Geral

01/07/2020 as 22:19

Entre mortes e traumas, 2º semestre inicia sem previsão de volta à normalidade

Sem vacina, as únicas armas disponíveis até o momento são a distância e a higiene

Agência Sputnik
Foto: © Sputnik / Sergei Monin<?php echo $paginatitulo ?>

Após um semestre que pareceu ter durado uma década, os brasileiros sonham com uma retomada da normalidade pré-pandemia, mas os riscos permanentes e os altos 'custos' da crise põem em xeque os planos para a segunda metade do ano.
Há meses, o Brasil e o mundo vêm lidando com uma série de desafios impostos pela pandemia da COVID-19, que, por toda a sua dimensão, tem impactado os mais variados aspectos da vida, seja no sentido biológico em si, no âmbito econômico, social, político ou cultural.

Hoje, apesar da flexibilização do isolamento em diversas partes, o consenso que se tem é de que o retorno à normalidade está diretamente ligado à criação e distribuição de uma vacina contra essa doença, mas, até o momento, não se sabe ao certo quando será possível lançar mão dessa importante arma na guerra contra o novo coronavírus.

Sem vacina, as únicas armas disponíveis até o momento são a distância e a higiene. Sair às ruas apenas quando estritamente necessário e utilizando máscara e álcool em gel. Para sonhar com uma volta à normalidade, é preciso seguir sacrificando o desejo do contato social, pois, uma vez contaminada, não há como saber se a pessoa terá a sorte de não apresentar qualquer sintoma ou se desenvolverá uma infecção respiratória aguda, podendo resultar em morte. É nessa tecla que bate a grande maioria dos médicos. 

"Nós estimamos, aqui no Brasil, que um pouco mais de 30% da população já tenha anticorpos circulantes contra o coronavírus", afirma em entrevista à Sputnik Brasil o médico Sylvio Provenzano, ex-presidente do Conselho de Medicina do Estado do Rio de Janeiro e diretor do Serviço de Clínica Médica do Hospital dos Servidores do Estado. "O grosso da população, mais de 50%, não possui esses anticorpos. Portanto, suscetível a ter a infecção pelo SARS-CoV-2 e desenvolver a COVID-19, eventualmente, na forma grave."

Segundo o especialista, o isolamento social proposto como medida administrativa teve, desde o início, o objetivo de permitir que o poder público cumprisse o seu dever de prestar serviço de saúde a todos, evitando um colapso da rede de hospitais. Por outro lado, ele admite que a flexibilização é importante, uma vez que, para aqueles que estão "pagando um preço alto pelo confinamento", os danos econômicos também são devastadores. Mas essa retomada precisa ser cuidadosamente planejada, de maneira a ter um "risco de contágio extremamente baixo". 

"Aglomeração é tudo aquilo que, neste momento, a gente não quer e que o vírus deseja, para ele poder voltar com toda força, o que, evidentemente, pode voltar a necessitar de um novo isolamento ou, quem sabe, até de um lockdown. O que seria, do ponto de vista econômico e do ponto de vista psicológico, péssimo, sob qualquer análise que se faça."
Para Provenzano, a mudança comportamental obrigatória ocasionada pelo surto do novo coronavírus, amplamente propagada como "o novo normal", pode se tornar um hábito mesmo após o surgimento de uma vacina. 

"A população brasileira talvez seja, no mundo, uma das que mais banhos toma. Mas, no entanto — uma observação minha —, pouco lavava as mãos. E a gente sabe que, para a gente evitar pegar o vírus, a lavagem das mãos frequente é importante", argumenta. "Essa seria uma mudança de comportamento que viria em muito boa hora, no meu entender." 

Além de difundir a prática de lavagem das mãos, o médico espera que esse período de isolamento seguido pelo surgimento de uma vacina contra a COVID-19 também faça com que as pessoas passem a valorizar mais o "contato humano", que, nos últimos anos, segundo ele, parece ter sido um pouco negligenciado. 

"Eu acho que as pessoas estão meio cansadas de ficarem conectadas nas redes sociais. Estamos sentindo falta daquilo que nos é mais valioso, que é o contato humano."

Brasil deve encarar agudização de situação social premente
Também em entrevista à Sputnik Brasil, o sociólogo Dario Sousa e Silva, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), descarta a possibilidade de uma volta imediata ao "ponto anterior" à pandemia após eventual criação e comercialização de uma vacina eficaz contra o novo coronavírus.