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A cautela de Lula com Trump diante da Venezuela

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  • 24 outubro 2025
  • Política, Manchetes
Fonte da imagem: Metrópoles/Esq Diário
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Donald Trump 2.0 representa uma conduta mais agressiva e reacionária dos Estados Unidos contra a América Latina. A tal ponto se multiplicou o hiperativismo de reconquista latinoamericana (fruto da sensação de retrocesso de Washington no subcontinente) que os editoriais da grande imprensa passaram a temer que sua feroz propaganda do “imperialismo norte-americano como discurso passadista” tenha perdido coloração.

A política externa de Trump atualiza a histórica doutrina Monroe – “A América para os americanos”, entendida como a América Latina para seus próprios interesses imperialistas. Esta retomada da política agressiva, em relação às administrações Obama, Trump 1.0 e Biden, responde à decadência hegemônica dos Estados Unidos no panorama mundial, e seu debilitamento estratégico peculiar na América Latina, agora influenciada fortemente pela China (e, em outra medida, pela Rússia).

Trump e Marco Rubio indicaram desde o início da nova administração que a “América voltaria a ser dos americanos”, com a proposta de retomada do Canal do Panamá e a incorporação da Groenlândia ao território ianque. No Brasil, Trump impôs tarifas de 50% sobre as exportações nacionais em nome da proteção de seu aliado de extrema direita, o golpista Jair Bolsonaro, um grau de interferência agudo contra a soberania política do país. O México foi chantageado economicamente a aceitar a política trumpista de deportação de imigrantes mexicanos e centro-americanos, o que provocou protestos de massas em Los Angeles e distintas cidades da fronteira dos EUA. Mais recentemente, Trump negociou com seu capacho pró-sionista Javier Milei uma linha de crédito de US$40 bilhões, ofertada pelo Tesouro americano e bancos de Wall Street, em troca da submissão econômica e geopolítica da Argentina aos interesses de Washington de coibir a entrada do capitalismo chinês no país. “Você pode negociar um pouco, mas não deve ir além disso. Não deve fazer nada relacionado ao âmbito militar com a China, e se isso estiver acontecendo, eu ficaria muito incomodado”, disse Trump a Milei.

O centro da agressão imperialista norte-americana na América Latina é a Venezuela. Sob o discurso hipócrita da “segurança hemisférica” e da “luta contra o narcotráfico”, o imperialismo norte-americano intensifica sua ameaça de intervenção militar direta contra a Venezuela. Trump já havia anunciado a autorização para “operações encobertas” da CIA no país, aludindo à intenção de “regime change” (a derrubada do governo Maduro). O Pentágono concentrou mais de 10.000 soldados em Porto Rico, incluindo mais de 300 fuzileiros navais. Trump despachou o maior porta-aviões do mundo (USS Gerald B. Ford) à Venezuela; bombardeiros B-52, caças F-35B Lightning II do Corpo de Fuzileiros Navais e helicópteros de ataque MH-6 Little Bird e MH-60 Black Hawk também estão sobre as águas do Caribe, próximo a plataformas de petróleo e gás no litoral venezuelano. As aeronaves são operadas pelo 160º Regimento de Aviação de Operações Especiais, unidade que realiza missões para comandos como os Navy SEALs, os Boinas Verdes e a Força Delta, e ganhou renome por realizar operações complexas e perigosas, como o ataque para matar Osama bin Laden no Paquistão.

Os recentes bombardeios de pequenas embarcações civis na costa marítima da Venezuela e da Colômbia, denunciadas por Trump como supostas “narco-embarcações que ameaçam a segurança nacional dos EUA”, já mataram 37 pessoas. Tais crimes de guerra em águas internacionais mostram a prepotência dos Estados Unidos, responsável pela implementação de criminosos regimes ditatoriais em todo o Cone Sul durante as décadas de 1960 e 1970. Em seu conjunto, essa nova rodada de agressões de Trump supera a tentativa de intervenção política na Venezuela em 2019, quando reconheceu o autoproclamado Juan Guaidó como “presidente legítimo”, impondo sanções devastadoras que agravaram a crise econômica e social do país. Esta política é defendida por toda a extrema direita pró-imperialista venezuelana, de Leopoldo López a Maria Corina Machado, vencedora do “Prêmio Nobel”, defensora do genocídio sionista contra os palestinos em Gaza e porta voz da campanha pela intervenção militar dos Estados Unidos em território venezuelano. Em entrevista, Corina Machado prometeu a entrega do petróleo, do ouro e demais terras raras do país às multinacionais estadunidenses, em ritmo ainda mais rápido do que veio fazendo o regime ditatorial de Nicolás Maduro e o regime chavista.

