará.
A saída para a crise climática só pode se dar pela ação da classe trabalhadora em aliança com as comunidades tradicionais e os setores oprimidos com independência dos governos e acordos internacionais que servem apenas para responsabilizar os países semi-coloniais pelas devastações causadas pela exploração capitalista.
Com Esq Diário