Como já havia sido anunciado durante a campanha eleitoral, a equipe econômica de Paz, liderada por José Luis Lupo (ex-ministro neoliberal e candidato à vice-presidência de Samuel Doria Medina) e José Gabriel Espinoza (diretor do Banco Central nomeado pelo governo golpista de Jeanine Áñez e integrante da equipe econômica de Doria Medina), está dando os primeiros passos para o aprofundamento das relações diplomáticas e econômicas com os EUA. Relações que, como vemos na Argentina de Milei, antecipam a subordinação do país aos interesses geopolíticos e econômicos do imperialismo estadunidense.
Ilan Goldfajn, presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento, referiu-se à possível colaboração com o novo governo da Bolívia com “um plano de acompanhamento em três etapas: transição de curto prazo, estabilização com proteção social e reformas para o crescimento sustentado”, assim como a coordenação com outras instituições financeiras. No mesmo tom se expressaram os representantes do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial.
Embora, segundo informações fornecidas pelos porta-vozes do governo eleito, os organismos financeiros visitados e o governo norte-americano estariam muito interessados em colaborar e financiar os planos de Paz — chegando este último a declarar que a crise de combustíveis e dólares já estaria resolvida —, não se aprofundaram muito. Não entraram em detalhes sobre os montantes negociados nem sobre as condições dessa “ajuda”, tampouco se referiram à possível volta da DEA e demais agências imperialistas ao país, o que dias antes havia sido antecipado por diversos representantes do bloco direitista.
Entre as mais de 45 delegações internacionais convidadas para a posse, no sábado, 8 de novembro, estarão presentes Gabriel Boric do Chile, o subsecretário de Estado dos EUA, Christopher Landau, junto com vários funcionários norte-americanos, assim como o presidente da Argentina, Javier Milei, que acaba de entregar seu país ao controle financeiro do tesouro norte-americano. Também foram convidados ao evento representantes da direita venezuelana como Corina Machado, que acaba de receber o Prêmio Nobel da Paz por ter incentivado a intervenção imperialista em seu país, e Edmundo Gonzales, ex-candidato à presidência pela direita venezuelana. Por sua vez, Nayib Bukele, presidente de El Salvador, afirmou que não poderá estar presente na posse, embora tenha se comprometido a visitar o país ainda neste mês.
Depois de mais de uma década e meia em que as relações diplomáticas entre Bolívia e EUA permaneceram interrompidas devido à ingerência norte-americana na crise de 2008, quando o embaixador Goldberg foi expulso do país, hoje, com o retorno direitista à administração direta do Estado — liderado pela chapa do PDC, seguida pela Alianza Libre de Tuto Quiroga e pela Alianza Unidad do empresário do setor de cimento, Doria Medina — o retorno da Bolívia à órbita do imperialismo norte-americano parece inevitável.
EUA: uma potência em decadência
As aproximações de Rodrigo Paz com os EUA não ocorrem em um momento qualquer, mas justamente quando Trump intensifica a pressão imperialista sobre todo o continente e antecipa uma ofensiva política e militar contra a Venezuela, com assassinatos e execuções sumárias supostamente de narcotraficantes. Rodrigo Paz, não só retoma relações com os EUA, como também pretende fazê-lo com o Estado genocida de Israel, repudiado pela ampla maioria dos estados membros da ONU e sustentado apenas por EUA e Argentina.
A agressividade que Trump demonstrou nos últimos meses, onde a Venezuela é sua linha de frente no continente, é expressão de um esforço reacionário para tentar recuperar terreno em sua disputa com a China como potência emergente.
Lembremos que os EUA recuaram profundamente no controle do que consideravam seu quintal e agora buscam recuperar influência com base em uma política agressiva, apoiando-se no controle que ainda possuem do sistema financeiro mundial e do dólar, bem como em frações das classes dominantes latino-americanas que ainda esperam lucrar com sua colaboração e entrega dos bens comuns naturais do continente. Na Bolívia, o profundo retrocesso estadunidense se expressa, por exemplo, no fato de que as exportações bolivianas têm como destino a CAN, os BRICS e particularmente a China, enquanto os EUA ocupam o oitavo lugar.
A importância da China nos investimentos e como destino das exportações empurra as classes dominantes a tentar restabelecer relações com os EUA, mas buscando evitar que as relações e acordos comerciais com os BRICS — especialmente com a China — sejam prejudicadas. No entanto, essa posição de setores das classes dominantes latino-americanas colide com os objetivos estratégicos do imperialismo, que é afastar a China da América Latina e se preparar com isso para uma disputa global por hegemonia. Nesse sentido, Trump e toda a direita incentivam a polarização, empurrando os setores mais pragmáticos e dispostos ao diálogo a ter que escolher um lado nessa disputa geopolítica.