Lula veio retomando o discurso de “soberania regional” nos últimos meses, em especial depois da aplicação das tarifas de Trump sobre o Brasil. Entretanto, apesar de afirmar que “nenhum presidente deve dizer como será a Venezuela”, está tomando todos os cuidados para não irritar o presidente intervencionista na Casa Branca. Em nome do governo, Geraldo Alckmin, um dos negociadores com o secretário de Estado Marco Rubio no tema das tarifas, disse abertamente que “não há divergência entre Lula e Trump sobre a Venezuela”.

“Não há discordância. O que o presidente Lula tem falado é: os países têm autonomia. Não devemos estimular uma insegurança na região. O mundo já tem guerra no Oriente Médio, já tem guerra na Europa. A nossa região é tradicionalmente uma região de paz”, afirmou Alckmin.

Após a Assembleia das Nações Unidas em Nova York, Lula veio recompondo os laços de sua relação política com Trump. O Republicano elogiou Lula na ocasião, e disse ter tido com ele uma “ótima química”. Lula fez gala dessa declaração – que, ademais, escanteava Eduardo Bolsonaro e a extrema direita bolsonarista como interlocutores exclusivos dos EUA. Em evento no Rio de Janeiro, disse que “não pintou química, pintou uma indústria petroquímica”. No contexto dessa aproximação com Trump, Lula a disse que não tinha nenhum problema com o Estado colonialista de Israel, “apenas com Netanyahu”.

Os Estados Unidos, então, já haviam movido uma armada de guerra para o Sul do Caribe. Hábil à sua maneira na relação diplomática, Trump busca instrumentalizar a trégua com Lula visando os condicionamentos que poderia impor ao Brasil no caso da Venezuela, caso o país deseje ver eliminadas as tarifas. Estes condicionamentos adoçam a retórica presidencial: a prioridade de Lula seria “manter a região como zona de paz”. Em outras palavras, neutralizar o Brasil nos pontos chave da política norte-americana é a condição da Casa Branca para a reaproximação com Brasília.

Este é um dos motivos que fazem Lula ter cuidado nas expressões. Gustavo Petro, com todos os limites de um governo capitalista que já indicamos aqui, declarou um repúdio mais aberto à política norte-americana. Em função disso, o presidente da Colômbia foi acusado por Trump de “traficante de drogas ilegais”, suspendendo subsídios e pagamentos devidos ao país. Lula não quer entrar nesta seara, e o governo brasileiro já alertou que teme que o “fator Venezuela” seja um motivo de crise com Washington. A tal ponto que, em setembro, o Ministro da Defesa de Lula, José Múcio, disse que o Brasil “não tomará partido na questão da Venezuela, e permanecerá neutro”, uma aberração política.

Outra razão explica os cuidados de Lula. Nesta nova “boa química” com Trump, o Brasil está organizando a entrega de seus recursos naturais estratégicos em nome das “oportunidades de negócio” com os Estados Unidos. O governo brasileiro, a partir do Ministério de Minas e Energia (Alexandre Silvério), está negociando a venda de minerais críticos e das terras raras ao governo Trump. O Conselho Nacional de Política Mineral (CNPM) está elaborando relatórios para estabelecer a dimensão dos recursos disponíveis de terras raras – conjunto de 17 elementos químicos metálicos usados como matérias-primas estratégicas na indústria de alta tecnologia, como na produção de smartphones, supercondutores, mísseis hipersônicos, painéis solares e super-imãs.

