Na última semana, ocorreram eleições em Camarões. O processo foi marcado, por um lado, pela tentativa de reeleição por mais 8 anos de Paul Biya, de 92 anos e há 43 anos no poder, sendo o chefe de Estado mais velho do mundo, e por outro, pela candidatura de oposição do ex-ministro Issa Tchiroma Bakary. Ambos anunciaram vencer as eleições.
Camarões na cadeia imperialista
Camarões é uma antiga colônia alemã, britânica e francesa. Após a Primeira Guerra, as posses coloniais alemãs na região foram divididas entre a França e o Reino Unido. No chamado “Ano da África”, 1960, o Camarões francês se tornou independente, e em 1° de outubro de 1961, a parte britânica se independizou e o país foi unificado. Apesar da independência, fruto das mobilizações anti-coloniais que marcaram aquelas décadas, o país seguiu sendo vítima do neocolonialismo europeu e estadunidense ao não romper de fato com as multinacionais imperialistas e os vínculos de endividamento externo, algo sintomático de diversos países africanos que se tornaram independentes no período. O partido que liderou a independência, Reunião Democrática do Povo de Camarões (RDPC), antes União Nacional dos Camarões (UNC), é hoje o partido de Paul Biya, até hoje no poder. À época, responsável por pactuar com o neocolonialismo a manutenção da submissão aos interesses externos, hoje o país segue sua submissão aos antigos interesses de suas ex-metrópoles. Exemplo disso é a dívida pública camaronesa, de de 42% do orçamento nacional, e pelo chocante dado de ¼ da população viver abaixo da linha da pobreza.
Enquanto isso, o presidente passa boa parte de seus dias em viagens de luxo para países como a Suiça, enquanto as riquezas naturais como o petróleo (quase 50% das exportações do país), o cacau (5° maior exportador do mundo, com diversas denúncias de exploração do trabalho infantil), e o ouro (14% das exportações) são sugadas por empresas multinacionais. Isso, não apenas em seu último mandato, mas nos últimos 43 anos! Para manter sua dominação, o regime camaronês precisou se apoiar em um Estado autoritário e repressivo, perseguindo a oposição política e a contestação civil e dos trabalhadores, e claro, se apossando do aparato eleitoral para se perpetuar no poder, alegando falsamente a existência de “eleições”.
A colaboração com o genocídio na Palestina
Como se não bastasse, hoje também Camarões é, segundo o embaixador israelense no país, “o melhor amigo de Israel na África”. Isso devido à cooperação iniciada primeiramente pelo ex-presidente Ahmadu Ahidjo, logo após a independência do país. Em 1973, a relação entre ambos foi rompida (assim como a de diversos países africanos com a entidade sionista), mas Camarões, já sob o comando de Biya, foi um dos primeiros a retomar essas relações, em 1987. São inúmeras as cooperações econômicas, acadêmicas, diplomáticas e militares entre ambos os países. As Forças Armadas genocidas de Israel foram e são responsáveis pelo treinamento e boa parte do armamento (como veículos blindados) para as Forças de Ação Rápida de Camarões (BIR). Diversos envios de estudantes, acadêmicos e desenvolvimentos tecnológicos foram trocados entre ambos os países nos últimos anos, como um Centro de Alta Tecnologia de Israel inaugurado em 2016 no Instituto Politécnico Nacional de Yaoundé, entre outros.
Como se não bastasse, no sentido contrário do que boa parte dos Estados vêm fazendo por conta da pressão do movimento internacional e solidariedade à Palestina, Camarões, ao lado da Eritréia, é o único país africano a não reconhecer o Estado da Palestina. No último período, Israel, fruto de seu isolamento internacional, vêm procurado novos países para importar matéria prima para manter o genocídio e a colonização na Palestina, e Camarões é um dos mais cotados para a importação de petróleo. Ou seja, o regime reacionário do RDPC não apenas coloca seu próprio povo na miséria para entregar as riquezas ao imperialismo, mas diretamente colabora para o maior genocídio televisionado da história!
Uma importante crise no regime
No último dia 12, dia nacional das eleições, protestos da juventude (que por sinal é gigantesca, visto que 36% da população tem menos de 18 anos) eclodiram no país após o anúncio de Biya que se manteria no poder por mais 8 anos. Isso após, em 2008, o mesmo aprovar um decreto que extingue qualquer limite para a reeleição.
A eleição está sendo acompanhada por órgãos internacionais e o Conselho Constitucional do país irá anunciar o resultado oficial até o dia 26 de outubro.
Apesar do crescimento da oposição civil ao regime, o candidato Issa Tchiroma Bakary, opositor de Biya, foi parte do mesmo regime desde 1980 ocupando diversos ministérios. Hoje, ele pede às mesmas Forças Armadas treinadas por Israel e sustentáculas do regime na base da repressão (como nas repressão militar no Camarões anglófono desde 2016) para que “se mantenham do lado da República”. De qualquer forma, o acirramento entre ambos expressa uma importante crise no regime que se mantém há décadas, e pode cada vez mais ser contestado “por baixo”.
A onda de repulsa das massas ao colonialismo francês nas ex-colônias francófonas, especialmente no Sahel, que tem se convertido de forma contraditória em golpes militares bonapartistas, pode se espalhar para o conjunto das ex-colônias, colocando em xeque as posições do imperialismo francês. As recentes e atuais mobilizações da Geração Z em Marrocos e Madagascar (ambas também ex-colônias francesas), mas também Quênia e Angola, podem se alastrar para demais países africanos, e colocar a possibilidade da classe trabalhadora intervir como sujeito independente, distinguindo-se das distintas frações das burguesias nacionais submissas ao imperialismo, e colocar abaixo todo o legado colonial que vigora até hoje em regimes como o de Paul Biya.
Com Esq Diário