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Bolos de dinheiro e conversas abertas sobre compra de votos: as provas da PF contra André Fufuca, ministro indicado pelo centrão

Policiais encontraram fotos de bolos de dinheiro e conversas falando abertamente em compra de votos para Fufuca
  • Agencia Brasil de Fato
  • 28 novembro 2023
  • Política, Manchetes
Foto: Agência Câmara
Foto: Agência Câmara

Foto: Agência Câmara

Indicado do PP para o Ministério do Esporte do governo Lula em meio a uma pressão do presidente da Câmara Arthur Lira (AL) e do centrão para aumentar o espaço na Esplanada dos Ministérios, André Fufuca é investigado pela Polícia Federal (PF) no Maranhão por compra de votos na eleição de 2018, quando foi reeleito deputado federal pelo partido no estado.

O Brasil de Fato teve acesso ao inquérito, que a PF pediu para ser prorrogado por mais 90 dias no último dia 16 de novembro para poder ouvir mais oito pessoas que mantiveram contato com os suspeitos de comprar votos nas vésperas da eleição. Os documentos mostram, segundo a Polícia Federal, que anos antes de Fufuca cogitar virar ministro dos Esportes, já havia apoiador dele negociando chuteira de futebol em troca de voto.

Além disso, a investigação inclui um episódio envolvendo apoiadores do hoje ministro escondendo sacola de dinheiro em um bueiro ao ver os agentes da PF chegando ao local onde estaria ocorrendo a compra de votos, e até foto de um empresário com uma montanha de dinheiro a dois dias da eleição em 2018. No dia seguinte, o mesmo empresário, que tinha contato direto com Fufuca, indicou em troca de mensagens que o então candidato teria “soltado dinheiro”.

Procurado sobre o episódio, o Ministério do Esporte informou que “o ministro André Fufuca não compactua com qualquer ato ilícito, não é responsável por ação de terceiros e confia que a justiça vai esclarecer todos os fatos”.

‘Bolos de dinheiro na churrascaria’

A investigação que envolve o hoje ministro dos Esportes começou em Santa Luzia, município do interior do Maranhão com população de 57 mil habitantes, localizado a cerca de 300 km da capital São Luis. Naquele ano, Fufuca foi o segundo candidato a deputado federal mais votado no município, com 4.325 votos. Considerando sua votação total em 2018, a cidade foi a quinta onde ele mais obteve apoio.

Mas segundo a investigação da Polícia Federal, o bom desempenho pode estar ligado à compra de votos.

As suspeitas surgiram durante uma ronda de rotina da Polícia Federal na noite antes do primeiro turno das eleições daquele ano, em 6 de outubro de 2018. Na ocasião, a equipe que estava na cidade recebeu denúncia feita por um morador ao delegado da Polícia Civil local de que apoiadores de André Fufuca estariam aglomerados em uma churrascaria com bolos de dinheiro para comprar votos.

A equipe da Polícia Federal, então, foi até duas churrascarias do município e, em uma delas, encontrou uma aglomeração de carros com adesivos da campanha de Fufuca e apoiadores do deputado. No local, também estava o vice-prefeito do município, Juscelino da Cruz Filgueira Junior, com um maço de dinheiro na mão que, segundo ele, seria de apostas.

“Num primeiro momento, houve perfeita coincidência entre a aglomeração de pessoas vinculadas à campanha do Deputado Federal André Fufuca numa churrascaria, conforme narrado na denúncia, contudo não havia naquele momento, elementos suficientes para a caracterização de crime eleitoral”, afirmou o delegado Wedson Cajé Lopes no relatório que encaminhou à Justiça Eleitoral para pedir a abertura do inquérito.

Sacola de dinheiro no bueiro

Os policiais, então, seguiram nas buscas e, utilizando um veículo descaracterizado, encontraram uma casa às margens de uma rodovia que dá acesso à cidade. Lá, se depararam com o movimento de cinco veículos com adesivos de Fufuca e pessoas entrando e saindo da residência. Foi acionada, então, uma viatura da PF que estava fazendo ronda. Quando ela chegou ao local, foram identificados três suspeitos que estavam guardando em uma caminhonete em frente à residência uma caixa com material de campanha de Fufuca.

