As Forças de Apoio Rápido (RSF), lideradas por “Hemedti”, anunciaram que estão prestes a lançar um ataque contra El Obeid, a principal cidade de Kordofan do Norte, depois de terem tomado o controle de El Fasher, na região de Darfur, onde foram registradas massacres, deslocamentos forçados e violações sistemáticas.
Por enquanto, El Obeid segue sob domínio do Exército regular (SAF) que responde ao governo sudanês, mas a tensão aumenta e ambos os lados se preparam para um novo confronto. Paralelamente, a situação humanitária se agrava a cada dia. Segundo a Classificação Integrada de Fases de Segurança Alimentar, já foi declarada fome em El Fasher e Kadugli, e foi alertado que outras vinte áreas de Darfur e Kordofan estão à beira de um desastre total. O exército paramilitar utiliza a fome como método de tortura e extermínio da população civil há anos.
Mais de seis milhões de pessoas sofrem com fome extrema, e cerca de 375 mil sobrevivem em condições de fome absoluta. A ONU alerta que, se não houver um cessar-fogo e a entrada de ajuda humanitária, milhares de pessoas podem morrer nas próximas semanas. Com o avanço das forças de Hemedti, a situação se torna ainda mais grave devido ao confronto com o Exército regular. Porém, este último não representa uma solução para o povo sudanês, já que também foi acusado de crimes contra a humanidade, incluindo o uso de armas químicas, e defende os interesses de classes dominantes estrangeiras que disputam o controle das riquezas do Sudão.
A brutalidade de uma guerra pelos recursos naturais
As imagens e relatos vindos de El Fasher mostram uma brutalidade comparável ao que se vê há anos na Palestina: ruas cobertas de corpos, hospitais e equipes médicas sendo bombardeados e famílias presas em meio a um cerco brutal. “Não importa para onde se olhe, há corpos espalhados por toda parte”, relatou Fatima Yahya, uma mulher que conseguiu fugir para Tawila.
A Organização Mundial da Saúde confirmou que pelo menos 460 pacientes foram assassinados quando as RSF atacaram o Hospital de Maternidade Saudita. Já Médicos Sem Fronteiras alertou que quase todas as crianças menores de cinco anos apresentam sinais de desnutrição severa.
Embora a ONU estime que desde 26 de outubro mais de 70 mil pessoas tenham sido obrigadas a deixar suas casas, organizações humanitárias afirmam que o número real é muito maior. Um documento da Universidade de Yale resume: “A maioria dos civis está morta, capturada ou escondida.”
A Corte Penal Internacional está investigando possíveis crimes de guerra e crimes contra a humanidade, incluindo estupros, sequestros e ataques diretos à população civil, principalmente a mulheres e meninas. Vídeos de extrema violência circularam nas redes, exibindo vítimas desses grupos armados.
A guerra pelo ouro e pelo petróleo
Os Emirados Árabes Unidos, principais compradores do ouro saqueado pelas RSF, financiam economicamente essas milícias. Durante a última década (2013–2023), as RSF controlaram grande parte da mineração no Sudão e enviaram ouro de contrabando diretamente para Dubai, sem qualquer impedimento.
As potências regionais disputam o controle do Sudão para apropriar-se de suas terras e recursos naturais, ao mesmo tempo em que punem a população que participou de grandes levantamentos populares em 2018 e que fez parte da Primavera Árabe de 2011, derrubando governos e demonstrando sua força política. O ódio e a violência praticados pelas milícias incentivadas pelos Emirados Árabes carregam essa memória histórica de resistência do povo sudanês.
- Durante a tradução da nota, as RSF realizaram um novo massacre em El Obeid, realizando um ataque com drones a um funeral e matando 40 pessoas. Siga acompanhando no Esquerda Diário e divulgando para denunciar as atrocidades contra o povo sudanês.
Texto original publicado no La Izquierda Diario, parte da Rede Internacional Esquerda Diário, traduzido do espanhol por Noah Brandsch.
Com Esq Diário