A pressão imperialista, que tem sua máxima expressão na agressão à Venezuela, não se limita a esse país, já que inclusive foram feitas ameaças perigosas contra Petro e a Colômbia, assim como é evidente que o massacre ocorrido dias atrás no Rio de Janeiro, sob Claudio Castro, aliado de Bolsonaro, tem inspiração nas execuções e ataques conduzidos por Trump no Caribe. Contudo, os “sucessos” dessa política ainda estão por se concretizar.
A agenda imperialista de Trump, baseada em discursos patrióticos exacerbados, homofóbicos, anti-imigrantes e anti direitos, apoiando Netanyahu no genocídio do povo palestino, está provocando crescentes fissuras no bloco direitista do MAGA e, o que é mais importante, uma crescente e cada vez mais decidida oposição interna e popular às suas políticas. Nas últimas semanas, enquanto Trump mobilizava porta-aviões nucleares e outras forças no Caribe, milhões de trabalhadores e trabalhadoras se mobilizaram em milhares de cidades dos EUA, em um movimento que pela primeira vez em décadas rejeita o sionismo, apoia a Palestina e resiste ativamente aos ataques da ICE de Trump. Particularmente chamativa é a possibilidade de vitória, nas eleições para a prefeitura de Nova York na próxima terça-feira, do “socialista” de origem muçulmana e imigrante Zohran Mamdani, o que implicaria novos desafios ao governo direitista de Trump.
Rodrigo Paz, com esses laços com o decadente imperialismo norte-americano, vincula a Bolívia a um bloco político cada vez mais questionado internacional e nacionalmente, e que só estabelece relações de vassalagem, como acaba de evidenciar o salvamento econômico de Milei e a dependência agravada que isso implica.
Rodrigo Paz, mais próximo de Tuto Quiroga, busca unificar o bloco direitista
Durante a campanha eleitoral, Paz tentou se distinguir do extremismo libertário de Tuto Quiroga, afirmando que havia muitas instituições financeiras e que não pretendia pedir dinheiro ao FMI. Evitou se pronunciar sobre a DEA e outras agências imperialistas de segurança, tentando seduzir e conter o eleitorado de origem popular, a quem finalmente deve sua vitória nas urnas. No entanto, essa postura cuidadosa está sendo rapidamente desfeita, adotando cada vez mais aspectos centrais do programa de Tuto Quiroga, o que está permitindo que várias formações direitistas comecem a se alinhar e a colaborar mais abertamente com o futuro governo de Paz e Lara.
Com essas medidas, Paz avança no fortalecimento do bloco direitista parlamentar, melhorando suas chances de governabilidade no curto prazo, mas acelerando seu distanciamento prematuro do eleitorado que o elegeu.
Repudiamos a subordinação ao imperialismo que Paz prepara
As aproximações de Paz ao imperialismo estadunidense, hoje apresentadas como solução para os problemas de escassez de combustíveis, apenas preparam novas e maiores dificuldades para as famílias trabalhadoras do campo e da cidade. Vemos como o FMI, na Argentina, apesar de ter liberado a cifra astronômica de mais de 20 bilhões de dólares, direcionou esses recursos para novas jogadas financeiras que continuam enriquecendo os capitais mais concentrados da oligarquia argentina e dos financistas norte-americanos.
Milei não apenas “torrou” todo esse dinheiro, mas também voltou a endividar seu país ao colocar a economia sob o comando do tesouro norte-americano com outros 20 bilhões que Trump disponibilizou para salvar as eleições do direitista argentino. O resultado não foi apenas o agravamento das condições de vida dos trabalhadores e do povo, mas também o endividamento do futuro de várias gerações.
Da mesma forma, vimos no Equador que, em troca de 600 milhões de dólares, o FMI exigiu o fim do subsídio aos combustíveis, detonando uma grave crise social e política. O mesmo pretendem fazer aqui. O resgate econômico será usado como moeda de troca para o saque dos bens comuns naturais, a implementação da biotecnologia e o enriquecimento do capital financeiro, minerador e agroindustrial, ao mesmo tempo em que se impõe um ajuste aos setores populares para “estabilizar” a economia.
Cabe destacar que a necessidade de “estabilização” surge do próprio sabotagem econômica promovida pelo capital financeiro, com fuga de capitais, especulação de preços de produtos de primeira necessidade e outras manobras.
Desde a Liga Operária Revolucionária (LOR-CI), parte da Rede Internacional Esquerda Diário na Bolívia, repudiamos a crescente ingerência imperialista no continente e no país. Convocamos a repudiar as agressões à Venezuela e a organizar um grande movimento anti-imperialista na região que enfrente aqueles que pretendem transformar nossos países em mais uma estrela da bandeira ianque.
Com Esq Diário