Um deles chegou a esconder um saco de dinheiro em um bueiro próximo ao ver a PF se aproximando. O material, porém, acabou sendo descoberto pelos agentes, que revistaram também a caminhonete. Na sacola, estavam R$ 5.850 em notas de R$ 20, R$ 50 e R$ 100 e, na caminhonete, estava uma caixa de papelão com santinhos de Fufuca que foi apreendida junto com o dinheiro e os celulares dos três suspeitos.

A dona da casa, Vanda Maria da Silva, por sua vez, afirmou aos policiais que as pessoas que foram a sua residência eram amigos que estariam lá pelo seu aniversário. A PF solicitou o documento de identidade dela e viu que o aniversário era em maio. Confrontada com a informação, ela pediu desculpas pela mentira e os agentes decidiram levar os três homens suspeitos para depor. Como não havia delegacia da PF na cidade, eles foram todos levados para o fórum da Justiça estadual no município, que estava funcionando como um cartório itinerante da Justiça Eleitoral naquele período de eleição.

Lá, os três suspeitos prestaram depoimento: um empresário do ramo de eventos, Marcus Vinicius Oliveira Sales, um dono de uma loja de carros, Francisco Vieira da Silva, e seu filho, Caio Rubens Vieira da Silva. De acordo com prestação de contas da campanha de Fufuca à Justiça Eleitoral, nenhum deles trabalhou para a campanha do então deputado naquele ano e somente Caio trabalhou, oficialmente, na campanha de Fufuca em 2022, serviço pelo qual recebeu R$ 10 mil. Os depoimentos e os conteúdos encontrados no celular dos três indicam que eles teriam atuado sim para Fufuca e outros políticos em 2018.

Um dos depoimentos mais importantes foi o do empresário do ramo de eventos Marcus Vinícius Oliveira Sales, que é do município de Santa Inês, o mesmo onde nasceu Fufuca. Ele afirmou que o dinheiro apreendido era de sua atividade de “promotor de evento” para pagar bandas que teriam sido contratadas. Ele disse que havia recebido uma parte da verba, cerca de R$ 2,4 mil, de um secretário do município de Governador Newton Belo, também do interior do Maranhão, para pagar uma banda para um show que estaria previsto. Ele, porém, negou ter contrato com a prefeitura para o suposto show e disse que havia transferido o valor para a banda naquele mesmo dia.

Ele disse ainda que outra parte do valor, cerca de R$ 2 mil, eram referentes à “sangria de caixa” – retirada não programada – da venda de um outro show que iria acontecer. Na versão do empresário, a venda foi feita por uma farmácia que pertencia a sua sogra e que teria um caixa separado para a venda de ingressos do show. Ele afirmou ainda ter pedido para um outro suspeito, Caio Rubens Vieira da Silva, na época com 18 anos, esconder o pacote “porque tinha receio de que a Polícia pensasse que se tratava de valores para a compra de votos”.

‘To aqui em Santa Luzia atrás de voto’

Dos três suspeitos, foi no celular de Marcus Sales que a Polícia Federal encontrou o telefone de André Fufuca na agenda e até uma conversa direta entre ele e o então parlamentar, além de um conjunto de conversas com outros interlocutores em que o assunto compra de votos era tratado abertamente.

Na conversa com Fufuca pelo aplicativo Whatsapp em 12 de setembro daquele ano, registrada no relatório da Polícia Federal, Marcus Sales pede “material de divulgação” ao parlamentar e afirma que gostaria de uma “ajuda” do deputado para um bloco dele, no município de Santa Inês, no ano seguinte: “Bom dia André, manda ai as artes suas amigo. Eu não quero nada de você, nem se preocupe, só quero que ano que vem você me ajude no meu bloco em Santa Inês. Em janeiro”.

Fufuca responde: “Vou mandar amigo. Quer quais?”. “Todas, pode mandar ai pra ficar postando”, responde o empresário que é seguido pelo deputado concordando com o pedido “Blz(sic). Obrigado”.

“Fazer um adesivaço (sic) aqui seria bom também. Mas vamos pra cima que vai dar certo”, seguiu o empresário, que tem uma firma de realização de eventos e não aparece nas prestações de conta de campanha de Fufuca, seja em 2018 ou em 2022.

No dia 6 de outubro, um dia antes do primeiro turno da eleição naquele ano, Marcus Sales encaminha um print de fotos para o deputado e afirma: “Bora espocar(sic) essas urnas”. A mensagem foi encaminhada às 16h47 e ficou sem resposta.

