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13/05/2019 as 19:59

Abolição não caiu do céu: historiadora propõe olhar renovado sobre o 13 de maio

Os dados apontam que entre 600 e 800 mil pessoas foram libertadas no 13 de maio de 1888

Agência Sputnik
Foto: © Revert Henry Klumb/CC<?php echo $paginatitulo ?>

Passados 131 anos desde a assinatura da Lei Áurea, segue no Brasil um imaginário pouco fiel à realidade da época. Para discutir o assunto, a Sputnik Brasil ouviu Ana Flávia Magalhães Pinto, historiadora e pesquisadora da UnB.

Há 131 anos, a escravidão era abolida no Brasil sem medidas compensatórias aos escravizados. As consequências de 3 séculos de escravidão seguem vivas até hoje. Apesar de uma população de 54,9% de negros — a maior fora da África — o racismo ainda é uma marca da sociedade brasileira. O Atlas da Violência de 2018 mostra que o assassinato de negros teve aumento de 23% no Brasil, enquanto o de brancos caiu 6,8% no mesmo período. Dados do IBGE de 2017 também mostram que no país negros ganham R$ 1,2 mil a menos que brancos, em média. Entre graduados, a diferença salarial chega a 47% a menos para os negros, segundo dados de 2017 do Ministério do Trabalho.Essa situação também se reflete na visão sobre a história do Brasil. Um exemplo é o 13 de maio, dia da promulgação da Lei Áurea, de 1888, que ainda é lembrado como uma "dádiva". Deixam-se de lado as mobilizações populares e negras e exalta-se uma narrativa salvadora com a princesa Isabel à frente.

 

"O Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão. Mas ao mesmo tempo o Brasil, já o início do século XIX, tinha a maior população negra livre das Américas", explica a historiadora Ana Flávia Magalhães Pinto, pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB).

Segundo ela, 15 anos antes da abolição da escravatura no Brasil, seis a cada dez pessoas negras no país já haviam nascido livres ou haviam sido libertas. Os dados apontam que entre 600 e 800 mil pessoas foram libertadas no 13 de maio de 1888.

"Se nós tínhamos, então, uma ampla maioria da população negra já vivendo na condição de liberdade no momento da abolição, por que nós sabemos tão pouco sobre os caminhos que levaram essas pessoas — as experiências dessas pessoas na liberdade — bem antes do 13 de maio?", indaga a pesquisadora, que conta que essa população livre participou ativamente da luta pela abolição.

Para a historiadora, que é negra, a resposta está na criação de uma narrativa falsa sobre a identidade nacional.

Magalhães explica que essa narrativa traz consequências para a forma como o Brasil passa a enxergar o negro não só depois da abolição, mas também antes. 

"Faz com que a gente olhe para um passado mais recuado em que a gente só consiga enxergar as pessoas negras no lugar da escravidão. E ao enxergar a experiência negra restrita à escravidão, a gente não tem elementos para discutir a gravidade do racismo", explica.

Com isso a pesquisadora tenta jogar luz sobre a forma como é construída a narrativa da história brasileira, que para ela, não dá lugar à população negra. 

O protagonismo negro na luta pela abolição

Tendo em vista a narrativa salvacionista criada sobre o 13 de maio, destacando o papel da princesa Isabel em detrimento da própria população negra da época, essa data já não é considerada  a mais importante na agenda dos movimentos negros.

Hoje, o 20 de novembro, dia da Consciência Negra no Brasil, é a data mais importante da luta histórica de combate ao racismo no Brasil. Em outros momentos, esses movimentos utilizaram outras datas no mesmo lugar de mobilização.

"Se a gente pega a história dos clubes sociais negros, muitos deles vão acionar uma outra data da luta contra a escravidão, que é o 28 de setembro, a data em que foi promulgada a lei do ventre livre, em 1871", relembra a historiadora da UnB.