Mundo

17/10/2020 as 15:09

ARTIGO: Eleições nos EUA, continuidades e mudanças para a América Latina

Professor da USP debate o futuro das relações entre Washington e os países latinos com Trump ou Biden na Presidência

A Referência
Foto: Adam Schultz/ Biden for President<?php echo $paginatitulo ?>

A política externa dos Estados Unidos durante estes anos da administração Trump tem sido positivamente inexistente para a América Latina. Em todos os casos em que ela ocorreu, isso tem acontecido com agendas e iniciativas próximas do punitivo, sendo o Brasil um dos únicos casos em que o governo de Trump incrementou as relações cooperativas, embora, dado o caráter ideologicamente orientado, tais relações privilegiadas não têm significado ganho substantivo real para o Brasil.

Durante estes anos Trump, a agenda negativa para a América Latina se concentrou em dois pontos: a contenção do fluxo de migrantes para os Estados Unidos através da fronteira com o México, cujo ato mais eloquentes foi o projeto de construção de um imenso muro e a repressão às caravanas de migrantes que saíram de países da América Central em 2019 e 2020 rumo aos Estados Unidos; o segundo aspecto dessa agenda negativa foi o “combate” aos inimigos ideológicos, especialmente aqueles agrupados em regimes de natureza castro-chavista, tais como Cuba, Venezuela, Bolívia e Nicarágua. Com Cuba, ressurgiram as relações tensas e de bloqueios econômicos que precederam aos governos de Obama, enquanto com a Venezuela, além do apoio ao líder opositor Juan Guaidó, iniciou-se um bloqueio e embargo econômico sem precedentes que procura criar condições para colapsar econômica e socialmente aquele país.

Quais são as perspectivas ou cenários possíveis para a América Latina com a permanência de Trump no poder?

Dado que a administração Trump tem uma natureza pouco flexível e pouco pragmática, e é mais guiada por visões fantasmagóricas do mundo (em que se destaca o fantasma chinês, país este pintado e imaginado por Trump e seus assessores como um poço de constante emissão de maldades globais), pouco ou nada deve mudar para a América Latina com sua continuidade. Isso é verdade tanto para aliados (Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Peru e alguns países centro-americanos) como para governos que são enxergados como adversários.

Com os aliados latino-americanos muito provavelmente continuará a prevalecer uma relação fortemente politizada, porém sem oferecer muitas vantagens concretas em termos de mercados, transferência de tecnologia ou de acordos de segurança, uma verdadeira “interdependência assimétrica”, em que a diplomacia dos acordos concretos e vantajosos para ambos os lados continua subordinada ao alinhamento em visões ideológicas e antiglobalistas, especialmente no caso do Brasil.

Já no caso dos países de regimes de (ou perto da) esquerda (especialmente Cuba, México e Venezuela), a estratégia continuará a ser a maximização de sanções econômico-financeiras e diplomáticas, a política de muros físicos para conter a migração e a pressão em organismos regionais, como a OEA. Mesmo no aspecto da segurança, apesar da incursão concreta na região por parte de países como Rússia, China e Irã na última década, a estratégia não passará de políticas dissuasórias sem eficácia, como, por exemplo, ameaçar com a presença maciça da Quarta Frota, que mais serve para reforçar sanções de todo tipo ao eixo de países cubano-bolivarianos do que para desestimular realmente aqueles países asiáticos de desenvolver iniciativas em segurança para a região.