Mas às 22h34 daquele dia, Fufuca encaminha a seguinte mensagem para o empresário: “Amanhã conto com seu empenho, vamos a vitória, com fé em deus”. Sales, que em pouco tempo depois iria ser abordado pela PF respondeu: “Tamo junto. To aqui em Santa Luzia com Ló atrás de voto”. “Ló” era o apelido de Francisco Vieira, que foi flagrado pela PF junto com Caio e Marcus.

m paralelo às conversas com o deputado que tentava a reeleição, a PF localizou uma série de mensagens, tanto em conversas individuais de Marcus com outros interlocutores, quanto em um grupo de Whatsapp intitulado “Os Lindos”, usado por ele e outras pessoas que a PF está buscando identificar, em que a compra de votos é tratada abertamente.

No grupo “Os Lindos” um interlocutor identificado na agenda de Marcus como “Bruno” chega a enviar, no dia 5 de outubro, uma foto do empresário em uma mesa com um bolo de dinheiro e fala sobre compra de votos. “Foto iá vazou sio(si). Taxinha conferindo dinheiro pra comprar voto”. Ao que Marcus comenta: “Tem ali que foi 100 mil”. Para a PF “Taxinha” seria um dos apelidos dados a Marcus Sales pelo grupo.

A reportagem entrou em contato com o telefone do interlocutor identificado somente como Bruno. Uma pessoa que se identificou como Bruno atendeu, disse que conhece Marcus Sales e, ao ser confrontado com as mensagens presentes no relatório da PF, disse que se tratou de uma brincadeira. “Você acha que se fosse sério iríamos compartilhar?”. A “brincadeira” toda ocorreu a dois dias do primeiro turno das eleições naquele ano.

A conversas polêmicas seguiram no dia seguinte, dentro do grupo e em trocas de mensagens com outros interlocutores. Às 16h49 do dia 6 de outubro, véspera da votação, Marcus Sales tem uma conversa direta no Whatsapp somente com outro interlocutor, identificado na agenda como “Careca”: “André Fufuca vai espocar (sic) essas urnas. O homem tá com o doido (sic)”, afirma Sales, ao que Careca responde com uma pergunta: “Soltou o dinheiro?”. E a resposta de Sales é curta: “Demais”.

Na sequência, Careca ainda comenta: “Josimar também deve ter soltado. Comprando votos por ai”. A PF não faz nenhuma análise específica sobre o nome de Josimar, mas, naquele ano, o deputado federal eleito com mais votos no estado do Maranhão foi Josimar Maranhãozinho, na época do PR e atualmente filiado ao PL e que responde a outros inquéritos no Supremo Tribunal Federal (STF). Formalmente o parlamentar não aparece como investigado neste inquérito da PF sobre compra de votos e, procurada, a defesa de Josimar informou que o parlamentar “desconhece completamente os fatos e as pessoas mencionadas”.

Naquele mesmo dia, o grupo “Os Lindos” seguiu com conversas sobre compra de votos. As 10h13 da manhã, Marcus Sales encaminha uma foto segurando um santinho de Fufuca, ao que Careca responde comentando com uma mensagem de áudio: “MS hoje compra voto pra Fufuca”. O relatório da PF não explica como continua a conversa.

Mais tarde, às 18h45 daquele dia, pouco tempo antes de Marcus Sales pedir para Caio esconder um saco de dinheiro em um bueiro, Careca pergunta no grupo: “Já comprou uns 100 primo?”. De acordo com a PF, na conversa não fica claro para quem do grupo seria a pergunta, mas às 18h46 Marcus Sales escreve que está em Santa Luzia e comenta: “Sair daqui com mais de 100 votin (sic)”.

Às 18h47, Bruno comenta no grupo: “Felipe soltou 1 milhão na mão do Fofão. Agora o omi se elege”. A mensagem não deixa claro a quem ele se refere, e, questionado por telefone pela reportagem sobre essa frase, Bruno encerrou a chamada.

Na sequência, naquele mesmo dia, Marcus comenta: “Careca, voto casado aqui o povo quer 100. Tá difícil”. A reportagem entrou em contato com o telefone registrado em nome de Careca na agenda de Marcus. Uma mulher identificada como Cléo atendeu e disse que não conhecia ninguém com esse nome.

‘Cai atrás aí de uns ‘votinho véio’ de 30 conto, de 20, de 50′

Em outra conversa, ocorrida no dia 4 de outubro diretamente com um interlocutor identificado como Caio Ló por meio de mensagens de áudio no Whatsapp, Marcus fala abertamente em sair distribuindo dinheiro nas vésperas da votação. E pede apoio para Caio Ló, que se compromete a ajudar.

