No domingo, dezenas de milhares de pessoas tomaram as ruas de Manila e outras cidades filipinas em uma das maiores manifestações dos últimos anos. O gatilho: um escândalo de corrupção em massa em projetos de infraestrutura destinados a mitigar inundações, revelado após uma série de desastres naturais que deixaram comunidades inteiras devastadas e que poderiam ter sido previstos.
Só em Manila, cerca de 50 mil pessoas responderam ao apelo de grupos universitários e ativistas para sair às ruas para protestar. A repressão policial não demorou a chegar e mais de 200 manifestantes foram detidos.
As Filipinas são um dos países mais vulneráveis do mundo a desastres naturais. Todos os anos, enfrentam mais de 20 tufões, inundações e chuvas torrenciais que afetam especialmente as comunidades mais pobres. Perante esta situação, o Estado anunciou milhares de milhões de dólares em projetos de controlo de inundações.
No entanto, uma investigação recente — apoiada por dados oficiais e organizações civis — revelou que grande parte desse dinheiro foi desviado, malversado ou atribuído a “projetos fantasmas”. Muitas obras nem sequer existem; outras foram construídas com materiais de péssima qualidade ou adjudicadas sem licitação transparente.
As fortes chuvas que ocorreram em setembro provocaram inundações severas em regiões que supostamente estavam protegidas por essas obras. O desastre, desta vez, não foi apenas natural.
A reação dos cidadãos foi imediata. Estudantes, trabalhadores, artistas e grupos indígenas saíram às ruas. Os protestos foram massivos, em alguns setores de Manila a polícia reprimiu, a resposta foi com barricadas incendiadas e dezenas de prisões.
A diversidade dos manifestantes reflete uma indignação transversal. Não se trata mais apenas de uma crítica ao mau uso dos recursos, mas de uma reivindicação mais profunda: a impunidade estrutural e os privilégios para poucos, enquanto a maioria sofre as consequências.
O presidente Ferdinand Marcos Jr., filho do ditador que governou o país com mão de ferro durante duas décadas, está no centro da tempestade.
Alguns dos acusados de corrupção estão diretamente ligados ao seu círculo político, incluindo funcionários do Departamento de Obras Públicas e o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Martin Romualdez, seu primo. A proximidade dos envolvidos com o poder acendeu ainda mais a indignação popular.
Os protestos atuais são a expressão visível de uma crise mais profunda. A percepção de que o sistema protege os poderosos e pune os fracos está profundamente enraizada.
Os protestos ecoam a indignação pela suposta corrupção governamental e pela desigualdade em outras partes da Ásia, incluindo o Nepal, onde um movimento de protesto liderado pela geração Z derrubou o governo do Nepal este mês, e a Indonésia, onde recentemente eclodiram protestos contra os privilégios concedidos aos legisladores.
As marchas nas Filipinas não são apenas contra a corrupção: são um grito coletivo de revolta contra décadas de impunidade, desigualdade e promessas não cumpridas. São também um lembrete de que os desastres naturais, em contextos de governos que favorecem empresários e setores das elites locais, se transformam em catástrofes sociais.limpeza profunda.
Com informações da Esquerda Diário