Dados do IBGE, divulgados na última Pnad Contínua, mostram que a segurança alimentar voltou a crescer e abrange 75,8% dos domicílios. A Pnad Contínua apresenta os dados referentes ao ano de 2024, desta forma, os índices apresentados evidenciam os menores índices de Insegurança Alimentar no país desde 2017. A classificação utilizada pelo IBGE diferencia a Insegurança alimentar em três níveis: leve, moderada e grave.
Ainda assim, atualmente ao menos 2,2 milhões de domicílios particulares no país estão sob insegurança alimentar grave. O aumento de unidades domiciliares em segurança alimentar manteve ainda os níveis de disparidades existentes historicamente no país, sejam nos índices relacionados ao gênero, raça, escolaridade e regionais. Ou seja, a insegurança alimentar, que na sua forma grave atinge 3,2% da população e na soma total dos três níveis chega a 24,2%, segue marcada pelo mesmo mapa social do Brasil: gênero, raça, escolaridade, território e classe.
O recorte de gênero é cristalino: embora as mulheres sejam maioria como responsáveis pelos domicílios (51,7%), nos lares com insegurança alimentar elas são 59,4% das chefias — um espelho das jornadas duplas, da precarização e dos salários menores que empurram milhões de famílias ao limite. A insegurança moderada, em especial, concentra 60,6% de domicílios chefiados por mulheres.
A lente racial expõe a estrutura do racismo brasileiro: entre responsáveis pelos domicílios em insegurança, 54,7% são pessoas pardas e 15,7% são pretas e 28,5% são brancas. O quantitativo de domicílios em que os responsáveis pertencem ao grupo de negros, soma entre pretos e pardos, representa mais de 70% dos lares me insegurança alimentar no pais.
Contratando com essa realidade entre o grupo correspondente aos brancos, a maioria dos lares encontram-se em segurança (45,7%) e o percentual de lares com alguma restrição caí para 28,5%. No grau mais severo, os domicílios com chefia parda chegam a 56,9%, mais que o dobro dos com chefia branca (24,4%).
A escolaridade também pesa: mais da metade (51,5%) dos lares em insegurança têm responsáveis com o menor nível de instrução. Enquanto, nos casos de insegurança alimentar grave, observa-se que os responsáveis que tinham até o fundamental completo encontram-se em 65,7% .
“Dentre os domicílios em IA, das ocupações estudadas, chama atenção os responsáveis por conta própria (17,0%); empregados do setor privado sem carteira de trabalho assinada (8,6%); trabalhador doméstico (6,5%); e outros casos (47,5% – que englobam os responsáveis sem emprego e outros casos). Juntos, estes quatro grupos respondem por 79,6% dos casos de IA. Nos casos de domicílios em IA grave, 15,5% tinham responsáveis ocupados por conta própria; 8,3% como empregado do setor privado com carteira de trabalho assinada; e 6,7% como trabalhador doméstico.” (IBGE, Pnad Contínua, 2024)
As desigualdades territoriais seguem profundas. Na região Norte do país, ao menos 37,7% dos lares encontram-se em algum nível de insegurança alimentar. No nordeste essa porcentagem alcança o patamar de 34,8% dos lares. No quadro geral o Sul, o Sudeste e o Centro-Oeste são as regiões do país onde os patamares de lares com segurança alimentar estão em torno de 80% da população, enquanto no Norte e Nordeste o índice está em torno dos 62% e 65% dos lares.
Também persiste o fosso entre campo e cidade. De acordo com os últimos dados, a proporção de lares com insegurança nas áreas rurais chega a 31,4%, contra 23,2% nas áreas urbanas. Apesar de ser o menor patamar rural da série histórica do IBGE, o peso segue maior no campo, onde a combinação de salários mais baixos, serviços públicos distantes, o impacto do agronegócio e dependência de cadeias agroexportadoras aprofunda as disparidades.
Renda fecha o quebra-cabeça: os casos dos lares com insegurança moderada ou grave concentram-se entre as rendas entre até 1 salário mínimo. Juntos, aqueles que vivem com ¼, ½, e um salário mínimo respondem por mais de 70% dos casos de insegurança alimentar do país. Destaca-se que, considerando as rendas dos moradores dos domicílios e a composição, a maior restrição alimentar encontra-se em lares onde residem crianças e adolescentes.
Em síntese: a queda da insegurança alimentar indicada nessa série da Pnad Contínua indica também a permanência de discrepâncias entre os diferentes setores sociais onde os índices se materializam em um país profundamente desigual. Sem romper com a lógica da precarização, do racismo estrutural, da feminização da pobreza, do atraso educacional e do modelo extrativista que concentra riqueza e esvazia territórios, a “melhora” mantém os limites da opressão.
É preciso enfrentar a fome com medidas estruturais: emprego formal com direitos, equiparação salarial entre mulheres e homens, combate efetivo ao racismo, expansão do investimento em educação e serviços públicos, reforma tributária que taxe os de cima e não os trabalhadores. É preciso enfrentar o modelo agroexportador controlado por latifundiários e multinacionais, que desmonta estoques reguladores, dolariza preços e empurra o Brasil para a dependência.
Lula-Alckmin assumiu prometendo “estabilidade” e preservaram o coração do legado econômico do golpe de 2016, mantendo reformas antioperárias como a trabalhista e a da Previdência — que intensificam a exploração com jornadas extenuantes e salários corroídos. Ao poupar os lucros dos capitalistas e do agronegócio, o governo não enfrenta as raízes da carestia e das disparidades sociais persistentes no país.
Combater a fome, a inflação e o desemprego de forma integral em todo território nacional exige atacar os lucros dos de cima: repartição das horas de trabalho entre empregados e desempregados, com jornadas de 30 horas semanais (5 horas por dia) sem redução salarial; reajuste mensal automático igual à inflação; e a expropriação dos latifundiários do agronegócio e das multinacionais alimentícias que lucram com a miséria.
Só a mobilização independente da classe trabalhadora e dos setores oprimidos pode impor que sejam os capitalistas a pagar pela crise e garantir condições dignas de vida para a maioria.
Com Esq Diário