“Ei macho. Tu tem que vim pra ‘nóis’ ir pedir voto… voto pra ANDRÉ FUFUCA. ‘Nóis’ tem é que cair no campo. Deixa o dinheiro aqui pra ‘nóis’. Pra ‘nóis’… lá do escritório ‘nóis’ sai distribuindo”, diz o áudio, segundo a transcrição da Polícia Federal. Abaixo, a íntegra da conversa transcrita pela PF:

No dia 6 de outubro, os dois seguem conversando por áudios de Whatsapp e Marcus pede uma transferência de R$ 5 mil para Caio Ló. Em troca, ele repassaria a quantia em espécie para o interlocutor.

“Já no dia 06/10 2018, véspera das eleições, Marcus pergunta para Caio Ló se ele consegue realizar uma transferência de R$ 5 mil e Marcus daria em ‘espécie’ para Caio Ló. Caio Ló pede para Marcus ir até ele”, afirma a PF no relatório sobre as conversas, sem mostrar a transcrição.

A reportagem tentou contato com o telefone do interlocutor de Marcus identificado como Caio Ló, mas ele não atendeu e nem respondeu à mensagem pelo Whatsapp. O Brasil de Fato também tentou ligar para Marcus Sales, mas ele tampouco atendeu ou respondeu às mensagens de Whatsapp.

Procurado, o advogado Willey Azevedo, que representa Francisco Vieira e seu filho Caio Vieira, afirmou que todas as provas produzidas pela Polícia Federal seriam irregulares, pois os celulares foram apreendidos sem ordem judicial, e que todas as ilicitudes da ação da PF seriam questionadas no momento oportuno.

O delegado da PF responsável pela abertura do inquérito em 2018, Wedson Cajé Lopes, tomou os depoimentos no fim da noite do dia 6 e, no dia 7 de outubro, encaminhou toda a documentação e um relatório à juíza eleitoral, que autorizou no mesmo dia a abertura do inquérito e a quebra de sigilo dos aparelhos que foram apreendidos.

O caso se arrasta na Polícia Federal do Maranhão desde então. Apesar do grande volume de informações identificado, a PF ainda aguarda o retorno de companhias telefônicas para identificar alguns dos interlocutores dos diálogos encontrados nos celulares e precisa ouvir mais pessoas que aparecem nos diálogos aqui citados e em outras conversas suspeitas. Até o momento, pelo que consta nos autos, Fufuca não foi chamado para depor sobre o episódio.

O crime de compra de votos tem uma prescrição de oito anos, portanto, em tese o caso poderia prescrever em 2026. Entretanto, se o Ministério Público considerar haver provas suficientes e apresentar uma denúncia antes, o prazo para contagem do tempo de prescrição para de contar.

Segundo apurou a reportagem, como não há uma delegacia da PF na cidade de Santa Luzia, toda apuração é conduzida por policiais que ficam na sede da superintendência da Polícia Federal no Maranhão, localizada na capital São Luiz, a cerca de 300 quilômetros de Santa Luzia. A distância acaba se tornando um obstáculo para uma apuração rápida sobre o caso, pois eventuais diligências que a polícia tenha que fazer na região envolvem o deslocamento de agentes para a cidade, com pagamento de diárias para um caso que é mais um entre vários outros em apuração pela equipe.

Da mesma forma, a perícia do conteúdo que estava nos aparelhos celulares tampouco foi feita na cidade de Santa Luzia. No caso do celular de Marcus Sales, onde foi encontrada a maior parte das informações de interesse da PF, o relatório com a análise do conteúdo, cujos trechos foram usados nesta reportagem, só foi concluído em setembro de 2019, quase um ano após a operação.

Ainda assim, os autos indicam que o inquérito teria ficado parado entre 11 de agosto de 2021 e 24 de maio de 2022, período em que não foi juntada nenhuma informação nova pela PF nos autos.

Em janeiro deste ano, um novo delegado, chamado Diego Augusto Frota Alves, assumiu o caso e, no último dia 16 de novembro, pediu a prorrogação por mais 90 dias para ouvir ainda oito pessoas, incluindo o Careca, que aparece nas mensagens mencionadas nessa matéria.

Edição: Rodrigo Durão Coelho

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