Dilma havia assinado com Angela Merkel, em 2015, acordos de entrega destes minerais à Alemanha. Agora, Trump vê a oportunidade de diminuir sua dependência da China, incrementando a subordinação neoextrativista do Brasil. “Eu tenho lido muito sobre terra rara e minerais críticos, estou estudando para ninguém me enganar. O Brasil não quer ser isolado do mundo, não. Eu disse ao Trump que não tem limite na nossa conversa, vamos colocar na mesa tudo o que acha que precisa conversar. No caso do Brasil, a gente tem que ganhar, tem que ser um acordo de ganha-ganha”, disse Lula.

Tal política está na contramão do pretenso discurso de Lula de “defensor” da autonomia latino-americana. É a permissão do saque dos recursos minerais estratégicos do subcontinente a fim de que os Estados Unidos operem parte do de-risking da China, maior produtora e processadora de terras raras no mundo. Lula também deixa Trump satisfeito ao autorizar a exploração de petróleo da Foz do Amazonas, na Margem Equatorial, ecoando às vésperas da COP30 o espírito trumpista do “drill, baby, drill”: extrair até a última gota de petróleo, não importa o custo ambiental, social ou humano, em benefício das multinacionais petrolíferas e dos acionistas estrangeiros da Petrobras.

Assim, a postura dubitativa e ambígua do governo Lula, sem um rechaço contundente à agressão de Trump na Venezuela, serve aos propósitos da dupla dependência estrutural do Brasil. Mostra, de um lado, que o governo aposta fichas na continuidade da reaproximação com Trump (com a expectativa de diluir a postura do governo norte-americano nas eleições de 2026, na qual Lula garantiu que participará). Por outro, denota que a retórica do multilateralismo, ou de uma ordem mundial multilateral, inclui a coexistência pacífica com o imperialismo dos Estados Unidos, mesmo que este imponha a diplomacia das canhoneiras como método de reconquista de influência na América Latina. Não existe “autonomia estatal” com uma política entreguista, neo-extrativista e vacilante diante das ameaças militares imperialistas. Como adiantamos neste artigo, tampouco a associação maior com os capitalismos da China e da Rússia – que têm interesses exploratórios próprios na América Latina – representam uma alternativa aos Estados Unidos.

Para melhores condições de negociar, o tom amistoso de Lula com Trump é funcional para a ingerência imperialista na região. É necessário repudiar categoricamente o envio de tropas estadunidenses ao sul do Caribe, e rechaçar as ameaças diretas de Trump e do seu Departamento de Guerra contra a Venezuela, sob a desculpa cínica da sua suposta “luta contra o narcotráfico”. Esta postura antiimperialista categórica exige a mais absoluta independência política absoluta em relação ao governo de Nicolás Maduro, um governo capitalista brutalmente ajustador e repressivo que, apesar de seus discursos nacionalistas e sua demagogia “anti-imperialista”, administrou o capitalismo dependente venezuelano em favor de uma nova casta governante, aliada de setores da burguesia nacional e estrangeira. A denúncia do imperialismo norte-americano, e da extrema direita subserviente na Venezuela, não implica nenhum apoio político ao governo ditatorial e anti-operário de Maduro.

Como dissemos na declaração de nossa organização internacional, convocamos os trabalhadores, a juventude e os movimentos sociais de toda a América Latina, dos Estados Unidos e do mundo inteiro a se mobilizarem contra essa ofensiva imperialista. Em particular, convocamos os milhares que nos Estados Unidos se mobilizam contra o racismo, o militarismo e a opressão a enfrentarem seu próprio imperialismo, o principal inimigo dos trabalhadores e dos povos do mundo. As mobilizações de massas do movimento “No Kings” são um símbolo dessa possível escalada na luta de classes dos Estados Unidos, chave para combater as ameaças trumpistas. Na América Latina, é necessária uma política independente de todos os Estados capitalistas, inclusive do governo Lula, para enfrentar a ingerência imperialista dos Estados Unidos, marca da sua luta por frear a decadência hegemônica ianque nesta etapa de renovadas crises, guerras e conflitos entre as classes.

Com Esq Diário

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