Há algumas semanas, trabalhadores portuários de Gênova ameaçavam com uma paralisação total caso Israel interrompesse ou atacasse a Global Sumud Flotilha, na qual dezenas de embarcações estão a caminho de Gaza para tentar romper o cerco e bloqueio israelense. A esse chamado de luta se uniram organizações estudantis que também ameaçavam com uma paralisação.
Essas declarações foram o estopim para a ação mais ampla e forte que se espalhou nesta segunda-feira por toda a Itália, em solidariedade com o povo palestino, incluindo as principais cidades, com bloqueios, greves, marchas e confrontos com a polícia, que respondeu com uma repressão brutal.
Com o lema “Blocchiamo Tutto” (“Bloqueamos tudo” por Gaza), pelo menos 80 cidades da Itália, incluindo Milão, Roma, Nápoles e Florença, fazem parte das mobilizações massivas.
O dia começou com bloqueios e paralisações em locais estratégicos, como portos e ferrovias, em apoio ao povo palestino e contra o genocídio em Gaza.
Em Florença, Roberto Marchese, trabalhador ferroviário e correspondente de La Voce delle Lotte e da Rede Internacional La Izquierda Diario, comentava mais cedo que “10.000 trabalhadores e estudantes bloquearam a rodovia e marcharam para os centros industriais e logísticos durante esta jornada de greve geral lançada pelos sindicatos USB, CUB e COBAS”. Marchese apontou que este deveria ser um primeiro passo para alcançar uma paralisação maior e denunciou o papel de uma das principais centrais sindicais, a CGIL, por “dividir as protestos e não convocar uma greve geral de todos os sindicatos, contra os cortes, rearmamento e cumplicidade com o genocídio sionista”.
Também é destacada a grande participação dos estudantes na greve e na jornada de mobilização. Em Roma, a Faculdade de Letras da Universidade La Sapienza está ocupada. Os manifestantes que expressam sua solidariedade com Gaza invadiram as instalações, ocupando a Faculdade de Letras e Filosofia, cantando “Palestina Livre”.
De acordo com o sindicato USB, as manifestações a favor de Gaza em toda a Itália reuniram cerca de 500.000 participantes em 65 cidades. “Todos os principais portos da Itália, 90% do transporte público e 50% das ferrovias ficaram bloqueados”, disseram no sindicato.
O porto de Livorno permaneceu totalmente bloqueado e paralisado. Lá, estudantes do ensino médio se juntaram aos trabalhadores, e uma marcha de 2.500 pessoas chegou ao posto de controle aduaneiro de Valessini.
Em Milão, a polícia atacou os manifestantes que tentavam bloquear a estação de metrô e trens com gás lacrimogêneo, e os manifestantes responderam erguendo barricadas com latas de lixo, bicicletas e outros objetos na Via Vittor Pisani para impedir o avanço das viaturas policiais.
Os manifestantes também usaram os canhões de água da estação contra a polícia. A fumaça das bengalas tomou conta da área, e também apareceram grafites com a inscrição “ACAB” (acrônimo de “Todos os policiais são bastardos”) nas entradas do metrô.
Em Gênova, 20.000 pessoas marcharam pelas ruas em apoio à Flotilla Global Sumud e contra o genocídio em Gaza. A marcha começou na zona portuária de San Benigno e continuou pelo porto até chegar ao centro da cidade.
Os trabalhadores portuários lideraram a mobilização com uma bandeira que dizia “Parem o tráfico de armas nos portos”, acompanhada por centenas de bandeiras palestinas. Aos poucos, mais pessoas se juntaram à marcha, que parou em frente à sede da Autoridade Portuária para dizer: “Chega de cumplicidade com Israel e chega de tráfico de armas nos portos!”
Em Turim, mais de 10.000 pessoas marcharam pelas ruas, ocuparam as vias do trem e queimaram uma foto de Meloni e Netanyahu. Por sua vez, os funcionários de um McDonald’s penduraram uma bandeira palestina sobre o balcão onde são feitos os pedidos.
Ao som de “Bella Ciao”, os manifestantes acenderam bombas de fumaça entre aplausos e cânticos. Em frente à antiga fábrica Microtecnica, alguns manifestantes subiram a um palco improvisado e disseram: “Estamos bloqueando portos e estações em solidariedade com a Palestina, a Flotilla e contra o governo de Meloni, que nunca questionou os acordos econômicos com Israel”.
Em Trieste, cerca de três mil pessoas se concentraram em frente ao porto. O sindicato USB Trieste, em um comunicado, explicou que a iniciativa “surge do chamado dos estivadores de Gênova, que já demonstraram a força e a dignidade daqueles que se recusam a ser cúmplices de guerras e massacres. Hoje, esse chamado foi respondido em toda a Itália, e a mobilização promete ser massiva, com portos, fábricas, transporte, escolas e serviços públicos paralisados”.
Os sindicatos da USB também disseram que “Trieste, cidade fronteiriça e centro estratégico do comércio internacional, não pode permanecer indiferente. Paralisar as obras no porto significa afetar um ponto chave das cadeias econômicas que alimentam as guerras e descarregam os custos sociais sobre as comunidades. Talvez poucas pessoas saibam, mas o porto de Trieste é considerado há muito tempo uma importante rota comercial para Israel”.
As mobilizações e bloqueios se estenderão durante o resto do dia por toda a Itália.
A ação desta segunda-feira, que inclui trabalhadores e estudantes bloqueando setores estratégicos e, em particular, os portos de onde saem ou por onde transitam as armas que Israel utiliza no genocídio que está sendo realizado, tem uma enorme importância.
Por um lado, seu efeito é muito mais claro e direto do que centenas de declarações e comunicados dos governos dos países imperialistas que, enquanto denunciam parcialmente a política do Governo de Israel, continuam oferecendo apoio financeiro, militar e político. Por outro lado, trata-se de uma radicalização das ações parciais que já estão sendo realizadas em alguns portos, como na própria Itália, Grécia ou Marrocos, estendendo a ação a outros setores e se tornando um exemplo que pode ser replicado em outros países.
Ministros do Governo israelense já responderam às declarações do Reino Unido, Canadá e Austrália sobre o reconhecimento de um estado palestino, esclarecendo que sua resposta será avançar ainda mais na destruição total de Gaza e na colonização completa da Cisjordânia, expulsando toda a população palestina no que seria a “etapa final” e “enérgica” da limpeza étnica que vêm realizando há 70 anos. Essa resposta de Israel mostra o quão utópica é uma solução de dois Estados, algo que o próprio Israel não está disposto a aceitar.
Já não há tempo a perder, em todo o mundo é necessário redobrar os esforços e seguir o exemplo da Itália. Trabalhadores, jovens e estudantes, bloqueando tudo, parando tudo, em solidariedade com o povo palestino e contra o genocídio israelense.
Com informações da Esquerda Diário