Geral

16/06/2017 as 21:09

Quadro político alimenta aumento da violência no campo

O Estado de Rondônia foi o que mais concentrou o maior número de assassinatos no ano passado

Agência Sputnik
Foto: © AFP 2017/ Evaristo Sá<?php echo $paginatitulo ?>

Levantamento da Comissão Pastoral da Terra (CPT), braço da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), revela que de janeiro a junho deste ano já chegam a 40 o número de assassinatos por disputa de terra no país.
O número é preocupante, pois já representa mais da metade das 61 mortes registradas ao longo de todo o ano passado. O aumento da violência é atribuído pela CPT ao atual contexto político e a uma maior pressão de parte da bancada no Congresso que reivindica abertura de novas frentes para o agronegócio.

Em entrevista à Sputnik Brasil, Humberto Palmeira, membro da coordenação nacional do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), diz que "com a chegada de Michel Temer ao poder foi dado um sinal verde aos latifundiários e às oligarquias a agirem de forma truculenta, e com certeza há interesses partidários nessas terras".

"É claro que essa violência é política, atribuída ao momento crítico que o país vive, em que o estado democrático de direito está sendo violado. O episódio de Pau D´Arco — onde 10 trabalhadores rurais foram baleados pela polícia durante cumprimento de ação de reintegração de posse da Fazenda Santa Lúcia, no Pará — foi um verdadeiro genocídio. O que assistimos por parte do governo federal foi um show midiático sem muita resolução. Esse episódio de Pau D´Arco é um exemplo de como o golpe deu liberdade para os latifundiários seguirem seus planos", afirma Beto.

O levantamento da Pastoral relativo a 2016 revela que a Amazônia Legal — área que compreende toda a Região Norte e partes do Maranhão e do Mato Grosso — registrou 79% dos assassinatos, 68% das tentativas e 89% das agressões físicas e ameaças de morte. O Estado de Rondônia foi o que mais concentrou o maior número de assassinatos no ano passado.

Para o integrante do MPA, a violência no campo está ligada também a uma disputa de projetos na agricultura brasileira. De um lado, um modelo baseado na concentração de grandes propriedades voltado ao agronegócio e à exportação (basicamente carnes e soja) e, de outro, da agricultura familiar, baseado no não uso de agrotóxicos e na diversidade de produção. Beto observa que boa parte da Amazônia é composta de terras públicas que poderiam ser utilizadas para fins de reforma agrária e instalação de pequenos agricultores.  

"Como a classe política brasileira é vinculada ao latifúndio e ao capital financeiro, a violência é uma violência política, de projetos distintos, um modelo que depende do agronegócio monocultor e outro que defende a terra na posse dos trabalhadores rurais, que tem como objetivo principal abastecer o mercado interno. A gente vive um processo de criminalização dos movimentos sociais. Com a consolidação do golpe, a bancada ruralista ampliou essa criminalização", diz Beto.

Na visão do integrante do MPA, para se falar em democracia no Brasil é necessário se discutir o acesso à terra, uma reforma agrária vinculada a um projeto sustentável de produção de alimentos que possa atender ao mercado interno. Segundo Beto, o MPA discute agora um novo modelo de agricultura para o Brasil, chamado Modelo Camponês, que prevê a criação de uma infraestrutura de produção e distribuição sob controle público e cooperativado.