Em um Brasil onde a maioria da população era analfabeta e o rádio era tanto uma promessa de falar com as massas como uma tecnologia para poucos, uma emissora nasceu com a pretensão de “representar” o país. A Rádio Nacional, que faz 90 anos em 2026, despontou desde os primeiros anos com uma programação considerada inovadora e ambiciosa.
Criada pela Companhia Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande e instalada no primeiro arranha-céu do Rio de Janeiro – o Edifício A Noite -, a Nacional deu seus primeiros passos apostando em formatos que eram novidade no Brasil.
Antes mesmo de ser estatizada pelo governo Getúlio Vargas e viver seu ápice, a rádio já tinha conquistado um lugar na história da comunicação.
Na série especial 90 anos em 90 histórias, a Nacional conta sua própria história com edições diárias até o dia 12 de setembro, aniversário da rádio. Todos os episódios são publicados na Radioagência Nacional. O resumo de cada semana vai ao ar na Agência Brasil.
A contradição do rádio
Na época em que a emissora foi criada, outras rádios já existiam no país. O potencial de público era enorme, diante da limitação dos jornais impressos, como explica o professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), João Batista de Abreu.
Por outro lado, segundo o professor da UFF, o aparelho era pouco acessível. Nessa época, um receptor de rádio tinha o tamanho de uma geladeira e custava o equivalente a R$ 8 mil em valores de hoje.
O primeiro episódio se aprofunda no contexto em que a Rádio Nacional nasceu, e a quarta edição fala da Segunda Guerra Mundial e do governo Getúlio Vargas:
Sede icônica
A Nacional foi instalada em um símbolo modernista: o Edifício A Noite, casa da emissora por mais de 70 anos.
“É um marco na arquitetura brasileira, uma mudança nos parâmetros dessa arquitetura. Começa a transformar a cidade colonial portuguesa e ‘afrancesada’ por Pereira Passos em uma cidade americana, dos grandes arranha-céus”, explica Alberto Taveira, arquiteto do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac).
O prédio era do mesmo grupo que comprou os equipamentos e a frequência da Rádio Philips e a transformou na Rádio Nacional. O nome do jornal da empresa batizou também o edifício.
Hoje o edifício é tombado e reconhecido como patrimônio histórico e cultural pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O segundo episódio conta melhor essa história:

Fachada do Edifício A Noite. Foto: Tânia Rêgo/Arquivo/Agência Brasil
A primeira transmissão
Brasília (DF), 15/06/2026 – Panfleto anuncia estreia da Rádio Nacional em 1936. Livro
Brasília (DF), 15/06/2026 – Panfleto anuncia estreia da Rádio Nacional em 1936. Livro “Rádio Nacional – O Brasil em sintonia” de Luiz Carlos Saroldi e Sônia Virgínia Moreira. Foto: Luiz Carlos Saroldi e Sônia Virgínia Moreira/Divulgação
Foi com as primeiras notas de Luar do Sertão, às 21h, que a PRE-8, Rádio Nacional do Rio de Janeiro, fez a primeira transmissão. E a voz inaugural foi a de Celso Guimarães, primeiro diretor de broadcasting da emissora: “Alô, alô, Brasil! Aqui fala a Rádio Nacional do Rio de Janeiro!”.
Fora do ar, o evento de lançamento contou com ministros de Estado, embaixadores, parlamentares e membros da elite financeira da então capital federal.
“Foi fantástico, havia um avião divulgando uma grande festa pela cidade. A Rádio Nacional surgiu com pompa e circunstância”, lembra Cristiano Menezes, ex-diretor da emissora.
Voltando às ondas do rádio, também teve discurso do presidente do Senado e até mesmo uma bênção direto do Palácio São Joaquim – a primeira transmissão externa da Nacional. Os detalhes estão no terceiro
Alcance nacional
Quando foi criada, a Rádio Nacional contava com a concorrência de emissoras já populares, como a Mayrink Veiga. Mas o objetivo do grupo A Noite era ainda mais ambicioso: ultrapassar os limites do estado, como fala Lia Calabre, pesquisadora da Universidade Federal Fluminense e da Fundação Casa de Rui Barbosa, no quinto episódio da série.
Inovações no rádio
No início, a emissora tinha uma estrutura mínima: duas seções, uma artística e uma administrativa, e menos de 30 pessoas dividindo funções que hoje seriam de equipes inteiras. A programação era fragmentada, com espaços de 15 minutos para cada profissional.
Quem conta bem sobre este período é um dos nomes mais importantes da história da Rádio Nacional: Henrique Foréis Domingues, conhecido como Almirante.
“O primeiro contrato sério que eu tive foi na Rádio Nacional, em 1938. Não se fazia, não se usava muitos artistas. O artista era eu só. Eu só é que falava, eu que cantava, eu que fazia vozes. Eu fazia as vozes de homem, de mulher, de velho, de velha, de bêbado, de alemão, tudo isso.”
Com a chegada de Almirante, a Nacional começa a mudar completamente a forma com que se fazia rádio. Ele foi um dos responsáveis por criar o conceito de “programa montado”, planejado e com novos formatos e participações novas a cada edição.
O repertório musical também fez história. O maestro Radamés Gnattali experimentou novas formações num tempo em que somente metade dos cantores interpretava música brasileira, como conta o professor e compositor Henrique Cazes. Com EBC