Texto escrito por Muno Munizaga e traduzido do espanhol, publicado originalmente no portal La Izquierda Diário – Argentina, parte da Rede Internacional Esquerda Diário.
A partir da ótima troca que está se desenvolvendo, envio algumas ideias – acrescento uma visão local do Chile – que me fizeram refletir e que espero que sirvam para a troca de experiências.
Em Antofagasta, a composição da imigração mudou radicalmente: passou de estar concentrada principalmente em população peruana e boliviana para uma situação em que é crescente venezuelana e, em grande medida, colombiana. Ontem conversei com colegas de trabalho venezuelanos e surge aí uma tensão muito forte. A alegria pela saída de Nicolás Maduro colide diretamente com a coletiva de imprensa de Donald Trump, que foi completamente sem filtro.
Essa combinação empurra a uma contradição política e subjetiva: anos em que “rezavam” pela queda do “ditador”. Alguns me diziam que o desejo foi tão grande que a alegria acabou se impondo sobre qualquer reflexão, mesmo sem importar o que Trump disse; outros, por outro lado, entram em conflito com a racionalidade do que se abre com os Estados Unidos e o papel do petróleo nesse cenário.
Algo semelhante se viu na cidade: apesar dos milhares de venezuelanos que vivem em Antofagasta, as celebrações foram de apenas algumas centenas. No caso do “chileno”, surge uma dupla contradição: por um lado, a consciência de que os Estados Unidos sempre vêm para “nos ferrar”; por outro, em alguns, combina-se com a ideia de que “mesmo assim a criminalidade vai diminuir porque vão voltar”.
Tento expressar tudo isso como uma consciência ligada aos sentidos comuns e às confusões, porque hoje faz mais sentido para mim levantar instituições de vanguarda que persistam no tempo, que possam se articular mesmo em momentos em que não há luta aberta e que atravessem diferentes estruturas.
No hospital da cidade, onde organizamos um grupo, uma parte importante dos médicos é venezuelana (no Chile, um médico ganha no mínimo cerca de 3 mil dólares). Lá, em setores de classe média, surge com mais força uma posição “contra Maduro e contra o imperialismo”. Ao mesmo tempo, em outras categorias do hospital, há um terreno onde levantamos a campanha de solidariedade com a Palestina, com maior sensibilidade democrática, incluindo setores que vieram da antiga base da Frente Ampla, e queremos levar essa campanha para essa estrutura; essa sensibilidade se repete mais na juventude universitária e do ensino médio onde estamos retornando.
Em docentes, onde temos referências sindicais, pesa mais a perspectiva do próximo governo de Kast e a incerteza sobre como se preparar frente a futuros ataques. Na mineração, onde conseguimos levantar uma agrupação, o espaço está muito mais cercado pelos sentidos comuns confusos antes descritos. Digo tudo isso porque, embora a construção não seja simultânea nem se produza por “fotossíntese”, ter clareza sobre a necessidade de criar esse tipo de instituições acredito que nos coloca melhor para o trabalho concreto. Penso que, se não conseguirmos (nos lugares onde estamos concentrando forças) criar instituições amplas onde dialoguem os setores mais avançados com outros, que ofereçam ferramentas, que visem elevar a consciência e construir círculos de influência em torno de uma perspectiva anti-imperialista, articulando a organização frente ao próximo governo de Kast (aliado do imperialismo) e frente ao problema da imigração, então como levantamos o proletariado minerador e portuário, unidos aos pobres e imigrantes da região, com a ambição de fazer parte de um corpo do proletariado latino-americano, capaz de acabar com o saque, a exploração e avançar na libertação de nossos territórios?
Concordo muito e acredito que é fundamental recriar a consciência anti-imperialista dos trabalhadores, partindo de bastiões concretos e assumindo o trabalho cruzado e unindo setores conscientes da estrutura como organizadores de outros, como um eixo principal, como parte preparatória para ver como construir Comitês de Ação. Trata-se de intervir de lugares onde a consciência anti-imperialista está mais presente para aqueles onde aparece mais fraca, que muitas vezes coincidem com os espaços onde queremos nos concentrar ou que ocupam posições estratégicas.
Isso também se projeta em outro nível na ideia de que a América Latina não pode ser pensada separada por países. A sinergia que podemos construir entre grupos, posições e apostas de bastiões é chave: desde a consciência “bruta” do minerador até a experiência da Comissão Negra e a tradição do Sintusp; desde o trabalho de abertura no Alto e a experiência de Senkata. Desde Madygraf, o Garrahan e as posições docentes e a tribuna parlamentar do PTS.
Todas essas experiências podem funcionar como alavancas para erguer verdadeiros bastiões como posições latino-americanas, capazes de contribuir para a elevação do proletariado do continente que Emilio Albamonte descreve e como conseguir que sejam posições com mais poder destrutivo, que incomodem a burguesia.
Isso se nosso norte for levantar o proletariado e com uma intelectualidade que dirija milhões de pobres contra o imperialismo.
Com Esq Diário